Ttulo: Adorvel Mentirosa.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Livros Abril, So Paulo, 1983.
Ttulo Original: "Love, Lords and Lady-Birds"
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de
direitos de autor, este ficheiro no pode ser distribudo para outros
fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.

Adorvel mentirosa

Dividido entre duas amantes exigentes e insaciveis, o conde de Staverton
j tinha complicaes demais na vida, para ainda por cima se ver como
guardio de uma herdeira de dezoito anos. E, para seu desgosto, Petrina
no era uma debutante tmida igual s outras. Muito pelo contrrio.
Impertinente, atrevida e anticonvencional, a moa parecia ter uma
capacidade toda especial de se envolver em problemas. Ele nunca sabia
quando Petrina estava mentindo ou falando a verdade; quando ia obedecer
s suas ordens ou enfrent-lo com uma risadinha provocadora. Nessas
condies, o conde explodia: "Voc  uma garota abominvel! Vou mand-la
de volta para o colgio!" Mas poderia viver sem as loucuras de Petrina?

Livros Abril.
Barbara Cartland
Adorvel mentirosa
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
LIVROS ABRIL
Romances com Corao
Caixa Postal 2372 - So Paulo
Ttulo original:
"Love, Lords and Lady-Birds"
Copyright: (c) Cartland Promotions 1978
Traduo: Lygia Junqueira
Copyright para a lngua portuguesa- 1983 Abril S. A. Cultural-So Paulo


CAPTULO I
1819

Um dos guias dos quatro cavalos da carruagem mancou. O conde de Staverton
blasfemou baixinho. Depois, fez a carruagem parar. O lacaio pulou do 
assento traseiro do faetonte.
- Deve ter sido uma pedra, milorde - disse, correndo para a frente.
- Estas estradas so pssimas.
- Sim. pssimas - concordou o conde, evitando um termo mais forte.
Prendeu a rdea na parte dianteira do faetonte e tambm desceu.
A estrada era de fato muito pedregosa, e ele no se admirou por ver que 
uma pedra tinha entrado no casco do cavalo.
Achou, que talvez estivesse dirigindo a uma velocidade excessiva, numa 
estrada to ruim, mas tinha pressa de chegar a Londres e de se afastar da 
caceteao que tinha suportado enquanto era hspede de uma casa perto de 
St. Albans, aonde fora para assistir  luta entre dois conhecidos 
pugilistas.
Foi uma luta excelente. O conde apostou uma grande quantia no que acabou 
vencendo. Mas, tanto a companhia do anfitrio quanto a comida tinham sido 
medocres, do princpio ao fim.
A verdade era que o conde no se divertia com facilidade, achando muitas 
coisas e muitas pessoas "mortalmente tediosas", conforme ele mesmo dizia.
Era uma agradvel manh de primavera. Viam-se muitas flores silvestres no 
meio do capim ao lado da estrada. Havia prmulas nas sebes, os jacintos 
formavam um tapete azul sob as rvores da mata.
O conde viu o lacaio tirar a pedra do casco do cavalo, com todo o 
cuidado, para no soltar a ferradura.
Olhou com prazer para os animais, negros e combinando perfeitamente uns 
com os outros; eram os cavalos mais perfeitos que podiam ser vistos no 
Four-ln-Hand Club. O corle sabia que nenhum outro scio possua animais 
to bons.
Caminhou pela grama, para esticar as pernas, pouco lhe importando que o 
plen manchasse suas botas, que tinham sido lustradas com champanhe, 
conforme recomendava o Belo Brummell.
A seu lado erguia-se um muro de tijolos, mais alto do que os que 
costumavam cercar os parques das residncias de aristocratas.
Os tijolos, estreitos e antigamente vermelhos, tinham ficado escuros com 
o tempo, adquirindo um tom rosa sujo que fez com que o conde, um perito 
em antiguidades, soubesse que eram da poca elisabetana.
A luz do sol, brilhando nos tijolos, tornava-os de fato muito bonitos, e 
Staverton desejou que o muro que cercava sua manso, em Oxfordshire,
tivesse a mesma cor. De repente, um objeto pesado passou rente  sua
cabea, no a atingindo por uma questo de milmetros.
Caiu aos ps do conde com rudo. Ele viu, com espanto, que se tratava de 
uma valise, no pesada demais para se carregar, mas, sem dvida, 
perigosa, se tivesse atingido sua cabea. Olhou para o muro e percebeu,
no alto um vulto feminino. Surgiu, escandalosamente, um par de pernas
bem-feitas, antes que a dona casse no cho com graciosa agilidade, 
firmando-se nos ps, em vez de se esparramar, como era de esperar. A moa 
se virou, e s ento viu o conde, com a valise a seus ps.
- Voc fez uma coisa muito perigosa - disse ele, friamente. - Se a valise 
me atingisse, poderia ter me matado.
- Como  que eu ia saber que havia uma pessoa justamente no nico lugar 
por onde eu poderia descer?
Aproximou-se do conde, ao falar, e ele notou que ela segurava o chapu na 
mo e que seus cabelos eram louros com reflexos avermelhados.
Examinou-o. Seus olhos eram grandes, um pouco puxados nos cantos,
o que lhes dava uma expresso maliciosa. Nos lbios havia um trejeito 
petulante.
No era exatamente bonita, mas o conde achou que tinha um rosto 
fascinante, diferente do de qualquer jovem que conhecia.
- Suponho que esteja fugindo.
- Eu seria louca de pular o muro, se pudesse sair pelo porto respondeu a 
moa. Curvou-se para pegar a valise e nesse momento notou os cavalos do 
conde. - So seus? - perguntou, atnita.
- So, mas uma pedra entrou no casco do guia, devido s suas estradas 
abominveis, senhorita!
- Minhas, no! Mas eles so maravilhosos! So os cavalos mais magnficos
que j vi!
- Sua opinio muito me honra - respondeu o conde, irnico.
- Para onde voc vai?
- Para Londres.
- Ento, por favor, por favor, me leve tambm.  para l que quero ir, e 
nada me daria maior prazer do que ser conduzida por animais to 
perfeitos.
Ao dizer isso, aproximou-se dos cavalos, esquecendo a valise que ainda 
estava aos ps do conde.
- Creio que  meu dever perguntar de quem est fugindo e por qu disse 
ele.
A moa admirava os cavalos, com olhos brilhantes.
- So soberbos! - disse, ofegante. - Como conseguiu encontrar quatro 
animais que combinassem tanto?
- Eu lhe fiz uma pergunta - insistiu o conde.
- Sobre o qu? - perguntou, distrada. E depois: - Estou fugindo da 
escola. E, a no ser que o senhor queira que descubram minha ausncia,  
melhor irmos andando.
- No quero me envolver em nada censurvel.
- Que maneira pedante de falar! - zombou a moa. - Mas, se no me levar, 
ento Jeb, o aougueiro, me levar. Deve aparecer por aqui a qualquer 
momento.
- Tem encontro marcado com ele?
- No, mas falei com Jeb sobre os cavalos dele e sei que me far esse 
favor. - Olhou para a estrada, ao dizer isso, e depois de novo para o 
conde. - Leve-me, por favor... Nada do que possa dizer ou fazer me
far voltar, de modo que tem que ser o senhor ou Jeb. Mas eu gostaria 
muito de ser conduzida por esses cavalos. Nesse momento, o criado do 
conde se aproximou.
- Agora, est tudo em ordem, milorde. A moa ainda fitava o conde.
- Por favor - pediu, baixinho.
- Eu a levo, com uma condio.
- Qual ?
- Que me conte por que est fugindo. Se eu no achar o motivo vlido, 
devolvo-a  escola, menina.
- No pode ser to traioeiro! Mas, na realidade, meu motivo para fugir  
muito bom.
-  melhor que seja.
Ajudou-a a subir na carruagem e pegou as rdeas.
O lacaio apanhou a valise, colocou-a na parte de trs do faetonte, subiu 
para o assento de onde tinha descido e a carruagem partiu.
Seguiram durante algum tempo em silncio. O conde compreendeu que a moa 
no estava pensando nele, e sim, nos cavalos.
- Estou esperando - avisou.
- Esperando o qu?
- Voc sabe muito bem. E tenho a impresso de que est adiando as  
explicaes para ser levada o mais longe possvel da escola, antes de me
contar o que houve.
Ela sorriu de um modo encantador.
- Isso  muito inteligente da sua parte.
- No sou obtuso como parece pensar - respondeu ele, com ironia.
- com quem vai se encontrar, quando chegar a Londres?
A moa deu uma risada.
- Gostaria de poder dizer que  um namorado ardente e apaixonado, mas 
garanto-lhe que, se existisse um, eu teria feito com que ele viesse me 
buscar, em vez de ter que confiar em Jeb, ou na sorte de encontrar um 
estranho como o senhor.
- Nenhum namorado? Ento, por que essa pressa de chegar a Londres?
- Porque estou velha demais para continuar na escola e meu tutor horrvel 
e malvado insiste em que eu passe todas as frias em Harrogate.
- Que h de errado em Harrogate?
H tudo de errado em Harrogate!  maante, est cheia de gente
velha e doente. Quando estive l, nas ferias de Natal, no conheci nenhum
homem, a no ser o vigrio.
O tom da moa era to zangado, que o conde no pde deixar de rir.
Parece que voc sofreu muito, nesse lugar. Mas no havia outro
para onde pudesse ir?
No. no que diz respeito a meu tutor. Aquele miservel nem mesmo
responde s minhas cartas, e todas as sugestes que fao so repelidas 
por seu advogado.
- Ele parece uma criatura insensvel. Quando chegar a Londres, pretende 
enfrent-lo?
- Claro que no! No tenho a mnima inteno de chegar perto dele. E acho 
que a razo de ele no querer me ver, nem se comunicar comigo,  porque 
est gastando minha fortuna.
O conde olhou-a intrigado. Quando percebeu que ele notava o chapu 
simples, com fitas de tom azul-escuro, assim como o vestido sem graa, a 
moa explodiu:
- O senhor acha que no pareo uma herdeira rica. Mas por acaso isso  
de admirar, quando minhas roupas so escolhidas pela prima Adelaide, que
tem quase oitenta anos, e as contas, pagas pelo advogado de meu tutor?
Apertou os lbios, zangada, e continou:
- Fiz dezoito anos na semana passada, e todas as minhas amigas, minhas 
verdadeiras amigas, debutaram no ano passado. Eu ainda estava de luto 
pela morte de papai, de modo que acho que havia uma desculpa para no ser 
apresentada  corte, mas pensei que, este ano, me deixariam ir para 
Londres.
- Qual a razo de seu tutor no permitir isso?
- J lhe disse que nunca tenho a menor notcia daquele bruto! Escrevi-lhe 
pginas e pginas, depois do Natal, e o advogado dele respondeu, 
simplesmente, que eu devia ficar na escola at segunda ordem.
Respirou fundo e acrescentou:
- Esperei at agora. Trs meses... Depois, tomei uma deciso importante:
vou resolver por mim mesma!
- E, quando chegar a Londres, o que pretende fazer?
- Vou me tornar uma mundana.
- Uma... mundana?
-  assim que o irmo de Claire, Rupert, as chama, mas acho que h outras 
designaes: "rabo-de-saia", ou "dama-da-noite".
O conde ficou to atnito que, por um momento, afrouxou as rdeas, e os 
cavalos comearam a galopar. Ele os conteve e depois perguntou:
- Tem ideia do que est dizendo?
- Claro que tenho! Como no me deixam tomar meu lugar na sociedade, 
levarei a vida  minha moda.
- No posso acreditar que saiba do que est falando.
- Claire, minha melhor amiga, me explicou tudo, no ano passado, antes de 
sair da escola. Todos os rapazes elegantes tm amantes, e isso significa 
que a mulher que escolhem deve pertencer a eles e a mais ningum. Uma 
mundana pode escolher  vontade. Quando um homem a aborrece, ela procura 
outro mais interessante.
- E acha realmente que esse tipo de vida lhe convm? - perguntou o conde, 
escolhendo as palavras com cuidado.
- Deve ser mais interessante do que ficar sentada naquela escola cacete, 
j tendo aprendido tudo o que podem me ensinar. Mas, naturalmente, vou
ter muito cuidado na escolha do homem com quem pretendo passar meu tempo.
- Espero que sim!
- Imagine como vai ser divertido fazer o que eu bem entender, sem ter que 
ouvir as pessoas me dizerem que tudo o que fao  errado e pouco 
convencional!
- E o que pretende fazer?
- Em primeiro lugar, ir a Vauxhall para ver os fogos. Dirigir meu prprio 
faetonte, danar todas as noites, ter minha prpria casa e no me 
preocupar com casamento.
- No quer casar? - perguntou o conde.
- Claro que no! Ficar amarrada a um homem para sempre seria pior do que 
ser amante de algum! Alm do mais, Claire diz que a sociedade no passa 
de um mercado de casamentos.
- O que sua amiga Claire quer dizer com isso?
- Diz que todas as debutantes competem para-casar com algum idiota, 
porque ele possui um ttulo, ou com um velho gordo e de rosto vermelho,
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porque  rico. Pelo menos, essa  uma coisa com a qual no preciso me 
preocupar. Tenho uma grande fortuna. Se isso for mesmo verdade, seu tutor 
permitir que gaste um pouco
de seu dinheiro?
j lhe disse: no responde a minhas cartas. O advogado dele diz
para eu lhe mandar as contas, que sero pagas. Mas o que quero 
dinheiro vivo na mo.
- Creio que h melhores meios de obt-los. em vez de adotar a
profisso de que falou. - Profisso? Ser mundana  uma profisso, como 
ser mdico ou
advogado? -Que interessante!
O conde pensou em vrias respostas que poderia dar a uma mulher mais 
sofisticada, mas calou-se e, de rosto fechado, continuou dirigindo a
carruagem.
Estava imaginando o que dizer a essa menina impulsiva, que certamente no 
tinha a mnima ideia das consequncias do que pretendia
fazer.
Pensou no que poderia ter acontecido, no perigo, caso ela tivesse 
encontrado um dos rapazes desordeiros, e at mesmo dissolutos, que 
andavam pelas estradas, indo de um hipdromo a outro, apenas para 
encontrar divertimento e excitao.
- No me disse seu nome - comentou o conde, dali a um minuto.
- Petrina... - comeou ela, interrompendo-se logo.
- Deve ter um sobrenome.
- Como j lhe contei muita coisa sobre mim, acho melhor no dizer mais 
nada. Afinal, o senhor pode ter sido amigo de meu pai.
- Se assim fosse, eu tentaria certamente dissuadi-la de sua ideia
vergonhosa.
- Nada me far mudar de ideia. Estou decidida. Depois que estiver 
estabelecida, talvez procure entrar em contato com meu tutor.
- Creio que sim, se  que deseja que ele lhe d dinheiro. Petrina deu uma 
risadinha.
- Estava imaginando se o senhor iria dizer isso. Tive a mesma ideia e foi 
por isso que esperei tanto, antes de me decidir a ir para Londres.
- O que foi que voc fez?
- Guardei uma grande quantia em dinheiro, agindo com inteligncia.
- Como?
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- Mandei para os advogados umas contas que inventei.
- Que tipo de contas?
- De livros, de uniformes escolares, de todo tipo de coisas. Pensei que 
desconfiassem, mas pagaram sem discutir.
Havia tanto triunfo na voz da jovem, que o conde sorriu.
- Estou vendo que voc tem muitos recursos, Petrina.
- Tem que ser assim. Papai e mame morreram e no me resta nenhum 
parente, a no ser a coitada da prima Adelaide, que est com um p na 
cova.
O conde nada disse e ela continuou:
- Tenho certeza de que juntei bastante dinheiro para poder me 
estabelecer. Depois, quando eu for a moa mais falada da cidade, meu 
tutor no ter outro remdio, a no ser me entregar minha fortuna.
- Suponhamos que ele recuse. Petrina deu um suspirozinho.
- Claro que ele pode fazer isso. Nesse caso, terei que esperar at fazer 
vinte e um anos, quando receberei a metade, ou vinte e cinco, quando 
terei o total.
- Creio que, como acontece com todos os testamentos, h uma clusula, no 
caso de voc casar.
- Claro. E  por isso que no tenho inteno de casar e de entregar todo 
o meu dinheiro para meu marido fazer com ele o que bem entender.
- Respirou fundo e acrescentou, em tom de desprezo: - Ele pode ser igual 
ao meu tutor, ficar com tudo e no me dar nada.
- Nem todos os homens so assim - comentou o conde, bem-humorado.
- Claire diz que a sociedade est cheia de gananciosos, jovens 
aristocratas  procura de uma mulher rica para sustent-los. Acho que 
estarei melhor como mundana. Sim, tenho certeza.
- Como voc parece ter uma pssima opinio sobre os homens, no sei como 
 que vai considerar atraentes aqueles com quem se associar.
Petrina refletiu por um momento e disse:
- No preciso exigir muito deles, do ponto de vista financeiro. O irmo 
de Claire disse a ela que sua amante lhe custa uma fortuna, todos os 
anos. Exige carruagens, cavalos, uma casa em Chelsea e montes de jias, 
muito mais do que ele pode aguentar.
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- No sei quem possa ser "se tal irmo de Claire, mas acho que sua
descrico do beau monde no otalmente exata.
  o isconde Coombe -respondeu Petrina. - E Cla re diz que ele
 o supra-sumo do almofadinha
Essa era uma das poucas coisas exatas que Petrina havia dito ate ento,
pensou o conde. Conhecia oponde e achava-o um rapaz agradvel, mas um 
tanto estpido, que esbanjava a mesada que lhe dava o pai, o marqus de
Morecombe, de um modo que no deixava de ser notado nos clubes de St.
James.
Como se soubesse o que o conde pensava, Petrina perguntou:
- Conhece Rupert?
- Encontrei-o algumas vezes.
- Claire acha que seria bom marido para mim,
principalmente porque ele est sempre precisando de dinheiro. Mas respondi
que no quero um marido, quero ser independente.
- Espero que compreenda que isso  totalmente impossvel.
- Ento, como as outras mulheres se tornam mundanas?
- Para comear, em geral no so herdeiras ricas.
- No adianta ser rica, a gente no pode pr a mo no prprio dinheiro!.
- Se quer meu conselho acho que, antes de fazer qualquer coisa
drstica, voc deve ir procurareu tutor.
- O que posso ganhar com isso? Provavelmente, ficaria to zangado por eu
ter fugido da escola, me mandaria de volta, com uma escolta.
Ento, eu teria que fugir de novo.
 - Creio que, se explicar que est velha  demais para continuar na 
escola e que todas as suas amigas j debutaram
na sociedade, ele vai compreender.
- Compreender! - zombou Petrina. - Ele no teve a mnima compreenso, at
agora. Por que, por que motivo, entre todos os homens do mundo, papai foi
escolher justamente esse para meu tutor? Garanto que  velho, severo e
certamente beato, de modo que deve desaprovar tudo o que  divertimento.
- Por que acha que ele  assim?
- Porque, tendo levado uma vida excitante e aventurosa, papa iria querer
me proteger. Estava sempre dizendo: "Quando voc crescer, meu bem, jamais
cometa os erros que cometi.
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- E ele cometeu muitos?
- No creio. No no que me diz respeito. Mas participou de muitos duelos
por causa de mulheres bonitas, e acho que se referia a elas, quando me
dava conselhos. Seja como for, c estou eu, com esse maldito tutor nas
costas! Quando penso em todo o dinheiro fechado em seu cofre, ou
escondido embaixo do colcho, tenho vontade de gritar!
Seguiram em silncio durante algum tempo. Depois, o conde disse:
- J lhe falei que no quero me envolver em sua fuga maluca, e no
prometo nada, mas talvez, em vista das circunstncias em que nos
encontramos, eu possa falar com seu tutor.
Petrina virou-se para ele, surpresa, de olhos arregalados.
- Faria isso?  muita bondade sua! Retiro todas as coisas ms que pensava
a seu respeito!
- Que coisas?
- Achei que era pedante, pretensioso, o grande homem idoso, cheio de
sabedoria, mostrando-se condescendente com a pobre camponesa que no sabe
o que faz.
O conde no pde deixar de rir.
- Voc  a garota mais incorrigvel que j encontrei! No posso acreditar 
que pretenda realmente fazer o que disse, mas, por outro lado  to 
imprevisvel, que  bem capaz de agir assim!
- Falo srio - declarou Petrina. - E, se o senhor for conversar com meu 
tutor, pretendo me esconder para que, se ele disser "no", eu possa fazer
o que pretendo, sem que ele me encontre.
- Seus planos so no apenas impraticveis, como totalmente censurveis. 
E no seriam cogitados por uma mulher que se considerasse uma dama.
Petrina riu.
- Saiba que, cedo ou tarde, chegaramos ao assunto de ser "uma dama". 
"Uma dama no sai sem luvas." "Uma dama no sai sem ser acompanhada." "E 
no vai a bailes a no ser depois de adulta!" Estou farta de ouvir falar 
de "damas". Elas levam a vida mais montona, mais restrita deste mundo,
e quero ser livre.
- O tipo de liberdade que voc pretende ter  totalmente impossvel.
- S porque voc imagina que eu seja uma dama.
- Pois bem, voc , e nada pode fazer a respeito.
- A no ser agindo como uma dama-da-noite. - Petrina ficou em
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silncio durante alguns minutos e depois disse: - No posso deixar de
imaginar como  que elas se comportam, mas espero encontrar vrias, em
Londres. Claire disse que poderei reconhec-las, porque em geral so
muito elegantes e bonitas, e passeiam pelo parque desacompanhadas. 
Relanceou o olhar para o conde. - Excetuada a companhia de
cavalheiros,  lgico.
Mas as mulheres a quem se refere no so damas e. certamente, no
tm a fortuna que voc tem, para lhes dar segurana.
- Imagine como os cavalheiros vo ficar contentes, se no precisarem me 
dar carruagem, nem jias! Quanto o senhor gasta por ano, com sua
amante?
De novo o conde quase perdeu o controle dos cavalos. Respondeu,
asperamente:
- No faa tais perguntas! No fale dessas mulheres! Est ouvindo?
- Ah, sim? E por qu? O senhor no tem autoridade sobre mim,
como bem sabe!
- Posso me recusar a lev-la mais adiante - ameaou o conde. Petrina 
olhou ao redor, sorrindo. Tinham chegado  estrada principal e
agora havia muito trnsito, no apenas de carruagens particulares, como 
de diligncias e de malas-postas.
- Se eu tivesse um pouco de juzo, faria voc descer. E que fosse para o 
maldito lugar aonde quisesse ir!
Petrina riu.
- No vai conseguir me amedrontar, se  isso que pretende. Agora que 
estou to perto de Londres, -posso tomar uma diligncia ou alugar uma 
carruagem para o resto da viagem.
- E, quando chegar a Londres, onde pretende ficar?
- Num hotel.
- Nenhum hotel respeitvel a receberia.
- Conheo o nome de um que me aceitaria. Rupert disse que costumava ir 
para l, s vezes, com uma mundana, de modo que acho que
no me recusariam. O mal do visconde Coombe, pensou o conde, zangado, era 
falar com muita liberdade na frente da irm.
- J ouviu falar de The Griffin Hotel, em Jermyn Street? perguntou 
Petrina.
O conde tinha ouvido e sabia que no era um lugar prprio para uma
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moa ir sozinha, principalmente uma to jovem e to pouco sofisticada
como Petrina.
- Vou lev-la diretamente para seu tutor e explicar-lhe seu problema.
Petrina. Garanto que ele me ouvir e espero que aja de maneira razovel.
- Talvez o oua, se o senhor for bastante importante. E acho que deve 
ser, com os cavalos que possui!
- Qual o nome de seu tutor?
Petrina no respondeu logo, e o conde percebeu que ela estava 
considerando se podia confiar nele. Devido  relutncia da moa, 
Staverton perdeu a pacincia.
- com mil diabos! Estou fazendo o possvel para ajud-la. Qualquer outra 
pessoa ficaria agradecida.
- Estou agradecida por ter me trazido at aqui - respondeu Petrina. 
lentamente.
- Ento, por que hesita tanto em confiar em mim?
- No  isso. A questo  que acho que o senhor  to velho, que j 
esqueceu o que  ser jovem.
O queixo do conde enrijeceu.
Velho! Velho aos trinta e trs anos? Mas, com certeza, era essa a ideia 
que uma jovem de dezoito fazia dele. Ao olhar para Petrina, viu-lhe a 
expresso maliciosa.
- Est me provocando de propsito! - disse, em tom acusador.
- O senhor se mostrou muito convencido, o tempo todo, falando comigo como 
se eu no tivesse um pingo de miolo na cabea! Pois digo-lhe que sou 
considerada extremamente inteligente.
- O que est pretendendo fazer nada tem de inteligente.
- Acho que consegui perturb-lo, e isso me encanta - Petrina observou.
- Por qu?
- Creio que  porque o senhor  to onipotente. to invulnervel aos 
problemas e s dificuldades dos seres humanos comuns como eu. O senhor me 
faz ter vontade de lhe atirar pedras.
- Ento, foi uma pena no me acertar com sua valise. Eu poderia ter 
ficado inconsciente no cho e voc seria presa por causar danos 
corporais. ;
Petrina sorriu com ironia.
- Eu no ficaria esperando para ser presa. Teria fugido.
- Parece que tem um dom para isso!
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Pois no me sa to mal, para uma primeira tentativa, no acha?
Aqui estou eu, indo para Londres, conduzida pelos cavalos mais soberbos 
que j vi, ao lado de...
Interrompeu-se e olhou para ele.
Pela primeira vez, notou a gravata de um branco imaculado, o n 
complicado, as pontas do colarinho engomado contra o queixo, a cala 
amarela, bem justa, a cartola colocada meio de lado nos cabelos escuros.
- Sei quem o senhor ! - exclamou Petrina. -  um almofadinha! Sempre 
tive vontade de conhecer um.
- Em vez de falar de mim, estou esperando que me diga o nome de seu 
tutor. E, depois, o seu prprio sobrenome.
- Muito bem, vou me arriscar. E, se acontecer o pior, sempre poderei 
fugir, para que o senhor no me encontre.
- Isso vai ser difcil, se voc ficar "falada em toda a cidade" como 
pretende.
Ela deu uma risadinha.
- O senhor  bom nas respostas! Gosto disso.
Sendo o conde conhecido como um homem espirituoso, cujos bonss motes
eram invariavelmente repetidos nos clubes, essa ingnua observao de Petrina
fez com que ele sorrisse, cinicamente.
- Muito bem - disse Petrina. com um suspiro. O nome de meu tutor 
horrvel, cruel, bestial  conde de Staverton!
- Eu devia ter previsto - comentou o conde. Lentamente, quase que se 
forando a pronunciar as palavras, acrescentou: - Ento, seu sobrenome  
Lyndon. E seu pai era Lyndon, "o Sortudo"!
- Como sabe disso? - perguntou Petrina, de olhos arregalados.
- Porque sou eu que tenho a infelicidade de ser o seu tutor!
- No acredito! No  possvel! Em primeiro lugar, no  bastante velho 
para isso.
- H poucos minutos, voc disse que eu era velho demais!
- Mas pensei que meu tutor fosse decrpito, tivesse cabelos brancos e 
andasse de bengala!
- Sinto decepcion-la.
- Ento, se  mesmo o meu tutor, o que fez com meu dinheiro?
- Asseguro-lhe que, pelo que sei, est intacto.
- Ento... ento... por que agiu de maneira to horrvel para comigo?
- Para dizer a verdade, tinha me esquecido de sua existncia. 17
Percebeu que Petrina se contraa com o insulto continuou: - Na realidade, 
quando seu pai morreu, eu estava no estrangeiro. Quando voltei, tinha 
muitos negcios a tratar, porque acabara de herdar o ttulo e as
propriedades. Receio que seus problemas, Petrina, ficaram de lado, por
causa dos meus.
- Mas deve ter dito a seu advogado que eu devia ir para Harrogate nas 
frias, ficar com a prima Adelaide.
- Eu lhe disse que cuidasse do assunto como achasse melhor.
- Mas o senhor conheceu papai?
- Seu pai e eu servimos no mesmo regimento. Antes da batalha de Waterloo, 
muitos de ns fizemos testamento. Os que eram casados deixaram os filhos 
e s vezes at as esposas aos cuidados de amigos que eles achavam capazes 
de tomar conta de suas famlias, caso morressem em combate.
- Papai era mais velho do que o senhor?
- Muito mais velho. Mas jogvamos cartas juntos e ambos gostvamos muito 
de cavalos.
- Ento, s porque o senhor entendia de cavalos, papai achou que seria um 
tutor adequado para mim! - observou Petrina, com amargura.
- Pois bem, espero apenas que no cu, ou seja l onde estiver, ele 
compreenda que trapalhada fez!
- Estou surpreso por seu pai nunca ter mudado o testamento.
- Talvez tenha achado que no havia ningum mais adequado do que o 
senhor. Em todo caso, no esperava morrer quando morreu.
- No, claro que no. Foi um acidente?
- Esteve bebendo com uns amigos e, quando voltavam para casa a cavalo, 
algum o desafiou a pular um muro alto. Papai nunca resistiu a uma 
aposta.
- Sinto muito.
- Eu o amava, embora ele s vezes fosse imprevisvel - disse Petrina.
- E sua me?
- Morreu durante a guerra, quando papai estava com o exrcito de 
Wellington.
- E s sobrou a prima Adelaide - disse o conde.
- Sim, a prima Adelaide... - respondeu Petrina, em tom diferente.
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ningum, a no ser o senhor, poderia achar que era uma companhia dequada 
para uma moa.
Creio que devo deixar que voc mesma escolha sua dama de
ompanhia.
- No vou ter nenhuma!
Oh, sim, vai! Como seu tutor, vou arranjar uma, imediatamente. E,
e voc se mostrar agradvel, permitirei que d sua opinio.
Petrina encarou-o, desconfiada.
Est pretendendo me apresentar  sociedade?
Creio que ser necessrio, mas garanto-lhe que no tenho o mnimo
desejo de fazer isso. No posso imaginar o que vou fazer com uma 
debutante pendurada no meu pescoo; ainda mais, uma como voc.
- No quero ser uma debutante, quero ser uma mundana.
- Se eu a ouvir falar nisso mais uma vez, dou-lhe uma boa surra. E acho
que, se voc nunca apanhou, isso foi uma falha em sua educao.
- Se pretende assumir essa atitude para comigo, vou fugir agora mesmo e o  
senhor nunca mais me encontrar.
- Ento, ficarei com sua fortuna. Voc j me acusou de gastar parte dela 
comigo mesmo.
- E fez isso?
- No, claro que no! Acontece que sou muito rico.
- Ento, gostaria que me entregasse imediatamente tudo o que possuo.
- Creio que vai receber a metade, quando fizer vinte e um anos; ou o 
total, quando casar.
Petrina bateu o p.
- Est apenas repetindo as minhas palavras. Gostaria de ter sabido quem o 
senhor era, quando eu estava esperando por Jeb.
- Pense na sorte que teve - disse o conde, zombeteiro. - Por mera 
coincidncia, aconteceu de eu ser o seu tutor, como num conto de fadas. 
Sacudi minha varinha de condo, voc vai para Londres, faz uma reverncia 
para a rainha, no Palcio de Buckingham e, se quiser, tambm para o 
regente. A comear a fazer parte do beau monde.
- Quer dizer que todo mundo me dar ateno, por eu ser sua pupila?
- E, naturalmente,  tambm uma herdeira rica.
- No vou casar com ningum, mesmo que pretenda me arranjar um marido
adequado.
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- Se pensa que vou me preocupar com suas aventuras amorosas, est muito enganada. vou arranjar-lhe uma dama de companhia e, como minha casa  muito grande, acho 
que pode morar l, por enquanto. Se me aborrecer ou se mostrar difcil, alugarei uma casa para voc.
- E no vou v-lo? - perguntou a moa, curiosa.
- No muito. Tenho uma vida organizada, muita coisa para fazer e, francamente, acho que as moas so maantes.
- Se so iguais s moas com quem convivi na escola, isso no  de admirar. Mas creio que elas se tornam mulheres da sociedade, espirituosas, sofisticadas, com as 
quais o senhor tem casos de amor tempestuosos.
- Quem lhe disse isso?
- Claire disse que todos os cavalheiros elegantes tm amantes. Afinal, que me diz do regente? E a maioria das mulheres tem amantes.
- Se voc deixar de citar sua amiga tola e mal-informada, acho que nos daremos muito melhor - disse o conde, irritado.
- Mas  verdade, no ?
- O que  verdade?
- Que o senhor teve casos amorosos com uma poro de mulheres. Isso era inegvel, mas fez com que o conde ficasse profundamente
irritado.
- Quer parar de falar de coisas que nenhuma moa bem-educada deve mencionar?! - esbravejou. - Quando eu a apresentar  sociedade. Petrina, voc ser repudiada pelas 
anfitris mais importantes, se falar de amantes e de outras criaturas vulgares s quais se referiu desde que nos conhecemos.
- Acho que est sendo muito injusto. Afinal, o senhor me fez perguntas e respondi com sinceridade. No adianta se queixar, s porque no menti. Como  que podia 
saber que era meu tutor?
O conde controlou-se com esforo.
- No posso acreditar que uma moa com as suas oportunidades no queira ser um sucesso. E ser impossvel isso acontecer, a no ser que controle sua lngua.
- Tive que fazer isso na escola, mas tinha esperana de poder ser eu mesma quando sasse. E no sei o que h de errado nisso.
- Toda a sua atitude est errada - respondeu o conde, severamente.
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As moas bem-comportadas e bem-educadas fazem seu dbut e depois
casam, e no sabem nada a respeito do lado feio da vida.
O senhor se refere s mundanas e s damas-da-noite?
Exatamente.
Pois bem, Claire sabe tudo a respeito delas.
- Claire tem um irmo que, obviamente,  um irresponsvel em relao  irm.
- Tenho a impresso de que Rupert e eu teramos muita coisa em comum.
-  possvel - respondeu o conde. - Nesse caso, talvez ele queira casar com voc. Como, um dia, vai ser o marqus de Morecombe. eu daria meu consentimento de bom 
grado.
- L vem o senhor! Falando como uma aristocrata velhota que est empurrando a filha para o altar! Rupert quer meu dinheiro e o senhor acha que desejo o ttulo dele. 
Pois bem, quero deixar bem claro, meu caro tutor, que no tenho inteno de casar com ningum, a no ser que eu venha a pensar sobre os homens de maneira muito diferente 
de como penso agora.
- Os homens sobre os quais voc nada sabe, a no ser por um vigrio.
- L vem o senhor de novo, repetindo minhas palavras. Est certo, os homens sobre os quais nada sei. Mas, mesmo em Londres, eles devem ter ouvido falar de uma coisa 
chamada amor.
- Estou surpreso por voc ter ouvido falar nisso.  a primeira vez em que menciona tal sentimento.
- Tenho pensado nisso - disse Petrina, sria. - Tenho pensado muito.
- Fico satisfeito.
- Mas tenho a impresso de que  uma coisa que nunca virei a sentir.
- Por qu?
- Porque, quando as moas, na escola, falavam em amor, ficavam melosas. Falavam de um rapaz que conheceram nas frias como se ele fosse um Adnis. Iam para a cama 
e colocavam embaixo do travesseiro um papel com o nome dele, com esperana de sonhar com o tal rapaz. Claire chegou mesmo a ser beijada!
- Eu devia ter adivinhado - comentou o conde, com ironia.
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- Ela disse que a primeira vez foi muito decepcionante. nada do que havia imaginado. A segunda foi melhor, mas nada houve de romntico.
- O que ela esperava?
- Mais ou menos o que Dante sentiu por Beatriz, ou Romeu Julieta, mas tenho a impresso de que os homens comuns no so assim.
- Houve silncio. Depois, Petrina disse: - Resolvi que nenhum homem me
beijar, enquanto eu no desejar isso. Claro que gostaria qi tentassem,
para eu ter a satisfao de me esquivar.
- A verdade  que sua perspectiva da vida  de completa ignorncia -
- respondeu o conde, zangado. - Voc s sabe o que sua amiga Clair lhe
contou. E a maior parte das coisas ela aprendeu de segunda mo, por
intermdio do irmo Rupert. Meu conselho  que voc comece tudo novo, sem
uma poro de ideias tolas preconcebidas.
- Naturalmente, as coisas podem ser melhores do que penso.
- Sinceramente, espero que sim.
- Posso ter uma poro de vestidos?
- Quantos quiser, j que vai pagar por eles. Ela deu um suspiro de 
satisfao.
- Vou gostar de ver os homens me olharem com admirao o naturalmente, de 
v-los rir do que eu disser, porque sou muito espirituosa.
- No fiquei impressionado com o que voc disse, at agora.
- Ainda no tive muita oportunidade. Mas, assim que eu estiver instalada
tranquilamente em Londres, tudo vir naturalmente.
- Espero que no. As coisas que voc diz com naturalidade me fazen 
estremecer.
- O senhor leva tudo muito a srio. Conforme j lhe disse, esqueceu de
ser moo e despreocupado. Se realmente vou debutar, como sugeriu pretendo
ser a mais saliente, a mais excitante e, certamente, a mais falada
debutante que Londres jamais conheceu!
-  justamente disso que tenho medo - gemeu o conde.
- Agora, o senhor est sendo de novo teimoso e convencido respondeu  
Petrina, com ironia.

CAPTULO II

Quando chegaram a Londres e passaram por Park Lane, Petrina observou tudo
com olhos brilhantes de excitao.
Tinha ido muitas vezes a Londres, mas a casa de seu pai era em 
Worcestershire e ela se esquecera de como as ruas estavam sempre cheias 
de gente e como tudo era colorido.
Quando viu Staverton House, ficou atnita.
Nunca pensara que uma pessoa sua conhecida pudesse viver numa manso to 
magnfica.
A propriedade ficava na esquina de Upper Grosvenor Street com Park
Lane, e tinha trs acres.
Na entrada havia um majestoso muro de pedra com oito colunas e postes de
iluminao entre elas.
Havia tambm uma entrada para carruagens, protegida por um imponente 
porto de metal com um fronto onde se via o braso da famlia.
- Mora aqui sozinho? - perguntou Petrina, olhando para as alas dos
dois lados da parte central da casa.
Havia em sua voz uma nota de espanto que fez com que o conde
dissesse:
- Estou contente por ver que alguma coisa a meu respeito a
impressiona.
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Quando entrou no enorme hall de mrmore e viu as portas de mogno slido
com aplicaes de ouro, as lareiras de mrmore de Garrara e as mesas de
lpis-lzuli, Petrina ficou ainda mais impressionada.
Mais tarde, saberia que a casa continha a mais bela coleo de quadros de
Rembrandt do pas, alm de obras de Velzquez e de Rubens.
No salo havia quadros italianos, franceses, holandeses e flamengos. Na
saleta estavam penduradas duas obras-primas de Gainsborough e retrato da
sra. Siddons, feito por sir Joshua Reynolds.
Mas, nesse momento, Petrina no sabia disso, ficando apenas atnita e
sentindo-se insignificante, o que fez com que erguesse o queixo de modo
desafiador.
- Seja bem-vindo, miiordee - disse o mordomo, que trajava uma magnfica
libr preta e dourada, com gales dourados.
- Diga ao sr. Richardson que quero falar com ele, imediatamente falou o
conde, tirando o chapu e as luvas.
- Devo inform-lo, senhor, de que Sua Graa, a duquesa de Kingston, 
chegou hoje  tarde - avisou o mordomo, em tom respeitoso.
- Nada podia ser mais oportuno. - O conde, virando-se para Petrina. 
acrescentou: - Minha av est aqui, o que considero uma coincidncia 
extremamente feliz.
- Sua Graa est descansando - disse o mordomo.
- Diga  sra. Meadows que cuide da srta. Lyndon.
Staverton subiu a escada curva, passando por uma coleo de retratos que 
tinham sido encomendados por seu pai a artistas contemporneos.
Ao chegar em cima, virou para a ala oeste, onde sempre eram acomodados 
seus hspedes, para que ficassem o mais longe possvel da parte da casa 
ocupada por ele.
L, dois quartos eram reservados exclusivamente para sua av, sempre que 
ela vinha a Londres.
O conde encontrou-a sentada confortavelmente numa poltrona, na atraente 
saleta contgua ao quarto de dormir. A saleta estava perfumada, devido s 
flores que vinham das estufas da casa de campo do conde.
Como se esperasse pelo neto, a duquesa ergueu os olhos, quando ele 
entrou, tendo nos lbios um sorriso de boas-vindas.
A duquesa-me tinha sido muito bonita, em moa.
O duque de Kingston se apaixonou por ela  primeira vista. Casaram  
meia-noite, na Capela Mayfair, para que no pudesse haver oposio nem
um
protestos por parte da famlia do duque, que esperava que ele fizesse um
casamento muito mais vantajoso.
Mas era uma unio entre duas pessoas que se amavam realmente, e a duquesa 
tornou-se uma personalidade, por direito de conquista.
Havia poucas pessoas, desde a rainha at o menos importante empregado da 
propriedade do duque, que no a admirasse e no a reverenciasse.
Seus cabelos, agora, eram brancos como a neve, o rosto, cheio de rugas. 
Mas ainda tinha uma beleza que os artistas desejavam reproduzir numa 
tela. Estendeu para o neto as mos cheias de veias, num gesto
afetuoso.
- Ouvi dizer que voc no estava em Londres, Durwin.
- Acabo de chegar e estou muito satisfeito por encontr-la aqui, vov. -
Beijou-lhe as duas mos e o rosto, e perguntou: - O que a traz a Londres? 
Como se eu no soubesse!
- Precisava ir ao dentista - respondeu ela, com firmeza.
- Tolice, vov. Sabe to bem quanto eu que estamos no comeo da estao e 
que voc no quer perder o turbilho social. Para dizer a verdade, h 
quinze dias que estou esperando sua chegada.
- Estou velha demais para a vida social - disse a duquesa. Mas seu 
sorriso desmentia essas palavras.
- Voc no podia ter chegado num momento mais oportuno, no que me diz 
respeito - comentou o conde, sentando-se numa cadeira ao lado dela.
- Vai me contar que est noivo? Espero que no seja de uma dessas vivas 
importunas que no o deixam em paz.
- No, vov. No estou noivo e no pretendo ficar acorrentado a nenhuma 
viva, ou, para dizer a verdade, a qualquer outra mulher.
- Pelo que ouvi dizer, voc se diverte bastante com elas.
- Seria difcil evitar que voc ouvisse falar de minhas aventuras, j que 
est sempre a par de todos os escndalos de Londres, tanto em Carlton 
House quanto em outros lugares.
- Carlton House!
Sabendo que, se a av comeasse a falar do prncipe regente, no Pararia 
mais, o conde interrompeu-a, rapidamente:
- H uma coisa que quero lhe contar.
- Que coisa?
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- Descobri, por acaso, que fui omisso em relao a uma pupila que me foi confiada.
- Uma pupila? No sabia que voc jamais tivesse sido nomeado tutor de algum. Lembro que meu pobre marido...
- Tenho certeza de que meu av tinha plena conscincia de suas responsabilidades - interrompeu o conde, outra vez. - Infelizmente, as minhas ficaram esquecidas at 
hoje.
- Que aconteceu hoje? - perguntou a duquesa, curiosa.
- Encontrei minha pupila por acaso e trouxe-a para Londres.
- Ento,  uma moa! - exclamou a duquesa, com ar de quem acaba de fazer uma grande descoberta. - E suponho que, tendo imposto sua presena a voc, ela vai querer 
lev-lo ao altar.
O conde riu.
- Pelo contrrio, vov. Ela est decidida a no casar com ningum.
- No casar? Ser que existe no mundo uma moa que no queira pegar um marido e, principalmente, voc?
- Precisa conhecer Petrina, vov. Por falar nisso,  uma herdeira rica. de modo que no h pressa em lhe arranjarmos um marido.
- Est dizendo que trouxe essa moa para c?
- E voc vai lhe servir de dama de companhia, vov. Pelo menos, hoje  noite.
- Tenho a impresso de que voc no ficou bom da cabea, desde que saiu daqui. Uma moa, em Staverton House? Nunca vi semelhante coisa!
- Nem eu - observou o conde, contrariado. - Mas, como seus pais morreram e ela fugiu da escola, no h ningum a quem possa recorrer.
- Que aparncia tem ela? - perguntou a duquesa, com ar desconfiado. - Se pensa que vou acompanhar uma caipira sem traquejo social e sem educao, est muito enganado!
- E bonita. Seu pai era o major Maurice Lyndon, que serviu comigo no regimento.
- Lyndon, o Sortudo?
- Ouviu falar nele?
- Claro que ouvi falar nele! Voc era muito jovem para se lembrar, ou no estava interessado, mas seu primo Gervaise Cunningham o desafiou para um duelo.
- Eles duelaram?
- Claro que sim! com sua sorte habitual, Lyndon feriu o pobre
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jervaise. embora a culpa fosse de Lyndon, por ter sido apanhado em circunstncias comprometedoras com Caroline, a mulher do outro.
- Confesso que, se eu soube disto, tinha esquecido completamente.
Caroline era apenas uma das mulheres que estavam interessadas por
Lyndon... e, naturalmente, por sua imensa fortuna.
- Como ele fez fortuna?
A duquesa abriu as mos, num gesto expressivo.
- Jogando. Mas no com cartas. com aes, navios, propriedades em vrias partes do mundo. Creio tambm que ganhou na loteria, na Frana, no valor de milhes de francos.
- Como sabe tanta coisa a respeito dele, certamente vai achar a filha interessante. Mas suplico-lhe, vov, que no lhe fale muito sobre as aventuras do pai. Ela 
j est com vontade demais de ter as prprias aventuras.
- Mas deve ser moa demais para ter tido oportunidade de fazer alguma coisa censurvel. Principalmente estando na escola.
- Voc ficaria admirada! - observou o conde, em tom enigmtico. Levantou-se e saiu para ir buscar Petrina.
Enquanto o conde estava com a av, Petrina tirou o chapu e o casaquinho que usava sobre o vestido simples de colegial.
Deveria ter uma aparncia jovem e no sofisticada, mas, devido ao brilho dourado dos cabelos,  expresso maliciosa dos olhos amendoados e ao sorriso zombeteiro, 
o conde teve a impresso de que ali estava uma criatura que precisava ser vigiada, porque ningum sabia o que ela poderia fazer em seguida.
- Minha av concordou em lhe fazer companhia, por enquanto disse ele a Petrina, em tom severo, quando subiam a escada lado a lado.
- E, se voc se mostrar agradvel com ela, no existe pessoa mais adequada para apresent-la  sociedade.
- O que o senhor realmente quer dizer  que preciso ter cuidado com minhas palavras.
- E ver como se comporta! Ela o olhou, com olhos brilhantes.
- Tenho a impresso de que est nervoso e preocupado comigo.
- No tenho o mnimo desejo de ver voc se desacreditar, ou me
desacreditar, pelo fato de eu ter a infelicidade de ser seu tutor.
- Pois creio que o senhor vai achar muito divertido, depois que se
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acostumar comigo. Alm do mais, j percebi que vive aqui no meio de  toda
essa grandeza, sem ter no que pensar, a no ser na prpria importncia.
J  tempo de algum acord-lo.
- No tenho a mnima vontade de acordar, se com isso voc que dizer que 
terei que passar o meu tempo salvando-a de algum aperto. Eeixe-me
dizer-lhe, Petrina, que, se voc se comportar mal, tenho o poder e
autoridade para mand-la para Harrogate, quer queira ou no.
Petrina fez uma careta.
- O tutor com mo de ferro! - zombou. - No se preocupe. Farei o possvel
para ficar longe de seu caminho.
- Gostaria de ter certeza disso - respondeu o conde. Quando abriu a porta 
do quarto da av, ouviu a risadinha de Petrina.
Levantando-se cedo porque achava difcil seguir os hbitos do pessoal 
elegante da cidade, Petrina foi para a janela do quarto e viu o conde 
chegar a cavalo, vindo pela alameda do jardim.
Sabia que ele gostava de cavalgar pelo parque, bem cedo, antes que 
houvesse muita gente. Desejou, como muitas vezes tinha desejado, que a 
convidasse a acompanh-lo.
Ficou imaginando se o conde encontraria alguma mulher bonita e atraente, 
ou se preferia ficar s, nessa hora matinal.
Desde que chegara a Londres, Petrina tinha descoberto muita coisa a 
respeito do tutor.
Em primeiro lugar, Claire, que Petrina procurou no dia seguinte ao de sua 
chegada, ficou embasbacada quando soube onde a amiga estava hospedada e 
quem era seu tutor.
- Como  que voc no me falou do conde? - perguntou Claire.
- Eu sentia vergonha de ter um tutor que no ligava para mim. E o 
detestava porque acreditava que era velho, severo e desagradvel.
- Agora sabe que no  nenhuma dessas coisas. Oh, Petrina, como a invejo! 
Sempre desejei conhecer o conde, mas  sabido que ele nunca fala com 
moas solteiras.
- Tem que falar comigo.
Petrina no estava disposta a confessar  amiga que, desde sua chegada a 
Staverton House, no tinha tido uma conversa particular com o conde, 
vendo-o apenas em jantares com convidados, do outro lado da mesa.
Quanto a seu prprio tempo, era ocupado com compras.
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Descobriu que a duquesa no apenas gostava de visitar as lojas mais 
careiras de Bond Street, como tinha ideias definidas sobre o modo de 
vestir de sua protegida, se  que esta pretendia chamar a ateno do beau
monde.
A princpio, Petrina ficou com receio de ser obrigada a vestir roupas de 
"mocinha", que fariam com que parecesse insignificante ou igual s outras 
debutantes da estao.
Mas percebeu, encantada, que a duquesa, tendo obtido mais sucesso com sua 
aparncia do que com seus antecedentes, sabia exatamente como uma pessoa 
pode chamar a ateno, sem ofender o bom gosto.
Foi graas  duquesa que a moa fez sucesso desde o momento em que entrou 
num salo de baile.
No sabia que seus cabelos podiam parecer uma tocha ardente no alto da 
cabea bem-feita, ou que, com um pouco de maquilagem, sua pele ficaria 
perfeita, e seus olhos, to grandes que pareciam tomar todo o rosto.
Mais ainda: Petrina nunca desconfiou, quando usava os vestidos feios e 
informes escolhidos pela Adelaide, que sob eles houvesse um corpo muito 
bem-feito.
Isso se tornou patente, depois que vestiu as criaes de uma costureira
francesa.
- Tive muito orgulho de voc, hoje  noite, querida - disse a duquesa, 
depois de Petrina ter feito um grande sucesso no baile dado pela duquesa
de Bedford.
- Graas  senhora - respondeu a moa, com simplicidade.
- Voc valoriza os vestidos e, pelo menos, sabe conversar! Nunca suportei 
o tipo de moa que s sabe dar um sorriso afetado ou  encabulada demais 
para levantar os olhos.
Petrina riu.
- Na opinio de meu tutor, no sou encabulada demais, e sim, saliente 
demais. Sei que ele fica apavorado, pensando no que vou falar ou fazer.
Ao dizer isso, compreendeu que provavelmente ele no daria ateno ao que 
ela dissesse.
Embora as tivesse acompanhado a vrios bailes, o conde no a tirara para 
danar nem uma s vez. Petrina tinha notado que os pares do conde
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eram exatamente as mulheres atraentes e sofisticadas que ela esperava
que
fossem.
Foi Claire quem lhe deu informaes.
- H mais de um ano, o conde est interessado em lady Isolda Herbert. Ela 
ficou viva durante a guerra, quando era muito moa. e desde ento tem 
feito grande sucesso.
- Acha que vai casar com ela? Claire encolheu os ombros.
- Quem sabe? Todas as mulheres tm tentado pesc-lo, mas dizem que seus 
casos amorosos no duram muito. Ele acha as mulheres muito maantes, 
depois que as conhece bem.
- Foi seu irmo Rupert quem lhe disse isso?
- Oh, Rupert teve muito que contar, depois que lhe perguntei sobre o 
conde. A amante dele  muito atraente. Creio que Rupert a cobiou, mas 
no podia se dar ao luxo de sustent-la.
- Quem  ela?
- Chama-se Yvonne de Vouvray.  uma cantora de Vauxhall Gardens.
- Gostaria de ouvi-la cantar - disse Petrina.
- Duvido que a av do conde permita que voc v a Vauxhall. , 
decididamente, considerado um lugar "imprprio" para debutantes. Mas 
talvez Rupert e eu possamos lev-la s escondidas uma dessas noites, sem 
que seu tutor fique sabendo.
- Por favor, tente!
Estava muito curiosa para ver a amante do conde, mas, depois de ter visto 
lady Isolda, desconfiou de que ela tivesse cabelos escuros.
A moda dos cabelos louros e dos olhos azuis, que tinha como exemplo a 
duquesa de Devonshire, j no era to apreciada. Agora, as morenas faziam 
sucesso, principalmente quando eram bonitas como lady Isolda.
Os cabelos cor de azeviche, as sobrancelhas em formato de asas. os olhos 
escuros, tudo isso era realado pelas jias que ela usava (rubis 
magnficos, esmeraldas ou opalas), assim como pelos vestidos de todas as 
cores do arco-ris.
Na vspera, quando foi tomar ch com Petrina, Claire perguntou:
- Em que est pensando?
Estavam sozinhas, porque a duquesa tinha ido repousar, depois de ter
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passadovrias horas nas lojas. As duas moas tomavam ch na saleta, e
petrina achava um dos mais bonitos aposentos da casa.
Para dizer a verdade, estava pensando em lady Isolda.
- Voc a viu. ontem  noite, no ?
Como sabe?
Vi quando voc chegou ao baile, e lady Isolda estava em seu grupo.
Conversou com ela? - perguntou Claire.
- Ela me estendeu dois dedos e me olhou de cima para baixo.
- Voc conseguiu isso porque est hospedada em Staverton House. J a 
encontrei uma dzia de vezes e ela nunca me reconhece.
Petrina riu.
-  pretensiosa, como meu tutor. Talvez seja por isso que o conde gosta 
dela.
Claire olhou por sobre o ombro, como se tivesse receio de que algum 
ouvisse, e disse, em voz baixa:
- Rupert diz que, nos clubes, ela  conhecida como tigresa!
- Tigresa? Por qu?
- Porque  ardente e apaixonada.
- No tenho essa impresso dela.
- Isso  que  esperteza. Parece fria e desdenhosa, at se ver a ss com 
um homem de quem gosta.
- E ela gosta... do conde - murmurou Petrina.
- Rupert diz que agora esto apostando que eles vo casar. Todo mundo 
fala da ligao dos dois e que, cedo ou tarde, ele ser forado a casar 
com ela.
- Parece um modo muito deprimente de conseguir marido observou Petrina.
Claire deu uma risada.
- J lhe disse que, se voc quiser pegar um homem, ter que lhe colocar
algemas e arrast-lo at o altar. Todos eles so contra o casamento.
Viu a expresso de Petrina, riu novamente e continuou:
- Voc  diferente;  uma herdeira rica. Rupert disse que todos os beaux 
esto falando de seus atrativos. nos quais est includa sua conta 
bancria.
- Desconfiei disso.
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Petrina entrou em Staverton House atrs da duquesa, que se movia 
lentamente, devido ao reumatismo em uma das pernas.
O mordomo inclinou-se com habitual obsequiosidade. Quando a duquesa 
comeou a subir a escada, ele disse a Petrina:
- O senhor conde gostaria de v-la, na biblioteca, senhorita.
Petrina sentiu uma sbita excitao. Era a primeira vez, em quine dias, 
desde que tinha chegado  manso, que o tutor a chamava. Fez o possvel 
para caminhar discretamente, embora desejasse correr. O mordomo abriu a 
porta de mogno e anunciou:
- A srta. Lyndon, milorde!
O conde estava sentado  escrivaninha no centro da sala.
Levantou-se quando Petrina entrou, e ela achou que ningum poderia 
impressionar mais nem aparecer mais bem trajado.
Os outros homens se mostravam preocupados com suas roupas, quando eram 
to elegantes e to bem-feitas quanto as do conde, mas as dele lhe 
assentavam com uma naturalidade to bvia como a habitual expresso de 
enfado do rosto.
Nesse momento, ele parecia aborrecido, e Petrina teve a impresso de que 
a olhava com ateno, como para encontrar defeitos em sua aparncia. A 
moa no se preocupou, pois sabia que o vestido azul-plido realava o 
brilho de seus cabelos. E o colar de topzios que usava, e que pertencia 
 coleo da famlia Staverton, era de muito bom gosto.
Fez uma reverncia. O conde inclinou-se ligeiramente e disse:
- Sente-se, Petrina. Quero falar com voc.
- O que foi que eu fiz, agora?
- Tenho a impresso de que quer dizer o que foi que descobri que voc 
fez.
- O senhor me faz sentir exatamente como se eu tivesse sido chamada  
sala da diretora. Quero inform-lo, se  que ainda no sabe, de que tenho 
sido um modelo de discrio e de decoro. Sua av est muito satisfeita 
comigo e o senhor tambm devia estar.
- Ento, por que se pe na defensiva? - perguntou o conde, com um brilho 
divertido no olhar.
- O que faz todos os dias? - perguntou Petrina, impulsivamente. Sei que 
anda a cavalo de manh e s vezes vai a bailes,  noite, mas parece que 
tem muito que fazer.
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- Como lhe disse, antes de voc vir para c, tenho uma vida muito bem 
organizada. E no pretendo mudar meus hbitos.
Eu estava apenas com curiosidade. Naturalmente, suas mundanas
tomam muito seu tempo.
J lhe disse para no falar nessas mulheres!
Eu no estava querendo dizer nada de imprprio - protestou
Petrina, arregalando os olhos. - Para falar a verdade, referia-me a lady 
Isolda. Vai casar com ela?
O conde bateu com fora o punho na mesa.
- No a chamei aqui para discutir minha vida particular. Voc precisa 
aprender, de uma vez por todas, que no  esse o jeito de uma pupila 
falar com o tutor, nem o de uma debutante falar seja com quem for.
Petrina deu um suspiro dramtico.
- O senhor est se comportando exatamente como quando nos conhecemos. - 
Esperei que ficasse satisfeito com a maneira como obedeci s suas 
instrues, mas pensei que, pelo menos no que lhe dizia respeito, eu 
podia ser eu mesma. Vejo que me enganei.
Falou com um ar de dignidade ofendida. com um meio sorriso, o conde 
respondeu:
- Sim, gostaria que sempre fosse sincera e franca comigo, Petrina, mas 
sabe muito bem que a curiosidade a respeito de um determinado assunto  
tabu, mesmo quando est conversando comigo.
- No sei por qu. Afinal, todo mundo est especulando se o senhor vai 
casar com lady Isolda. E eu ficaria com cara de tola, se acordasse um 
dia, de manh, e visse a notcia em The Gazette.
- Garanto-lhe que no precisa ter a mnima preocupao a esse respeito. 
No tenho inteno de casar com lady Isolda ou seja l com quem for. para 
dizer a verdade.
Notou um brilho de triunfo no olhar dela, e disse, um tanto contrariado:
- Suponho que agora voc acha que conseguiu de mim uma informao 
valiosa.
- Deve saber que as pessoas tm curiosidade a seu respeito. E  muito 
mais interessante falar do senhor do que daquele regente gordo e 
repulsivo.
- Isso no  jeito de se referir a seu futuro monarca - disse o conde, em 
tom de censura.
Petrina riu.
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- Agora, est de novo bancando o diretor de uma escola. "Sim, senhor."
"No, senhor." "Vou procurar me corrigir, senhor. "Mandou me chamar,
senhor? "
O conde conteve a resposta que gostaria de dar a essa maneira frvola de 
falar.
- Quero que saiba que lorde Rowlock me procurou, para pedir sua mo em 
casamento. Respondi que no dava meu consentimento, como tambm que ele 
no devia procurar se comunicar com voc, daqui por diante. Se, mesmo 
assim, ele a procurar, no deve falar com ele.
- Lorde Rowlock? Mas acho-o muito divertido!
-  um caa-dotes do pior tipo. Tentou casar com todas as moas que tm 
dinheiro. O fato de ter me procurado para isso indica que precisa fazer 
um exame de sanidade mental.
- No tenho a mnima vontade de casar com ele, mas  mais divertido do 
que aqueles rapazes imberbes aos quais sou apresentada por todas as 
mames calculistas.
- Tem as minhas instrues, Petrina. Se Rowlock vier falar com voc, no 
lhe d ateno. Se continuar a aborrec-la, saberei lidar com ele.
- O que faria? - perguntou, interessada.
- No h necessidade de entrarmos em detalhes - respondeu o conde, 
friamente. - Mas asseguro-lhe que, seja qual for o mtodo que eu usar 
para lidar com Rowlock, ser muito eficiente.
- O senhor o desafiaria para um duelo? Seria realmente excitante! Eu 
adoraria v-lo duelar com algum por minha causa.
- Os duelos so proibidos e esto fora de moda.
- Isso no  verdade! Dois amigos de Rupert duelaram, ainda na semana 
passada, em Green Park. Ele foi um dos padrinhos.
- No estou interessado nos amigos da idade de Rupert, que no sabem o 
que fazem - disse o conde, em tom orgulhoso. - O que estou lhe dizendo, 
Petrina,  que no inclua mais lorde Rowlock entre seus conhecidos.
- Vou pensar nisso - respondeu ela, em tom provocante.
- Vai fazer o que ordeno, ou ento mando-a para Harrogate.
- Se fizer isso, irei gritando de Londres at l. E pagarei a um 
caricaturista para que faa seu retrato, mostrando como  cruel com sua
pupila pobre e indefesa!
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Voc no  pobre. Nem indefesa. E, enquanto for uma hspede em
minha casa, far o que eu mandar. Talvez seja melhor eu ter minha prpria 
casa - disse ela, em tom
doce. O conde fitou-a. Fazendo um esforo para se controlar, disse:
S est procurando me provocar. Cus, por que me impuseram uma
garota to abominvel? Quer fazer o favor de se comportar? Se no o 
fizer, prometo que farei com que se arrependa de ter nascido. Petrina 
riu.
- Agora, est se comportando como o lobo mau. Sua av tem razo, quando 
diz que foi mimado desde criana. E creio que as suas "queridinhas" 
continuaram fazendo o que suas babs e suas governantas fizeram.
Petrina levantou-se e dirigiu-se para a porta. O conde esbravejou:
- Voc vai me obedecer, ou juro que as consequncias sero muito 
desagradveis.
- Lobo, lobo! - provocou Petrina, de olhos brilhantes. - Adoro-o, quando 
se mostra to feroz e autoritrio! No  de admirar que tenha partido 
tantos coraes.
Saiu, fechando a porta, antes que o conde pudesse responder. Por um 
momento, ele apenas ficou olhando a porta. Depois, de repente, sem poder 
se conter, desatou a rir.
Sabia perfeitamente que Petrina tinha feito sucesso da noite para o dia. 
Embora, cinicamente, achasse que grande parte do sucesso se devia s 
histrias exageradas sobre a fortuna da moa. nem por isso ela deixava de 
ser original. E muito atraente, agora que se vestia de acordo com o gosto 
da duquesa.
Havia no rosto dela qualquer coisa de belo e de petulante, mas o conde a 
achava exasperante, principalmente quando o desafiava. Mas era bastante 
perspicaz para perceber que, em grande parte, era uma representao por 
parte dela, para aborrec-lo.
S Deus sabe como est precisando de um marido, pensou o conde, 
imaginando que tipo de homem poderia dar conta dela.
Por outro lado, tinha certeza de que sua av estava encantada com 
Petrina.
A moa demonstrava no apenas respeito, considerao e muita
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gratido pela duquesa, como era bastante inteligente para lhe contar o 
que os rapazes lhe diziam nos bailes, mostrando-lhe as cartas de amor que 
recebia.
Nada poderia interessar mais a duquesa do que isso. Gostava de estar bem 
informada sobre tudo, e fazia muito tempo que no tinha conhecimento do 
que se passava com a nova gerao. Quando o conde foi ver a av, no fim 
da tarde, ela disse:
- Petrina me contou que voc no quer que ela tenha coisa alguma a ver 
com lorde Rowlock.
- Ele teve a audcia de me pedir licena para fazer a corte a Petrina
- respondeu, zangado.
- No passa de um caa-dotes. Por outro lado, acho que no foi sensato da 
sua parte proibir Petrina de v-lo. Voc sabe perfeitamente que o fruto 
proibido  o mais tentador.
- Acha, ento, que ela vai me desafiar?
- Isso no me surpreenderia. Afinal de contas, Durwin, voc sabe que 
Petrina no  uma moa comum, tola.  inteligente e tem um esprito 
curioso que considero bastante atraente.
-  tambm muito teimosa.
- Apenas quando no se sabe lidar com ela. Voc devia ter deixado que eu 
lhe dissesse para ter cuidado com lorde Rowlock.
- No  apenas uma questo de ter cuidado - respondeu o conde, 
encolerizado. - Aquele maldito sujeito  uma ameaa! Se no conseguir
pegar uma herdeira rica de um jeito, tentar peg-la de outro. Tenho
certeza de que acha que Petrina  to jovem e to ingnua que no percebe 
o que ele  realmente, sob aquele verniz.
-  espirituoso e um belo rapaz. So qualidades que atraem os muitos 
jovens. Cuidado, Durwin para no atir-la nos braos dele.
- Prefiro v-lo morto a v-lo casado com Petrina!
Como estava muito aborrecido, saiu da sala sem dizer mais nada.
Por um momento, houve uma expresso de surpresa nos olhos da duquesa. 
Depois, foi substituda por uma de especulao. Nos lbios da velha 
senhora havia agora um sorriso.
Na manh seguinte, Petrina foi visitar Claire em sua casa, em Hanover
Square.
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O marqus de Morecombe no era rico, embora tivesse uma grande 
propriedade em Buckinghamshire.
Depois do esplendor da residncia do conde, a manso Morecombe parecia 
pobre. Mas Petrina, preocupada com a amiga, apenas olhou, consternada, 
para o rosto de Claire.
Evidentemente, a outra tinha estado chorando. Era bonita, de um modo 
insignificante, com cabelos muito louros e olhos de um azul plido.
Quando se sentia feliz, demonstrava uma vivacidade que muitos rapazes 
achavam atraente, mas no momento, com olhos vermelhos e tristonhos, mais 
parecia uma flor molhada pela chuva. Pelo menos, foi o que Petrina 
pensou.
- O que aconteceu, querida?
- Oh, Petrina, estou to contente por voc ter vindo! Precisa me 
ajudar... Precisa! No sei o que fazer.
- O que foi que aconteceu?
- Nem sei como lhe contar...
- No seja tola. Sabe que a ajudarei. Claire soluou baixinho.
- Eu esperava poder lhe contar, hoje ou amanh, que... estava noiva.
- De Frederick Broddington?
- Como adivinhou?
- Voc no fala em mais ningum, desde que vim para Londres. Claro que 
adivinhei. E gosto muito dele! Tenho certeza de que voc vai ser feliz.
- Seria imensamente feliz, mas no posso casar com ele. Oh, gostaria de 
estar morta!
Caiu no choro, de modo que as ltimas palavras saram abafadas, mas 
Petrina as ouviu. Ajoelhou-se ao lado da amiga e abraou-a.
- Est tudo bem. Sei que vai dar certo. Conte-me o que aconteceu e por
que motivo no pode casar com Frederick. Ele me disse que est apaixonado
por voc.
- Foi o que tambm me disse, e falou ontem com papai, que deu seu 
consentimento.
Seria pouco provvel que o marqus fizesse outra coisa, considerando-se 
que Frederick Broddington era filho nico de um dos homens mais ricos da 
Inglaterra.
37Lorde Broddington no apenas era dono de vrias propriedades em 
Londres, como tambm tinha terrenos de grande valor em Birmingham e em 
Manchester.
Era tambm de famlia nobre. A fortuna tinha sido feita por seu av, que 
tivera a viso de comprar terras nos arredores de cidades em 
desenvolvimento.
Alm de sua fortuna, Frederick era o marido que convinha a Claire, na 
opinio de Petrina: bom, delicado e, ao mesmo tempo, inteligente e com 
ideias prprias.
Petrina simpatizava com o rapaz, gostando de sua conversa, e tinha 
certeza de que ele amava realmente Claire.
- O que foi que aconteceu? - perguntou. - Voc brigou com Frederick? Por 
qu?
- Claro que no briguei com Frederick - respondeu Claire, atravs das 
lgrimas. - Foi sir Mortimer Sneldon que atrapalhou tudo. Oh, Petrina, 
por que fui conhec-lo? E por que agi to tolamente?
- Sir Mortimer Sneldon?
Procurou lembrar quem era ele. Depois se lembrou de que era um homem 
bonito e elegante que tinha visto em todos os bailes a que comparecera, 
no sendo, entretanto, apresentada a ele.
- Sim, Mortimer Sneldon - disse Claire. - Ele me pediu para ser 
apresentado a voc, mas recusei. Tive medo de que a machucasse... como me 
machucou.
- O que foi que ele fez?
Claire enxugou os olhos com um lencinho mido.
- Ele est fazendo... chantagem comigo!
- Chantagem? Mas como isso  possvel?
S a palavra "chantagem" fez Claire chorar de novo. Dali a minutos, um 
pouco mais controlada, disse:
- Quando vim para Londres pela primeira vez, ele me lisonjeou e, como era 
um homem mais velho e bonito, pensei que... o amava.
Petrina arregalou os olhos.
- O que voc fez? Como  que ele a est chantageando?
- Escrevi-lhe algumas cartas, umas cartas idiotas. Voc no vai
compreender, mas ele era to fascinante. Agora acho que ele quer que eu 
escreva as cartas que... escrevi.
- O que disse nelas?
Disse o quanto o amava, que nunca poderia amar outro homem e
como contava as horas at poder v-lo novamente. - Claire soluou e
continuou: - Ele dizia o quanto minhas cartas significavam para ele, mas
que no me escreveria, porque tinha receio de que mame visse suas
cartas.
- Quantas voc escreveu?
- No sei ao certo. Uma dzia, talvez mais. No me lembro.
- E quando foi que deixou de gostar dele?
- Foi ele que desistiu. Comeou a namorar uma de minhas amigas. Fiquei
infeliz durante algum tempo, mas depois compreendi que tinha tido sorte
em me livrar dele.
- E teve, mesmo! Mas como  que ele pode fazer chantagem com
voc?
- Soube que Frederick e eu nos amamos e exigiu que eu comprasse as
cartas que lhe escrevi.
- E se voc no fizer isso?
- Sneldon as levar para Frederick. Sei que Frederick as comprar, para 
no deixar que sejam mostradas nos clubes, como Sneldon ameaou que 
faria. Mas sei tambm que deixar de me amar, quando ler o que escrevi.
Petrina sentou-se, refletindo.
- Quanto ele est pedindo?
- Cinco mil libras!
- Cinco mil libras? Mas  uma quantia enorme!
- Sir Mortimer Sneldon acha que poderei conseguir facilmente essa 
quantia, depois de casada, e est disposto a esperar at ento. Mas exige 
que eu lhe d uma carta prometendo que ter o dinheiro dentro de dois 
anos. Caso contrrio, ir procurar Frederick.
-  a coisa mais diablica de que j ouvi falar! - exclamou Petrina, 
encolerizada.
- Concordo. Mas a culpa  minha - disse Claire, humildemente. Voc  a 
nica pessoa, Petrina, que pode me ajudar. Por favor, pode me emprestar o 
dinheiro?
- Claro, querida. Mas, antes de ceder to depressa, quero refletir sobre 
o caso. No sei por que razo aquele homem abominvel deve escapar assim 
facilmente!
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- No h nada que possamos fazer, nem ningum a quem recorrer. Prometa. 
Petrina, que no dir nada a ningum!
Claire estava desesperada.
- Prometo. E prometo tambm que tudo vai dar certo. Frederick nunca 
saber. E voc nunca, nunca deve lhe contar coisa alguma.
Claire suspirou de alvio.
- Petrina. querida, no sei como lhe agradecer! Petrina levantou-se e 
andou pela sala.
- Pode me agradecer esquecendo tudo. Preciso de um ou dois dias para 
arranjar o dinheiro. Voc compreende?
- No vai contar a seu... tutor?
- No! Claro que no! No direi nada a ningum, mas quero refletir.
- Sobre o qu?
- Sobre sir Mortimer Sneldon.
- Mas... porqu?
- Por que me repugna saber que os maus possam vencer.
Claire no compreendeu, mas nada disse. Enxugou os olhos, aproximou-se da 
amiga e abraou-a.
- Obrigada, muito obrigada! Voc  a melhor pessoa do mundo e nunca 
poderei lhe agradecer o suficiente.
- E voc vai ser a pessoa mais feliz do mundo.
- Pensei que tinha perdido Frederick. Oh, Petrina, no sabe como 
maravilhoso amar! Um dia, vai sentir a mesma coisa.
- Duvido, mas estou muito, muito contente por voc, Claire.
Beijou a amiga. Mas, quando se dirigia para casa, na confortvel 
carruagem do conde, pensava apenas em sir Mortimer Sneldon.
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CAPITULO III

O conde fez o n da gravata com dedos experientes e com uma habilidade
que enfurecia seus criados, que se consideravam indispensveis.
Ento, ouviu uma voz petulante perguntar:
- Por que vai embora? Ainda  cedo.
No se virou para olhar para lady Isolda, que estava na cama de onde ele  
tinha sado. Mas, dali a um momento, disse:
- Estou pensando em sua reputao.
Havia na voz dele uma nota divertida, mas lady Isolda no achou graa e
respondeu zangada:
- Se realmente se preocupasse com isso, casaria comigo.
Houve silncio, enquanto o conde terminava o complicado n da gravata, 
que era criao sua. - Esto falando de ns, Durwin - ela insistiu.
- Voc tem sido falada, Isolda, desde que surgiu na sociedade como um 
meteoro.
- Mas, quando voc est envolvido, a coisa  diferente.
- Por qu?
- Por que no h motivo para voc no casar comigo, e faramos um Par 
muito bonito.
- Voc me lisonjeia - respondeu o conde, zombeteiro.
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Isolda sentou-se na cama e colocou nas costas os travesseiros com fronhas 
de seda.
- Eu o amo, Durwin!
- Duvido. Para ser franco, Isolda acho que voc nunca amou ningum, a
no ser a si prpria.
- No  verdade. No h ningum, e  a pura verdade, ningum que tenha me 
excitado como voc.
-  uma coisa muito diferente, Isolda, e nem sempre conduz a um casamento 
feliz.
- No sei do que est falando - disse ela, zangada. - S o que sei  que 
voc est arruinando minha reputao. O mnimo que pode fazer  me pedir 
em casamento.
- O mnimo? - perguntou ele, erguendo as sobrancelhas.
Agora estava ao lado da cama. Isolda ergueu os braos muito brancos e 
murmurou:
- Beije-me. Beije-me e deixe-me mostrar o quanto preciso de voc e o 
quanto voc precisa de mim.
O conde sacudiu a cabea.
- Vou para casa, Isolda, e voc precisa dormir, para conservar a beleza.
- Quando vou v-lo novamente?
- Provavelmente, em algum baie amanh  noite. Onde vai ser? Em casa da 
famlia Richmond, da Beaufort ou da Malborough? Seja onde for, ser 
exatamente igual aos outros a que comparecemos.
- Sabe que no estou falando de bailes. Quero ficar a ss com voc, 
Durwin. Quero que me beije, que me ame. Quero ficar bem pertinho de voc.
Era difcil compreender por que o conde no ficou emocionado com a paixo 
que havia nessas palavras, no convite dos lbios, no fogo dos olhos 
semicerrados.
Ele se virou para pegar o palet que estava numa cadeira e vestiu-o.
Apesar de ter recusado o convite de Isolda e assim despertado sua clera, 
ela no pde deixar de pensar que -era o homem mais atraente e mais 
bonito que conhecia.
Era tambm o mais esquivo.
Desde que ficou conhecendo o conde intimamente, lady Isolda usou de
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todos os artifcios, de todas as manhas de seu vasto repertrio, para 
tentar prend-lo.
Embora tivesse sido fcil torn-lo seu amante, nada do-que fazia 
conseguia obrig-lo a dizer as nicas palavras que ela desejava ouvir.
Quando o conde olhou  volta, para verificar se tinha esquecido alguma 
coisa (e a luz das velas tornava isso difcil), lady Isolda teve a 
impresso de que ele lhe fugia, desaparecendo nas sombras, e que nunca 
mais o veria.
Saltou da cama, correu para ele e atirou-se em seus braos, sabendo que 
nenhum homem poderia resistir  maciez de seu corpo, ao perfume de seus 
cabelos e  apaixonada exigncia de seus lbios.
- Quero voc! Quero voc, Durwin! Fique comigo, porque no suporto que me 
deixe.
Passou os braos em volta do pescoo dele, mas o conde os tirou, pegou 
Isolda nos braos e levou-a at a cama, atirando-a sobre os lenis com 
certa rudeza.
- Comporte-se, Isolda, at que eu a veja novamente. Se, como diz, esto 
falando de ns, a culpa  mais sua do que minha, e voc ser mais 
prejudicada do que eu.
Isso, sem dvida, era verdade. Isolda encarou-o e disse, zangada: 
- Eu o odeio, Durwin, quando me trata como criana.
- No h nada de infantil em voc - respondeu o conde, sorrindo.
- Pelo contrrio,  muito amadurecida.
Virou-se, ao dizer isso, dirigindo-se para a porta.
Depois que saiu, Isolda deu um grito de fria e depois bateu com os
punhos nos travesseiros.
Era sempre a mesma coisa, com o conde! Durwin vinha quando lhe convinha, 
saa quando queria, e nada do que ela dissesse fazia a mnima diferena 
para ele.
Todos os outros homens eram seus escravos, mas o conde tinha sido seu 
senhor, desde o momento em que se conheceram.
- Hei de fazer com que case comigo -jurou, de dentes cerrados.
Era fcil dizer, mas conseguir isso era uma coisa muito diferente!
O conde saiu da casa de lady Isolda, em Park Street, disposto a vencer a 
p a pequena distncia at Staverton House.
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Era conveniente no precisar da carruagem, pensou ele, porque assim seus 
criados no ficavam a par de seus movimentos.
Park Street ficava atrs de Staverton House e ele tinha apenas que 
atravessar o terreno das estrebarias, sendo que grande parte lhe 
pertencia, e entrar no jardim de sua casa por um porto particular do 
qual s ele tinha a chave.
Era uma noite quente e agradvel, com a meia-lua erguendo-se no cu, e o 
conde no tinha dificuldade em ver o caminho.
Gostava do conhecido cheiro de cavalos, couro e feno, e dos movimentos 
dos animais nas baias.
Um caminho que levava a Park Lane dividia o terreno; do outro lado ficava 
o muro do jardim da manso Staverton.
Quase tinha chegado l, quando,  sua frente, vindo da janela do segundo 
andar de uma casa na esquina, caiu um objeto, com um forte impacto.
O conde levou um susto, mas estava longe para ver que objeto era. Depois, 
com espanto, viu um homem sair pela janela do segundo andar e com grande
destreza, comear a descer pelo cano de gua.
No era muito fcil, Durwin ficou olhando, interessado, a descida do 
ladro, pois certamente se tratava de um assaltante. O homem se firmava 
no cano com os joelhos e descia devagar.
Caminhando lentamente em sua direo, o conde esperou at que ele 
chegasse ao cho, para depois agarr-lo pelo pescoo e pelo pulso.
- Foi apanhado em flagrante meu rapaz, e garanto que vai pegar uns anos 
de cadeia, se no for enforcado por este crime.
Sua voz pareceu ecoar no silncio da noite.
Percebeu que o ladro no passava de um rapazinho. Este deu um grito e 
comeou a lutar. Procurou desesperadamente se libertar das mos do conde,
dando-lhe pontaps nas pernas, mas seus esforos de nada valeram. Dali a
um momento, Staverton disse:
- Fique quieto ou lhe dou a surra que merece.
Ento, o bon do rapaz caiu e o conde viu uma massa de cabelos louros e 
um rosto que o deixou atnito.
- Petrina!
- Est certo. Tenho que reconhecer que  mais forte do que eu.
- Que diabo pensa que est fazendo? - perguntou ele, furioso. Estava to 
atnito, que, por um momento, no pde dizer mais nada.
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Soltou-a. Petrina sacudiu-se como um cozinho cujo plo tivesse sido 
massado e pegou o bon que havia cado no cho.
Depois, dirigiu-se para o ponto onde cara a caixa que o conde tinha 
visto voar pela janela.
Ainda bem que no bateu no senhor - disse a moa.
Exijo uma explicao, e tem que ser boa!
A moa suspirou.
Creio que serei obrigada a explicar, mas no aqui. Temos que ir
embora.
Olhou para a janela, como se esperasse que algum estivesse olhando para 
baixo. Mas a janela continuava escura, assim como todas as outras, 
naquele lado da casa.
- Onde voc esteve? Quem mora a? - perguntou o conde, furioso. Apesar 
disso, como Petrina parecia preocupada, ele falou mais baixo do que 
antes.
Ela no respondeu, comeando a andar, carregando a caixa.
No podendo dominar a irritao, o conde tomou-a das mos dela.
- Deixe que eu levo! - Ento, soltou uma exclamao: - Sei de quem  essa 
casa!  de Mortimer Sneldon!
Falou um pouco mais alto. Petrina olhou por sobre o ombro e pediu:
- Silncio! No grite, porque pode chamar a ateno de algum.
- Eu posso chamar a ateno! O que  que voc pensa que est fazendo?
- Vamos logo embora.
Chegou ao porto no muro do jardim da casa do conde e ficou esperando na 
sombra, embora ele tivesse quase certeza de que tambm ela tinha uma 
chave.
O conde tirou a sua do bolso, abriu o porto e entrou.
Agora, estavam sob as rvores que ficavam junto ao muro alto que cercava 
o parque. Algumas das janelas lanavam uma luz dourada no terrao  
frente deles.
- No tenho a menor vontade de deixar que meus criados a vejam trajada 
desse modo indecente. Vamos conversar aqui.
- Ningum me ver - respondeu Petrina. - Escapoli de mansinho pela 
escada, depois que sua av achou que eu j estava deitada, e sa pela 
Porta-janela da biblioteca.
- Muito bem. Entraremos pelo mesmo lado.
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Subiu a escada do terrao, na frente de Petrina. Conforme esperava 
encontrou a porta-janela da biblioteca aberta.
Entrou e viu que as velas estavam acesas nos castiais. Havia uma
garrafa de champanhe aberta, um balde de gelo, e uma vasilha de prata,
coberta, com sanduches,  sua espera.
O conde colocou a caixa numa mesinha perto do sof e foi servir-se de uma
taa de champanhe.
Sentiu-se de repente exausto, e no apenas devido s cenas de amor
ardente com lady Isolda.
O fato de encontrar Petrina vestida de homem e saindo pela janela da
casa de Mortimer fez com que compreendesse que enfrentava um problema
terrvel.
Segurando a taa de champanhe, virou-se para a moa que o observava
parada no meio da sala.
Vestindo uma cala apertada e uma jaqueta curta que o conde reconheceu
como suas, de seus tempos de Eton, ela em nada parecia um rapazinho.
Estava, isso sim, muito feminina. E muito atraente, como foi obrigado a 
reconhecer.
A moa tinha uma expresso apreensiva e estava muito plida, mas isso o
enfureceu ainda mais.
- Conte-me exatamente o que estava fazendo e por que foi  casa de 
Sneldon vestida desse jeito.
- Sinto muito t-lo enfurecido, mas deve reconhecer que foi muito azar 
meu o senhor passar por ali justamente naquele momento.
- E. se eu no passasse por ali, acha que ningum ia ficar sabendo dessa 
sua incrvel travessura? - perguntou o conde, erguendo a voz. Ou Sneldon 
tem alguma coisa a ver com isso?
Havia qualquer coisa de to desagradvel na pergunta, que Petrina 
instintivamente ergueu o queixo, na defensiva.
- Sir Mortimer Sneldon tem tudo a ver com isso, mas no de um modo que me 
atinja diretamente.
- O que h dentro desta caixa?
Ao dizer isso, o conde olhou para a caixa e notou que era uma espcie de 
cofre pesado, do tipo usado em escritrios.
- Preciso... dizer-lhe isso? - perguntou a moa, em voz baixa.
- Tem que contar tudo! Garanto-lhe, Petrina, que considero seu 
comportamento uma afronta  minha hospitalidade.
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- Sinto muito, se o fiz ficar zangado.
- O que quer dizer  que sente que eu a tenha apanhado. Suponho que haja 
uma boa explicao para ter-se tornado uma ladra, se bem que s Deus sabe 
qual que pode ser!
Ela no respondeu, e ele esbravejou:
Vamos, conte! Conte a histria e deixe que eu saiba que diabrura
anelou fazendo!
- No  um segredo... meu - respondeu, hesitante. - E prometi que no
contaria ao senhor.
- Vai me contar, nem que seja preciso eu lhe dar uma surra! Teve sorte de 
eu no ter sido mais bruto com voc, porque pensei que tinha pegado 
apenas um menino.
-  falta de esprito esportivo dar numa menor do que a gente comentou 
Petrina, readquirindo um pouco da coragem.
- Os ladres recebem o que merecem. Agora, vai explicar o que aconteceu, 
ou terei que arrancar isso de voc  fora?
Adiantou-se como se fosse cumprir a ameaa, e Petrina disse, rapidamente:
- Vou contar, mas, por favor, no posso tomar alguma coisa antes? Estou
com muita sede.
O conde colocou sua taa numa mesinha e, de cara fechada, foi at onde 
estava a garrafa de champanhe. Serviu meia taa e entregou-a a Petrina, 
que continuava no mesmo lugar.
Ela tomou dois ou trs goles, passou a lngua nos lbios, como se 
estivessem secos, e disse:
- Vou lhe contar a verdade, porque no tenho outro remdio, mas o senhor 
promete no dizer nada a ningum?
- No prometo coisa alguma. No estou disposto a negociar com voc.
- No diz respeito a mim. Mas, se alguma coisa do que vou dizer 
transpirar, a vida de duas pessoas poderia ficar arruinada 
irremediavelmente.
Havia uma nota de sinceridade na voz dela. O conde disse:
- Creio que nunca lhe dei motivo para pensar que no pode confiar em
mim.
Os olhos de ambos se encontraram, e Petrina respondeu:
- No, claro que no.
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De repente, pareceu ter conscincia do jeito como estava vestida e corou. 
Aproximou-se da mesinha e ps a mo sobre a caixa.
- Creio que este cofre contm... cartas de amor - disse, em voz baixa.
- Suas?
Petrina sacudiu a cabea.
- Como lhe disse, nunca amei. Mas... uma amiga minha pensou que estava 
apaixonada por sir Mortimer, durante algum tempo. Escreveu-lhe umas 
cartas tolas e agora ele... est fazendo chantagem.
- Fazendo chantagem com sua amiga?
- Disse-lhe que, se no lhe prometer que dentro de dois anos lhe dar 
cinco mil libras, ele entregar as cartas ao noivo dessa minha amiga, o 
que impedir o casamento. Ou ao marido, se chegarem a casar.
- Sempre achei que Sneldon no prestava, mas nunca pensei que fosse um 
canalha to grande.
Parecia estar falando consigo mesmo. Depois, em outro tom. perguntou:
- Mas o que voc tem a ver com isso? Por que haveria de interferir?
- Porque, embora estivesse disposta a pagar as cinco mil libras para 
salvar minha amiga, no vi razo para sir Mortimer se safar com essa 
facilidade. Por um momento, pareceu que o conde ia se zangar com ela. 
Inesperadamente, como se no pudesse se dominar, ele sorriu. Colocou a 
mo na testa e sentou-se numa poltrona.
- S mesmo voc, Petrina pensaria em semelhante soluo para o problema. 
- Ningum jamais saberia que estive l, se no acontecesse de o senhor 
passar sob a janela justamente naquele momento.
- Se fosse outra pessoa, voc talvez se visse diante dos magistrados, 
amanh cedo. Ou ento numa situao pior, que no quero descrever a voc.
Petrina olhou-o com curiosidade e perguntou:
- No podemos abrir a caixa e verificar se contm mesmo as cartas que 
procuro?
- Por que voc achou que estariam a?
Petrina foi sentar-se no tapete ao lado da cadeira do conde.
- Fui, de fato, muito inteligente - disse, num tom que ele conhecia
bem. Conte-me!
Quando Ciai... minha amiga...
- Eu j tinha adivinhado que se tratava de Claire Catterick. Acabo de 
saber que ficou noiva de Frederick Broddington.
- Est certo, ento. Quando Claire me disse que sir Mortimer a ameaou,
resolvi recuperar as cartas, sem ter que pagar por elas.
- Voc teria dificuldade em sacar essa quantia sem que eu ficasse
sabendo. Mas no importa. Continue sua histria.
- Ontem  noite, num baile, pedi a algum que me apresentasse a sir 
Mortimer - continuou Petrina. - Ele me tirou para danar e, enquanto 
danvamos, fingi que estava distrada, a tal ponto que ele no pode 
deixar de perguntar em que pensava. Dei uma risadinha encabulada e 
respondi: "Vai me achar uma tola, mas eu estava pensando como seria 
divertido ter um dirio e escrever nele tudo o que fao e falar das 
pessoas que encontro". sir Mortimer imediatamente achou isso uma boa
ideia. Garanti que seria muito indiscreto, mas nunca seria publicado,
at
eu ser velha demais para ligar para isso. Ele ento me aconselhou a 
escrever tudo o que me viesse  cabea, no esquecendo dos mexericos 
apimentados que certamente interessariam  posteridade, principalmente se 
fossem a respeito de pessoas famosas. - Olhando para o conde, Petrina 
observou: - Tive a impresso de que ele achou que eu poderia ouvir e 
descobrir coisas que talvez lhe viessem a ser teis.
O conde nada disse, e ela continuou.
- Perguntei a sir Mortimer se achava que eu poderia fazer isso. Falou que
tinha certeza de que seria um documento fascinante e me pediu para 
mostrar a ele o que escrevesse. Protestei que no poderia mostrar a 
ningum, porque talvez fosse algo difamatrio. Como algumas coisas que os 
jornais publicam sobre o regente. "Eu nunca a prejudicaria, sita. 
Lyndon", respondeu ele, num tom caricioso.
Petrina fez uma pausa, esperando que talvez o conde elogiasse sua 
esperteza. Como ele continuou calado, ela continuou a histria:
- Ento, como quem no quer nada, comentei que no fazia ideia de onde 
poderia esconder meu dirio, pois uma escrivaninha no era lugar seguro, 
por causa dos criados. Ele caiu na armadilha e me sugeriu um cofre. At 
disse que eu podia comprar um na Smythsons, em Bond Street,
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com uma chave especial, que no tem duplicata. Agradeci a boa ideia e
garanti que ia seguir seu conselho. - Petrina olhou para o conde. - Fui
muito inteligente, no acha?
- Mas como soube onde Mortimer guardava seu cofre?
- Calculei que fosse no quarto de dormir. Se achava que as cartas de 
Claire valiam cinco mil libras, no ia correr o risco de deixar o cofre 
na saleta. Tive certeza de que o guardava no armrio, ou em cima dele.
Sorriu e acrescentou: - Papai me disse, certa vez, que, quando os 
apostadores ganham muito dinheiro nas corridas, costumam guard-lo em 
cima do guarda-roupa, onde os ladres geralmente se esquecem de olhar.
- E era l que estava o cofre?
- Foi onde procurei primeiro.
- Como foi que conseguiu entrar na casa?
- Fui inteligente nesse ponto tambm. Achei que sir Mortimer no devia 
ter muitos criados, porque, se fosse rico, no tentaria chantagear 
Claire! Ento, fui at a porta do poro e verifiquei se todas as janelas 
estavam fechadas. - Petrina sorriu. - Era uma coisa da qual papai sempre 
falava: que os ladres, na cidade, em geral entram pelas janelas do 
poro, porque os criados, sentindo calor e abafamento, muitas vezes as 
deixam abertas.
- Voc poderia ter sido apanhada.
- No havia grande perigo. H l duas janelas. Ouvi um homem roncando num 
quarto. No outro, que parecia ser uma saleta, a janela estava 
entreaberta. - Petrina abaixou a voz, dramaticamente, e continuou: - 
Entrei, caminhei por um corredor e cheguei  escada.  uma casa pequena.
- Cada palavra que voc diz me faz estremecer. Suponhamos que a 
apanhassem...
- O senhor teria que me tirar da cadeia, sob fiana. E creio que poderia 
fazer chantagem com sir Mortimer, para que ele no apresentasse queixa 
contra mim. - Achou que o conde estava zangado e continuou:
- Eu tinha certeza de que sir Mortimer no estava em casa, porque nunca 
sai de um baile, a no ser bem no fim. Alm do mais, eu me assegurei de 
que todos os quartos estavam s escuras, antes de entrar pela janela do
poro. - Olhou para o cofre e continuou, triunfante: Encontrei o que fui
procurar. Vamos abrir?
O conde no respondeu. Ela se levantou de um salto, pegou a caixa e
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colocou-a aos ps dele. Mas o cofre, como era de esperar, estava trancado.
Petrina foi at a escrivaninha e pegou um cortador de papis de
ouro. - Achei que o senhor pode abrir com isto. Ou devo ir procurar
uma coisa mais forte?
 - Voc no vai sair daqui vestida desse jeito.
- Muito bem - respondeu ela, obediente. - Se no conseguirmos OIn o
cortador de papis, podemos usar o atiador da lareira.
Foi com dificuldade, e s depois de uns dedos machucados e algumas
blasfmias, que o conde conseguiu abrir a caixa.
Petrina tirou o trinco e soltou uma exclamao.
A caixa estava cheia de cartas amarradas em pilhas. Havia tambm contas, 
promissrias, assim como muitas letras assinadas, ao que parecia, por 
pessoas embriagadas.
O conde reclinou-se na poltrona.
- Sem a menor dvida, voc fez uma boa colheita, Petrina!
- Quantas cartas! Quais sero as de Claire? - Tirou uma poro de 
pacotes, at encontrar o que procurava. - Estas so as de Claire! 
exclamou, triunfante. - Conheo bem a letra dela.
Havia pelo menos uma dzia, algumas de vrias pginas. Petrina pegou-as e 
disse:
- So s estas que me interessam. Que vamos fazer com as outras? O conde 
olhou para o cofre arrombado.
Acho melhor deixar o resto por minha conta, Petrina.
- O que vai fazer?
Devolver tudo, anonimamente, aos respectivos donos, e eles ficaro livres
das garras de Mortimer. Ningum saber o papel que voc teve e, sem
dvida, ficaro eternamente gratos ao benfeitor desconhecido.
Quer dizer que sir Mortimer estava chantageando todas essas Pessoas?
No quero especular sobre o abominvel procedimento dele, mas vou
providenciar para que, no futuro, muitas anfitris distintas no o incluam
na lista de seus convidados.
- Pode fazer isso?
Posso, e  o que vou fazer.
-  Ento, fico muito contente. O procedimento
dele foi desprezvel, e
Claire Claire estava muito infeliz.
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- Diga-lhe que ela pode mostrar sua gratido no contando a ningum e,
principalmente, a Frederick Broddington.
- Ela no seria to idiota a ponto de fazer isso.
- As mulheres gostam de confessar seus pecados - disse o conde
cinicamente.
- Claire, no. Ela quer que Frederick no apenas a ame, como admire.
Seja como for, vou fazer com que jure, por tudo o que lhe  sagrado, que
guardar silncio.
- Isso  que  sensato. - Depois, mudando de tom": - Mas no h nada de
sensato na sua aparncia, Petrina. V para a cama, antes que fique
zangado com voc, como deveria ficar!
Petrina olhou para ele, sorrindo.
- No est zangado de verdade. E sabe to bem quanto eu que 
revoltante ter que pagar quele chantagista.
- Revoltante ou no, quando voc tiver um problema desse tipo no  futuro,
venha falar comigo. Promete?
- No tenho... certeza. Prometer to definitivamente seria... um pulo no
escuro.
- Pare com isso! S porque deixei que voc se sasse bem desta, no pense
que pretendo permitir que se meta em outras aventuras e que corra
semelhantes riscos novamente.
Pensou que Petrina fosse protestar, mas ela disse, inesperadamente:
- Foi muito bom e ajudou muito... e foi mais gentil do que esperava.
Ento, se  o que deseja, prometo.
- Sem reservas? - perguntou, desconfiado.
- Sem reservas! - Mas havia em seus lbios um sorriso malicioso que o conde
conhecia bem. - Afinal de contas, no deve haver muitos homens como sir
Mortimer na alta sociedade.
- Voc me contar todos os problemas que tiver, antes de tentar resolv-los
sozinha. E digo-lhe, Petrina, que no permitirei que vista minhas roupas.
A moa olhou para sua cala, como se tivesse esquecido que a estava
usando.
- O senhor as reconheceu?
- No conheo nenhuma outra pessoa nesta casa que tenha jaqueta de Eton.
-  muito confortvel - disse ela, com um sorriso. - No imagina como uma
saia pode ser incmoda.
- isso no vai servir de desculpa para voc andar por a vestida como
est agora. S espero que minha av no a veja assim. 
- Gostaria de poder contar-lhe a histria toda. Ela iria se divertir a
valer! 
O conde tinha que reconhecer que era verdade. Mas, para recuperar sua
posio de autoridade, disse:
V dormir, menina impossvel. E no se esquea de sua promessa,
ou ir para Harrogate, ou a outro lugar pior.
Petrina levantou-se ainda segurando as cartas de Claire.
- Boa noite, tutor. Foi realmente muito bom e civilizado. Estou muito
agradecida, embora tenha machucado meu pescoo e eu saiba que amanh meu
pulso vai estar roxo.
- Machuquei-a mesmo?
- Muito, ao que parece. E acho que deve reparar o mal, levando-me para
passear a cavalo amanh.
- Agora,  voc que est fazendo chantagem.
- Vai ou no me dar uma compensao?
- Est certo. Mas que isso no se torne um hbito. Detesto tagarelice
feminina de manh cedo.
- Vou ficar bem quietinha.
-  a ltima coisa que eu esperaria de voc. Agora, v para a cama e
deixe que eu cuide dessa embrulhada.
Petrina olhou para os maos de cartas dentro do cofre.
Pelo menos, o senhor vai poder saber se algum dia recebeu cartas mais
amorosas e mais ardentes do que sir Mortimer.
O conde fitou-a, encolerizado. Depois, percebeu que a moa o estava
Provocando.
V dormir! Ouviu-a dar uma risadinha ao dirigir-se para a porta.
No quarto, Petrina guardou as cartas num lugar seguro e despiu-se.
Escondeu as roupas do conde numa caixa em cima do armrio e foi para a
cama.
No escuro, refletiu sobre o acontecido e achou que tinha sido bom que a 
apanhasse com a boca na botija.
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Agora poderia cuidar das outras cartas, ao passo que ela no teria sabido o que fazer com tudo aquilo.
Por outro lado, ficara apavorada, quando o conde a tinha agarrado pelo pescoo. No s porque sabia que corria o risco de ser presa como ladra, mas porque havia 
outros perigos.
Havia uns libertinos que perseguiam as mulheres de um modo que poderia ser terrvel.
Coisas que ouvira em conversas e outras que lera nos jornais lhe ensinaram muito a respeito do mundo.
Sabia tambm que havia muita inquietao no campo, devido s restries impostas pelo governo, muita pobreza e, acima de tudo. injustias praticadas em nome da lei.
Os jornais que o conde recebia falavam da situao poltica, que nunca havia sido discutida e nem mesmo mencionada na escola de Petrina.
Agora sabia que o regente estava sendo bombardeado com peties para que fossem feitas reformas, mas que era tudo em vo.
Leu que, em Birmingham, um grupo de pelo menos vinte e cinco mil homens, que nunca tinham tido um representante no Parlamento e nunca teriam, se a linha do governo 
prevalecesse, havia eleito como seu representante um baronete radical.
A clera de centenas e de milhares de pessoas, que sofriam devido  renovada recesso no comrcio, resultara em clubes polticos muito bem organizados. Aps quatro 
anos de discusses frustrantes, o Parlamento aprovara uma lei que limitava o trabalho das crianas, nas fbricas de algodo, a doze horas por dia!
Petrina lia, tambm, nos jornais mais francos, notcias sobre as condies sociais em Londres e em outras grandes cidades.
Tinha a impresso de que, se o conde soubesse o quanto ela se interessava pelo que acontecia numa classe muito diferente da deles, tentaria impedi-la de ter acesso 
a essas informaes.
Ento, no pedia para ler os jornais e as revistas tipo pasquim, que o conde assinava, mas descobriu que podia l-los no dia seguinte. Os jornais do dia, depois 
de lidos, eram tirados da biblioteca e colocados do lado de fora do escritrio do secretrio do conde, ficando ali durante uma semana, caso viessem a precisar deles. 
Era muito fcil para Petrina arranjar uma desculpa para ir ver o secretrio, o sr. Richardson, que tinha
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no escritrio um cofre com as jias da famlia e tambm era quem fornecia o dinheiro mido de que a duquesa e Petrina precisavam.
Depois que saa do escritrio, a moa surrupiava o jornal que queria ler, tirando-o da pilha no corredor.
The Political Register, editado por William Cobbert e que tinha uma tiragem de cinquenta mil exemplares por semana, acusava francamente o governo, assim como a falta 
de interesse pelos pobres e pelos sofredores demonstrada pelos aristocratas, encabeados pelo regente.
Foi esse jornal que informou a Petrina que a polcia era ineficiente e corrupta, e que nada se fazia a respeito das chamadas flash houses, casas onde meninos eram 
treinados para delinquentes e depois mandados para a rua para roubar e bater carteiras.
Soube que, quando um desses meninos era preso por um roubo pequeno, era mandado para a priso, chicoteado e depois solto sem um nquel no bolso.
Isso significava que, a no ser que estivessem dispostos a viver em barraces e a comer o que encontravam no lixo, precisavam voltar para a flash house, onde encontravam 
calor e comida, se concordassem em voltar s atividades criminosas.
The Poltical Register tambm trazia notcias sobre o inferno aturado pelos limpadores de chamins. A idade oficial era no mnimo de oito anos, mas crianas de quatro 
e de seis costumavam ser usadas nesse servio. Eram mal alimentadas, tinham que dormir no cho e, s vezes, passavam meses cobertas de fuligem, sem tomar banho.
No eram s os jornais que contavam a Petrina o que acontecia do lado de fora de Staverton House.
Havia caricaturas que todo mundo comprava, discutindo-as com risadas. Uma delas, por exemplo, mostrava o prncipe regente, imensamente gordo, com lady Hertford, 
coberta de jias da Coroa, sentada no colo. Ou, ento, uma essa senhora montada nele, como se o regente fosse uma bicicleta. Tudo isso provocava risos.
Petrina achou que um pouco do brilho da sociedade estava ofuscado, no sendo to atraente como lhe havia parecido a princpio.
Ficou imaginando por que o conde se mostrava to severo em relao a ela, quando era evidente que todas as pessoas que conhecia, do prncipe regente para baixo, 
se comportavam de maneira censurvel.
Ao mesmo tempo, a se acreditar no que dizia os jornais, a maioria 55
da populao estava sofrendo de pobreza e de condies intolerveis em matria
de alimentao e de habitao.
No compreendia isso e continuava lendo tudo o que podia. Muitas  vezes se
via tentada a perguntar ao conde sobre coisas que a deixavam perplexa.
Mas depois pensava que ele iria apenas ach-la maante e curiosa.
No entanto isso devia interessar a todo mundo, pensou ela, certa tarde
quando passeava de carruagem, com a duquesa, por Piccadilly.
Via a pobreza das crianas encolhidas nos vos das portas, esperando
oportunidade de roubar algum transeunte ou de receber uma esmola  atirada
por uma pessoa mais caridosa.
Tanta riqueza ao lado de tanta misria, e ningum ligava! Era muito
estranho. Petrina achou que precisava fazer alguma coisa para ajudar.
"Agora que prometi ao conde, no vou poder fazer nada, sem primeiro falar
com ele. "
Nesse momento, o conde estava pondo ordem nas cartas que ela havia roubado
de Mortimer. Fazendo isso pelo menos tinha praticado um bem Por outro
lado, existia tanta injustia no mundo! E ficou consternada ao pensar
nas dificuldades que teria, se quisesse ajudar.
Soltou um suspirozinho e compreendeu que precisava encontrar uma soluo
sozinha.
O conde no compreenderia. Ele a considerava uma garota maante uma
criana que brincava com fogo.
Por um momento, julgou-se muito infantil por desejar a ajuda dele.
O conde era to forte, to poderoso, que poderia realizar muito mais do
que
ela jamais sonharia poder fazer.
Depois achou que ele no estava interessado por ela, e sim por lady
Isolda Herbert.
Isolda era bonita, muito bonita; quanto a isso, no havia dvida.
com uma dorzinha no corao, que no soube explicar, Petrina compreendeu
que, comparada com Isolda, devia mesmo parecer uma criana
insignificante.
"Se o conde casar com ela, como todo mundo espera, que ser de  mim? "
Isso fez com que, de repente, tivesse medo do futuro.
Petrina tinha pensado que ia detestar viver em Staverton House, mas: agora
adorava estar ali.
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No era apenas pela casa e pelos jardins, verdadeiramente lindos. Era
tambem de certo modo, excitante, quando o conde se achava presente.
No o via muito, mas, mesmo quando estava ausente, ela tinha conscincia
da presena dele.
Quando o conde entrava no salo, antes do jantar, ou nas raras ocasies
em que ia fazer companhia  av e a Petrina. o tempo parecia passar mais
depressa e a moa sentia uma estranha excitao que jamais havia 
conhecido.
Apesar de tudo, queria desafi-lo, zombar dele. 
Era uma coisa que nunca tinha sentido por outro homem. Mas, com o conde, 
o sentimento existia, embora ela no soubesse explic-lo.
"Por favor, meu Deus, no permita que ele case... logo. "
Era a orao mais tola que j tinha feito na vida.
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CAPITULO IV

O conde ergueu os olhos do jornal que estava lendo e fitou o secreniri
que acabara de entrar na biblioteca.
- Que deseja, Richardson?
- Posso falar-lhe por um momento, milorde?
- Claro - respondeu, largando o jornal. Percebeu que o secrctario estava
preocupado.
Richardson era um homem de meia-idade, que trabalhara com o pai e conde e 
sabia mais sobre as propriedades Staverton do que qualquer um dos dois.
Demonstrava tato com os criados e com os outros empregadomas, ao mesmo
tempo, tinha mo firme e estava atento a todos os detalhes. O conde sabia
que, ao contrrio do que acontecia em muitas casas de aristocratas, a
comida em nenhuma de suas casas era vendida  pelos chefs, nem o vinho era
roubado pelos mordomos.
- Por que est preocupado, Richardson?
Houve uma pequena pausa, antes de o secretrio responder.
- Achei que o senhor devia saber que a srta. Lyndon est sacando grandes 
quantias de sua conta particular.
- com certeza,  para pagar seus vestidos e outras coisas que
so consideradas necessrias para uma debutante.
- No, milorde. Sou eu que pago as contas das costureiras e das
chapeleiras, e no so exageradas.
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A expresso do conde mudou.
- Est dizendo que a srta. Lyndon tira essas quantias em dinheiro?
- Exatamente, milorde. Ela me diz de quanto necessita, assina os heques e 
eu lhe entrego o dinheiro no dia seguinte.
Vendo que o conde o fitava, incrdulo, o secretrio lhe entregou um 
pedao de papel.
- Foi esta a quantia que a srta. Lyndon pediu na semana passada,
milorde. O conde pegou o papel, olhou-o e perguntou, em tom ameaador:
- A srta. Lyndon est em casa?
- Creio que acabou de voltar de um passeio a cavalo, milorde.
- Ento, mande um criado dizer-lhe que quero falar com ela imediatamente.
- Est certo, milorde.
Houve uma nova pausa. Richardson disse, ento:
- Espero ter agido certo, contando ao senhor o que est acontecendo. Acho 
que, por mais rica que seja a senhorita, se isso continuar no mesmo 
ritmo, haver um rombo em sua fortuna.
Obviamente, estava constrangido com o que dizia. O conde tranquilizou-o:
- Fez muito bem, Richardson. Como sabe, sou o tutor da srta. Lyndon e eu 
 que terei que verificar as contas, quando o dinheiro lhe for entregue.
- Obrigado, milorde.
Richardson inclinou-se e saiu da sala. O conde, de sobrolho carregado, 
levantou-se e foi para a janela.
- Que diabo estar Petrina inventando, agora? - murmurou.
Olhou para o papel onde estavam anotadas as quantias que a moa havia 
retirado e apertou os lbios, contrariado.
Tinha ficado certo de que Petrina se comportaria, depois da promessa
que ela lhe fizera na noite que fora apanhada roubando a casa de sir 
Mortimer.
Pensou que tinha conseguido no apenas sua promessa, como tambm sua
confiana.
Mas agora disse a si mesmo, zangado, que havia sido tolice pensar que
uma  mulher pudesse ser correta e sincera. Todas elas trapaceavam, quando
tinham oportunidade.
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Na escrivaninha atrs dele havia duas cartas de lady Isolda,  ainda(,
fechadas.
Como o conde no a visitou durante vrios dias, ela o bombardeou com
recados e bilhetes. Ele sabia que, cedo ou tarde, teria que fazer com que
Isolda compreendesse que sua ligao estava terminada.
Como era inevitvel, no que lhe dizia respeito, era apenas uma questo de
tempo para ele ficar entediado com qualquer mulher, por mais bonita mais 
atraente que fosse.
Achava a conversa de Isolda banal e maante. Suas queixas constante por 
ele no querer casar com ela, o deixavam francamente entediado.
Isolda no era, em absoluto, o tipo de mulher com quem desejaria passar o
resto da vida.
O conde no tinha certeza sobre o tipo de mulher que queria para us seu

nome e ser a me de seus filhos, mas sabia que esta no se pareceria com
Isolda nem se comportaria como ela.
Tinha tido muitos casos amorosos, para no saber que, quando
inevitavelmente se cansava primeiro, o resultado era sempre uma cena
desagradvel. E, no que dizia respeito a Isolda, se ele no tivesse
cuidado bem das coisas, o caso iria repercutir em toda a alta sociedade.
"Diabo! Por que fui ter um caso com essa mulher? "
Mas, no momento, no estava preocupado com ela, e sim com Petrina.
Dali a momentos, a moa entrou na sala, com a habitual impetuosidade. O
conde virou-se. e a expresso de seus olhos tornou-se ainda mais sombria.
- Peo desculpa pelo atraso, tutor, mas estava no banho, quando recebi
seu recado, e achei que ia querer que eu usasse alguma coisa mas decente
do que uma toalha, antes de obedecer s ordens de Vossa Majestade!
Adiantou-se, confiante. Estava muito atraente, com um vestido musselina
azul-claro, enfeitado com fitas estreitas de veludo da mesna cor e com
babados na barra da saia.
Como o conde se encontrava de costas para a luz da janela, Petrina
notou sua expresso ao se aproximar.
Por um momento, a moa ficou imvel.
- O que aconteceu?
- Pensei que pudesse confiar em sua palavra - respondeu ele, num tom que
pareceu uma chicotada -, mas vejo que me enganei.
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- Minha palavra? Se quer dizer minha promessa, eu a cumpri, garanto-lhe
que no fiz nada de censurvel.
- Est mentindo. E deixe que lhe diga, Petrina: se h uma coisa que
detesto e abomino  que mintam para mim.
- Mas... no estou mentindo.
- Est!
- O que foi que fiz? Juro que no tenho a mnima ideia de ter agido
mal. O conde viu os olhos dela se arregalarem de surpresa.
- Juro por tudo o que me  sagrado que no estou sendo chantageada. Alm
do mais, no h o menor motivo para eu ser vtima de chantagem.
Ento, como explica isto aqui?
Petrina olhou para a folha de papel que ele lhe mostrava. Viu as quantias
e ficou vermelha.
O conde soltou uma exclamao de clera e foi at a lareira, ficando de
costas para ela.
- Agora, talvez eu oua a verdade. Petrina suspirou.
- Pensei em contar ao senhor, mas achei que... no ia compreender.
- Quem  o homem e qual o poder que ele tem sobre voc?
- No existe homem nenhum.
- Espera que eu acredite nisso?
-  verdade.
- Ento, para quem tem dado essas enormes somas de dinheiro? Houve uma
pausa.
- O dinheiro  meu.
- Dinheiro pelo qual sou responsvel, at voc completar vinte e um anos.
- Talvez eu devesse ter pedido ao senhor, mas fiquei com receio de e me
impedisse de fazer o que queria.
- Pode estar certa de que sim.
- Agora v por que eu no podia lhe contar.
- Vai me contar j!
Petrina hesitou de novo e depois disse, em voz baixa:
- Eu ia lhe perguntar de que modo poderia ajudar aquelas moas
infelizes... mas julguei que no concordaria. Ento, achei que poderia
dar-lhes o dinheiro sem que o senhor ficasse sabendo.
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- Que moas?
- As mulheres... nas ruas.
Ele a olhou, atnito, mas disse, em tom mais suave:
- Ser melhor que voc comece do princpio. Acho difcil compreender o que
est dizendo.
Sentou-se numa das poltronas perto da lareira e fez um gesto com mo,
indicando a outra a Petrina.
Ela sentou-se na beirada e encarou-o apreensiva.
- Tudo comeou numa manh, quando sua av estava indisposta e fui fazer
compras com Hannah, minha criada particular. Quando samos de  uma loja
vimos uma moa com uma criancinha no colo. O beb era muito pequeno e
parecia doente. A moa me pediu um auxlio. Dei-lhe algum dinheiro e,
como ela era muito jovem, perguntei se o beb era dela. Petrina relanceou 
o olhar para o conde, como se estivesse constrangida desviando-o depois.
Em voz baixa, continuou: - Ela me contou que  tinha apenas catorze anos,
quando veio para Londres,  procura de emprego. No sei como, mas foi
abordada na estao da diligncia por um homem que lhe disse... que a
ajudaria. - Petrina continuou, em tom ainda mais baixo: - Ele fez com que
a moa bebesse bastante gim. Ela no tinha certeza do que aconteceu
depois, mas nunca mais o viu.
- Essas coisas acontecem, quando as moas vm sozinhas para Londres -
disse o conde, secamente.
- Ethel, era este o nome dela, conseguiu arranjar um emprego, mas quando
perceberam que estava esperando um beb, foi despedida. Petrina estava
quase soluando. - Ela disse que a nica coisa que podi fazer era tornar-
se... prostituta.
Houve um silncio constrangido. O conde nada disse e Petrina continuou:
- Depois, quando o beb nasceu, ela teve que pedir esmola para os dois
poderem viver.
- Ela lhe contou essa histria enquanto vocs conversavam na rua?
- No estvamos em Bond Street, e sim, em Maddox Street, onde) no h
tanta gente. Fiquei com tanta pena, que lhe dei todo o dinheiro que tinha
comigo no momento. Voltei l, no dia seguinte, para lhe dar mais mas no a
encontrei.
O conde soltou uma exclamao de impacincia. Petrina continuo
rapidamente:
- No consegui dormir, naquela noite, pensando como a moa parecia doente
e como o beb era raqutico e doentio.
- Isso explica por parte do dinheiro que voc gastou - disse o conde.
Mas, e o resto?
- Quando eu passeava por Londres, de carruagem, com sua av, via crianas 
esfarrapadas e moas de rosto pintado e vestidos coloridos, esperando 
para... falar com os cavalheiros que passavam.
Voc no devia reparar nessas coisas.
- Como poderia, se no sou cega? - Em sua voz havia agora uma nota da 
antiga energia. Depois, como se tivesse medo da clera do conde, 
continuou mais calma: - Eu j tinha lido a respeito das condies das 
mulheres e das moas, em Londres, sobre a prostituio nas ruas e o modo 
como elas so exploradas por pessoas que as mantm num estado de 
escravido.
- Esse tipo de leitura no  para voc. Onde conseguiu ler tais coisas?
Petrina no respondeu, e ele insistiu:
- Eu lhe fiz uma pergunta. Onde leu essas coisas?
- Nos jornais e nas revistas que o senhor recebe aqui.
- No  uma leitura apropriada para voc.
- Acho justo que eu conhea as condies de Londres, no momento atual. E 
no  apenas The Political Register que escreve sobre essas coisas. Houve 
tambm discursos na Cmara dos Comuns, a respeito.
O conde sabia disso, assim como tinha havido vrios debates sobre as 
descobertas de uma comisso de inqurito nomeada no ano anterior para 
investigar as condies atuais.
Alguns membros da polcia, que no eram corruptos, tinham prestado
depoimento e o Parlamento ficara escandalizado e atnito.
Embora o conde e muitos outros homens tivessem discutido o assunto, 
nenhuma mulher de suas relaes havia demonstrado o menor interesse.
Estava perplexo com o que Petrina lhe contava, mas disse, apenas:
- Quero saber a quem mais voc deu dinheiro.
- Tenho medo de que fique zangado comigo. Mas, uma noite, depois le 
conheci Ethel, quis ver por mim mesma o que estava acontecendo e... andei
por Piccadilly.
"- Voc andou por Piccadilly? Sozinha?
- No. Sozinha no. No sou assim to tola! Deixei a carruagem na
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63
extremidade de Bond Street e fiz com que Jim, um dos lacaios
me acompanhasse.
- Jim no tinha o direito de fazer isso!
- No fique zangado com ele. Forcei-o a fazer isso, dizendo que, Se no 
me acompanhasse, eu iria s.
O conde ia esbravejar, mas conteve-se e perguntou:
- O que foi que aconteceu?
- Falei com vrias daquelas mulheres. Algumas foram rudes comigo, mas as 
outras, quando perceberam que eu queria apenas ajudar, responderam s 
minhas perguntas e contaram como  que comearam a vida que agora levam.
- E voc lhes deu dinheiro?
- Naturalmente! Quase todas ficaram muito agradecidas. Disseram que assim 
poderiam ter uma noite de folga e ir cedo para a cama.
O conde duvidou de que fizessem isso. Tinha certeza de que o dinheiro 
havia sido tirado delas pelos cftens, que invariavelmente as observavam. 
Nada disse, e Petrina continuou:
- Uma das moas me contou, o que eu no sabia, que no tinha licena de 
ficar com o dinheiro, de modo que combinei encontr-la no parque, na 
manh seguinte. Depois, fiz isso com muitas delas.
O conde ps a mo na testa. Tinha certeza de que Petrina no conseguira 
ajudar aquelas pobres prostitutas, como acreditava estar ajudando.
Os cftens, tanto quanto as caftinas, estavam sempre de olho nas mulheres 
que lhes traziam dinheiro suficiente para que tivessem carruagens e casas 
prprias em subrbios respeitveis. Lembrou-se de ter ouvido algum 
dizer, na Cmara dos Comuns, que no havia notcia de nem mesmo um desses 
exploradores ter ido parar na cadeia.
Eram donos de bordis e tambm das infelizes criaturas que andavam pelas 
ruas, geralmente em estado de embriaguez. Elas entregavam seus parcos 
ganhos em troca de um teto, at se tornarem pouco atraentes o doentes, 
no podendo mais ento continuar seu comrcio.
- Ajudei as mulheres de Piccadilly - continuou Petrina. - Mas e que eu 
mais desejava era ajudar as que tinham filhos. Agora, elas reconhecem a 
carruagem, quando apareo em Bond Street, e sempre h duas ou trs 
minha espera. - Olhou nervosamente para o conde e explicou: - Quando sua
av est comigo, aproveito o momento em que ela
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entra na carruagem para colocar pacotinhos de dinheiro nas mos das
pedintes. - Fitou o conde com ar splice e continuou: - Receio ter
gastado muito, mas sempre que ponho um vestido bonito, ou uma jia
maravilhosa da coleo de sua famlia, no posso deixar de pensar no
modo como aquelas pobres mulheres tm que ganhar a vida e nas crianas
que tm fome. De repente, os olhos de Petrina se encheram de lgrimas. 
Levantou-se
depressa da poltrona e foi para a janela, para que o conde no a visse
chorando. Ele olhou para a silhueta contra o sol, que fazia com que os 
cabelos
dela parecessem dourados.
- Venha sentar-se, Petrina. Quero falar sobre isso com voc.
A moa enxugou os olhos disfaradamente e voltou para a poltrona.
- Compreendo seus sentimentos, mas gostaria que voc tivesse confiado em 
mim e me contasse como se sente a respeito dessas mulheres
- disse o conde, serenamente.
- Achei que me impediria. Papai sempre dizia que dar dinheiro a mendigos 
era jog-lo fora. Mas eu tinha que ajudar.
- Compreendo isso, mas no futuro precisa agir de maneira mais prtica.
Petrina fitou-o.
- Estive pensando que, quando eu fizer vinte e um anos e for dona do meu 
dinheiro, poderia construir um lar, ou um hotel, onde essas mulheres 
pudessem deixar seus filhos, que ali seriam alimentados e protegidos.
-  muito boa ideia.
No queria desiludi-la, explicando que muitas daquelas crianas que 
queria ajudar eram alugadas por dia, passando de uma mulher para outra e 
Servindo apenas para despertar os bons sentimentos das pessoas de corao 
mole.
Quer dizer que me ajudar? - perguntou Petrina. Certamente, vou
aconselh-la a como deve dar seu dinheiro para caridade de um modo mais 
razovel e mais sensato.
Quero ajudar moas como Ethel, que tiveram um filho... por engano... e que
no so casadas.
- No vai ser difcil. Creio mesmo que h associaes que do assistncia
s mes solteiras.
- H, mesmo? No parecem muito eficientes.
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-  verdade.
Sabia que Petrina no compreendia a magnitude do problema do qual tomara
conhecimento por acaso, ou talvez por ser mais sensvel do que a maioria
das mulheres da alta sociedade.
- Creio que poder verificar que algumas igrejas, como St. James; em
Piccadilly, conhecem o problema dessas mulheres, principalmente as que tm
filhos. Acho que a melhor coisa a fazer no momento, Petrina,   voc ir
conversar com o vigrio. - Vendo que ela no estava muito  entusiasmada com
a ideia, continuou: - Tenho certeza de que vai ver que a razo de o trabalho do vigrio no ser mais produtivo  a falta de fundos.
- Ento, poderei dar-lhe parte do meu dinheiro - disse ela emocionada.
- Sem dvida. Contanto que antes discuta o caso comigo e que ambos
fiquemos convencidos de que o dinheiro ser bem empregado.
- Oh, obrigada! Obrigada!
-  o seu dinheiro, no o meu.
- Quero ajudar! Quero realmente fazer alguma coisa boa com a minha
fortuna. Mas o que no compreendo...
Interrompeu-se, como se o que fosse dizer a embaraasse.
- O que voc no compreende?
- Por que h tantas mulheres andando pelas ruas e tantos homens
interessados por elas?
Estava pensando como muitas das mulheres eram vulgares principalmente as
que tinham sido rudes com ela.
Embora Petrina tivesse andado por Piccadilly bem no incio da noite
tinha visto que um surpreendente nmero de moas estavam to bbadas que 
mal se aguentavam de p.
Isso lhe abriu os olhos. Ao mesmo tempo, foi um choque, e compreendeu
que nunca mais esqueceria o que havia visto, nem as histrias tristes que
as mulheres lhe contaram.
Como se soubesse o que ela estava pensando, o conde disse observando-a:
-  preciso tempo para se reformar o mundo, Petrina, e uma pessoa no
pode fazer isso sozinha.
- Compreendo, mas o senhor tem tanta fora e autoridade! Pode fazer  na
Cmara dos Lordes, pode influenciar o regente...
O conde sorriu.
Est me atribuindo poderes que no possuo. Acontece que j falei
sobre isso na Cmara e estou pronto a faz-lo outra vez.
- Est? Est, mesmo? O que essas mulheres precisam  de ajuda, no de 
leis que faro com que elas vo para a cadeia.
- Voc tocou numa das maiores dificuldades que tivemos at agora. Ao 
mesmo tempo, Petrina, quero dizer-lhe que seu interesse por essas 
mulheres no  compatvel com a sua situao de debutante.
Petrina de novo se levantou e foi para a janela. Ficou olhando para o
jardim.
- O senhor deve ter rido de mim, quando lhe contei o que pretendia
ser, ao vir para Londres.
O conde riu. Ainda podia ouvi-la dizendo, com ar desafiador, que 
pretendia ser uma dama-da-noite.
- Eu lhe disse que voc no sabia o que estava falando.
- Estou com vergonha. com vergonha no apenas do que disse, mas por ter 
achado que era um jeito divertido de viver, e no esse horror... e essa 
degradao.
Por seu modo de falar, o conde soube que Petrina tinha ficado muito 
chocada e disse a si mesmo, encolerizado, que era uma coisa que nunca 
devia ter acontecido.
- Venha c, Petrina.
Ela no obedeceu, e ele se levantou, atravessando a sala e se aproximando 
dela.
- Vou lhe dar um conselho. Duvido que voc o siga, mas  uma coisa que
todo reformador tem que aprender, cedo ou tarde.
- O que ?
- No pode se envolver pessoalmente e emocionalmente com as Pessoas que
voc est tentando ajudar.
Viu o protesto dos olhos dela, mas continuou:
- Se permitir que seu corao se parta, acabar ficando fantica. Perder
a perspectiva sensata e equilibrada que  necessria e essencial Para
qualquer trabalho que queira fazer, seja em que campo for.
Petrina refletiu por um momento.
- Compreendo isso, e tem razo. Mas, oh, meu tutor, no posso Aportar a
ideia daquelas moas e... Por que  que os homens por quem elas
esperam... no tm pena delas?
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- Se voc quer mesmo que eu a ajude nesse projeto, acho que temos que
abord-lo de um outro ngulo. Se isso lhe agradar, Petrina, iremos amanh
procurar o vigrio de St. James, em Piccadilly. Voc pode verificar o que
ele est fazendo para ajudar essas infelizes. E tenho certeza de que o
vigrio vai ficar muito satisfeito com qualquer ajuda financeira que lhe
der.
- O senhor ir mesmo comigo?
- com uma condio. Ela o encarou, apreensiva.
-  que voc no faa mais investigaes particulares - acrescentou o 
conde. - Por falar nisso, no  um pedido,  uma ordem!
- Eu sabia que ia tentar me impedir.
- Pela melhor das razes. Em primeiro lugar, vo abusar de voc: em 
segundo, isso no  assunto para ser tratado por uma dama.
- Ento, deveria ser - protestou Petrina, zangada. - Todas as mulheres
deveriam saber o que as outras esto sofrendo, principalmente quando so 
muito jovens e inexperientes para tomar conta de si mesmas.
- Isso pode se aplicar a voc - observou o conde. Ela deu um sorrisinho 
triste.
- Eu devia ter adivinhado que ia tocar nesse ponto, mas, afinal de 
contas, tenho o senhor para tomar conta de mim.
- Quando voc o permite.
- Lamento, agora, no ter lhe contado antes. Mas tinha sido to positivo, 
dizendo que eu no devia nem mesmo tocar no assunto!...
- Eu devia ter sabido, Petrina, que ia encontrar uma desculpa para seu 
comportamento.
- Quero que me ajude. Quero, mesmo! Seria maravilhoso, mais maravilhoso 
do que eu possa dizer, se fizssemos isso... juntos.
Estendeu a mo e segurou a dele. Continuou, em voz baixa:
- Nunca pensei que pudesse compreender, mas compreende. E isso faz com 
que eu sinta que tudo vai dar certo. - Sentiu os dedos fortes do conde 
apertarem os seus. - No vai contar  sua av que a enganei... andando 
por Piccadilly com Jim? Ela pensou que eu estava em casa de Claire.
- Prometo que tudo o que me disse ser considerado confidencial. Petrina 
sorriu, mas seus olhos ficaram de novo midos.
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- O senhor  maravilhoso! Realmente maravilhoso! Prometo que serei muito 
comportada, daqui por diante. Duvido muito - respondeu o conde. Mas 
estava sorrindo.

petrina olhou ao redor, excitada.
Os famosos jardins de Vauxhall eram exatamente como esperava que fossem,
mas as luzes pareciam mais fortes, e os arranjos para a ceia, mais
interessantes do que tinha imaginado.
Enquanto se vestia para o jantar, teve uma dor de conscincia, porque 
estava enganando a duquesa e, por conseguinte, o conde. Mas disse a si 
mesma que no podia decepcionar Claire, depois que esta se dera a tanto 
trabalho para programar aquela noitada.
Claire ficou to agradecida por Petrina ter conseguido reaver as cartas, 
que quis mostrar essa gratido fazendo uma coisa que agradaria  amiga.
Quando Petrina lhe entregou as cartas, a outra rompeu em lgrimas.
- Petrina, minhas cartas! No sei como lhe agradecer! - Depois, atravs 
das lgrimas, disse: - Eu lhe pagarei tudo. Voc sabe que pagarei, nem 
que leve muito tempo.
- Voc no me deve um nquel.
Claire ficou to atnita, que parou de chorar.
-  verdade - falou Petrina.
- Mas... no... compreendo. No  possvel que ele... lhe tenha dado as 
cartas...
- Roubei-as! Mas voc no deve contar nada a ningum. Tem que me jurar, 
Claire, que nunca, nunca mesmo, falar a quem quer que seja sobre as 
cartas e como as obtive de volta.
- Juro!  claro! Juro! Mas conte o que aconteceu. - Depois que ouviu a 
histria toda, ficou estarrecida. - Como  que voc pde ser to 
corajosa? Como pode fazer uma coisa to perigosa, s para me ajudar?
- Porque voc  minha amiga, Claire, e porque acho sir Mortimer 
totalmente desprezvel. No suportava a ideia de v-lo ganhar tanto 
dinheiro de um modo to vergonhoso.
A outra encarou-a, com espanto e admirao. A seguir, as duas queimaram 
as cartas na lareira, com todo o cuidado, at que s restassem cinzas.
Enquanto as chamas subiam, Claire suspirou de alvio.
- Agora, Frederick jamais saber.
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- Nunca, a no ser que voc lhe conte, e  uma coisa que nunca deve 
fazer.
- Eu lhe fiz uma promessa, Petrina, e jamais a quebrarei - disse Claire,
com ar solene.
Beijou Petrina, agradecendo-lhe novamente. Mas, dali por diante, ficou
procurando um jeito de retribuir-lhe o favor.
Quando Claire contou  amiga que tinha arranjado para cearem eu Vauxhall
Gardens, Petrina compreendeu que era uma celebrao cujo significado s 
as duas compreendiam.
Jantaram primeiro em casa de Claire, com a presena do marqus e da 
marquesa de Morecombe, o que tornou a conversa um tanto maante.
Os pais de Claire pensavam que eles iam a um baile, mas as duas moas,
acompanhadas por Frederick e pelo visconde Coombe, irmo de Claire foram
para Vauxhall Gardens.
Apesar de sua reputao duvidosa, Vauxhall tinha o selo da 
respeitabilidade, porque o prncipe regente ia l muitas vezes, tendo seu 
prprio pavilho, com uma entrada particular, diretamente da rua.
Mas, sendo um lugar pblico, estava  disposio de quem pudesse pagar a 
entrada.
Preveniram Petrina de que havia batedores de carteira, homens bem 
vestidos e com ar de prosperidade, que caminhavam por entre as rvores.
Frederick e Rupert conduziram as duas moas por entre a multido, 
levando-as para a Rotunda, onde a ceia estava sendo servida em pequenas 
alcovas em semicrculo, decoradas em estilo oriental.
Cada alcova usada para a ceia era decorada com quadros. Petrina viu-se em 
uma que era chamada "O Drago".
Havia ali a pintura de um monstro verde soltando fogo pela boca, com uma 
expresso que o visconde Coombe comparou com a do prncipe regente quando 
o Parlamento se recusava a votar mais dinheiro para ele.
Petrina achou o irmo de Claire um tanto decepcionante. No havia dvida 
de que era, como a amiga o descrevera, um "almofadinha" dos mais
elegantes, mas assumia tambm uma atitude lnguida, com as plpebras
cadas e a voz entediada da "roda elegante", o que Petrina considerava
muito irritante.
Era diferente de Frederick Broddington, que ela achava cada vez mais
simptico.
Mas Frederick s tinha olhos para Claire. Petrina compreendeu que
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esperavam que ela se mostrasse agradvel com o visconde e procurasse
manter conversa com ele. 
Isso era difcil. Tinha a desagradvel impresso de que Rupert havia sido 
pressionado pela irm para acompanh-la naquela noite, quando preferia 
estar em outro lugar.
Em todo o caso, respondeu a algumas das perguntas de Petrina e encomendou
algumas fatias do famoso presunto Vauxhall, que custava uma fortuna.
Pediu tambm champanhe, mas Petrina percebeu que no era de to boa
qualidade como o que serviam em casa do conde.
Olhou para a Rotunda, com olhos arregalados, pois tinha ouvido dizer que 
ali havia os retratos de Henrique VIII e de Ana Bolena, feitos por
Hogarth.
De onde estavam via o lugar da orquestra, que parecia um pagode chins, 
embora tivesse em cima o emblema do prncipe de Gales.
Algumas pessoas danavam, mas a maioria passeava, em meio s cinco mil 
lmpadas a leo que faziam com que Vauxhall fosse um dos lugares mais bem 
iluminados de Londres.
- Quando  que o show vai comear? - perguntou ao visconde.
- No deve demorar, mas vou procurar saber.
Levantou-se e saiu com uma pressa que fez com que Petrina compreendesse 
que ele tinha razes para querer escapar. Mas a moa no sentiu sua 
falta, preferindo olhar para a multido  sua frente.
Frederick falava baixinho com Claire, evidentemente murmurando palavras 
de amor, que deixavam a noiva corada e muito bonita.
Petrina mudou a cadeira para o mais longe possvel dos dois, para no 
ouvir, embora sem querer, o que diziam um ao outro.
Foi ento que, no outro lado da diviso entre seu compartimento e o 
vizinho, ouviu uma voz conhecida dizer:
- Ela no apenas canta divinamente, mas  muito sedutora, o que o conde 
aprecia bastante.
- Eu o amaldioo todos os dias, por ter me suplantado! - respondeu uma 
voz de homem.
- Voc est contando vantagem, Ranelagh - disse o primeiro homem, rindo.
Era lorde Rowlock.
Petrina soube com quem ele estava falando, pois tinha sido apresentada ao
duque de Ranelagh e danado com ele num baile.
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Achou-o um rapaz convencido, e ele tinha demonstrado claramente que no se
interessava por ela.
- Ouvi dizer que Staverton comprou para Yvonne uma casa ei Paradise Row. 
em Chelsea, instalando-a l com luxo e dando-lhe uma  carruagem com
cavalos que deixam para trs todos os outros da alta sociedade! -
observou lorde Rowlock.
- No ouvi falar da casa, apenas; estive l!
- Deus d piedade, Ranelagh! Entrou pelo buraco da fechadura? No posso
acreditar que o conde o tenha convidado.
- Tenho meus recursos - disse o duque, gabando-se. - Para ser franco,
Rowlock, nossa francesinha bonita no esconde que gosta de mim.
Rowlock no respondeu, e o duque continuou:
- Mas fui franco: disse a ela que no tenho o dinheiro de Staverton,
chegamos a um acordo amigvel.
- Que tipo de acordo?
Petrina no podia ver o duque, mas tinha a impresso de que estava cheio
de si e todo satisfeito. Achou mesmo que devia ter piscado para o amigo.
- Quando o gato est fora, os ratinhos brincam - respondeu ele, de um
modo evasivo.
- Que quer dizer com isso?
- Voc pode adivinhar, Rowlock. Staverton nem sempre est en Londres. E, 
quando est, muitas vezes se acha em companhia de lady Isolda.
- Quer dizer que...
- Quero dizer que sou persona grata com a nossa borboleta francesa. Lorde
Rowlock soltou uma exclamao.
- Pelo amor de Deus, homem, tenha cuidado! Staverton  um timo atirador
e tenho certeza de que no permitir que ningum, muito menos voc, v
"caar em sua propriedade".
- Sou a discrio em pessoa - disse o conde, despreocupado. - posso 
garantir, depois que vi os brilhantes que Yvonne arrancou dele, que ela 
no tem a mnima inteno de perd-lo.
- Voc  mais corajoso do que eu.
- Para obter o que deseja neste mundo, uma pessoa precisa de coragem e 
determinao.
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- Acredita mesmo nisso? - perguntou Rowlock, em tom diferente.
Sempre consegui o que queria na vida. No apenas fui
determinado, como corri certos riscos para obter o que desejava. - Riu e
continuou: - Quando fao amor com a amante de Staverton, na cama de
Staverton, tendo tomado o excelente champanhe de Staverton, congratulo-me
por ser extremamente inteligente.
- Um brinde a isso. E fao um brinde a voc, Ranelagh. Voc me deu uma 
ideia. Se der certo, eu lhe ficarei grato, com toda a sinceridade,
- Fico encantado por poder ajudar.
Petrina ouviu o tilintar de copos e achou que os brindes estavam sendo
feitos por cima da mesa.
Ficou zangada por saber que o duque de Ranelagh e lorde Rowlock (que ela
tinha recebido ordem de riscar da lista de seus conhecidos) estavam
zombando do conde e achando que tinham lavrado um tento contra ele. 
Mas Petrina teve pouco tempo para refletir sobre isso, pois o visconde 
voltou, dizendo que Yvonne Vouvray logo iria cantar.
Ele mal se sentara, quando um mestre-de-cerimnias anunciou a entrada da 
prima-dona.
- Milordes, senhoras e senhores, esta noite temos a grande honra e o 
privilgio de ouvir uma das mais famosas prima-donas de toda a Europa. 
Cidad da Frana, onde cantou na famosa pera de Paris, assim como no 
Scala de Milo,  conhecida como "O Rouxinol"! Milordes, senhoras e 
senhores, tenho a suprema honra de lhes apresentar a maravilhosa 
mademoiselle Yvonne Vouvray!
Houve uma salva de palmas. O mestre-de-cerimnias fez com que a famosa 
soprano se adiantasse.
Mesmo da distncia a que se achava, Petrina percebeu como a cantora era 
atraente. Tinha cabelos escuros, mais ainda do que os de lady Isolda; os
olhos eram enormes, com pestanas muito longas; os lbios, vermelhos.
Estava com um vestido muito bonito, cheio de pedrarias que Brilhavam no 
ambiente profundamente iluminado.
Comeou a cantar e logo ficou claro que merecia todos os elogios que os
crticos lhe faziam.
Todos ouviam em absoluto silncio.
Sua voz tinha o timbre raro, lmpido de um rapazinho, mas Yvonne era
muito feminina e extremamente sedutora.
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Tinha um corpo voluptuoso, mas o pescoo comprido e os ombros
arredondados eram os de uma jovem deusa.
Petrina achou a voz da artista irresistvel. Olhando para Yvonne, sentiu
uma pontada de dor no corao.
"Ela  linda, atraente, e no  de admirar que ele... "
Procurou no pensar nisso, porque doa saber que essa criatura 
maravilhosa, essa mulher que tinha uma voz que fazia com que chamassem de 
"Rouxinol", pertencia ao conde.
Por um momento, ficou sem saber por que tal fato a feria tanto, por que a
dor no corao parecia aumentar a cada nota cantada por Yvonne.
Ento, de repente, Petrina soube a verdade. O horror da descoberta fez com
que desejasse gritar que no era verdade.
Mas no podia negar que estava com cime, cime da amante do conde; um
cime que lhe causava uma dor lancinante, como se uma espada a
transpassasse.
Estava com cime do conde, porque o amava!
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CAPITULO V

- Hoje vamos jantar em Devonshire House - disse a duquesa-me.
- Nossa presena aqui no  necessria, porque meu neto vai dar um 
jantar.
- Um jantar? - perguntou Petrina, achando que seria s para homens.
A duquesa sorriu.
- O prncipe regente se convidou a si prprio. E, embora venham muitas 
mulheres bonitas, o assunto principal se centralizar em outra fmea.
Petrina pareceu perplexa, e a duquesa continuou:
- Durwin est decidido a ganhar a Taa de Ouro em Ascot, com sua gua 
Bella, ao passo que o prncipe est convencido de que o animal que ele 
inscreveu  o que vai ganhar.
Petrina compreendia que a conversa seria muito animada, entre dois 
Proprietrios rivais, tendo certeza de que outros scios do jquei-clube 
estariam presentes, mas ficou um tanto despeitada por no ter sido 
convidada.
Como se adivinhasse esses pensamentos, a duquesa explicou:
- O prncipe regente gosta de mulheres mais velhas e mais
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sofisticadas. Claro que vai trazer lady Hertford. E aposto que lady Isolda
deu um jeito para ser convidada, seja l como for!
Havia uma nota glida na voz da duquesa, que, como Petrina sabia no
gostava de lady Isolda, tanto quanto Petrina no gostava.
Desde que descobrira que estava apaixonada pelo conde e com cimesdas
mulheres a quem ele dava ateno, a moa achava cada dia mais doloroso do
que o outro. Torturava-se com a lembrana do poder de atrao de Yvonne e da
beleza de Isolda.
Ignorava, naturalmente, que o conde estava achando as exignciasde  Isolda
cada vez mais irritantes e que, numa gaveta da escrivaninha dele, havia
numerosas cartas perfumadas daquela senhora, ainda por abrir.
S o que Petrina sabia era que, em todos os bailes, em todas as
recepes, Isolda gravitava em torno do conde, como se ele fosse um im e  
que diariamente, lacaios com a libr da famlia Herbert vinham entregar 
cartas e bilhetes em Staverton House.
"Estou contente por no comparecer hoje ao jantar.
Seria difcil dar ateno aos homens sentados a seu lado, porque estaria 
observando o conde, sabendo que lady Isolda, provavelmente sentada ao 
lado dele, obteria todas as suas atenes.
Era impossvel supor que ele no estivesse encantado com a beleza daquela 
mulher. Petrina pensou, desesperada, que seria apenas uma questo de 
tempo, talvez de dias, para que o noivado fosse anunciado.
Durante todo o dia percebeu que esperava v-lo aparecer, com seus ombros 
largos, seu rosto bonito e um tanto cnico, seus cabelos escuros.
O conde foi muito bondoso, levando-a para conversar com o vigrio de St. 
James, em Piccadilly.
L, Petrina ouviu o padre contar o que estava fazendo pelas crianas 
carentes de sua parquia e de outras, que muitas vezes eram abandonadas 
dentro da prpria igreja. Contou tambm que lutavam com a falta de 
fundos, embora estivessem caminhando na direo certa.
Mas Petrina achou que no estavam lutando o suficiente em favor das 
pobres moas que vinham do campo, eram seduzidas e levadas a uma vida de 
pecado, antes que compreendessem o que lhes acontecia. Perguntou ao 
vigrio:
- No seria possvel uma pessoa como o senhor, ou talvez uma mulher, 
ficar de planto nas estalagens onde as diligncias deixam os
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passageiros? Assim, se surgisse uma jovem parecendo perplexa e
desamparada, poderia ser levada para um lugar seguro, ou para uma casa de
famlia, para trabalhar como criada.
 certamente uma ideia, srta. Lyndon - respondeu o vigrio -,
mas, para ser franco, no disponho de um nmero suficiente de auxiliares. 
E duvido que as moas que vm para Londres queiram ouvir esse tipo de 
conselho.
Petrina achou tal atitude derrotista. Quando se viu a ss com o conde, 
insistiu em sua ideia, dizendo que tinha certeza de que alguma coisa 
podia ser feita.
- Vou discutir o caso com a polcia - prometeu ele.
- Uma jovem do campo pode ficar com medo, se um policial lhe dirigir a 
palavra - comentou Petrina. - Precisamos, isso sim, de uma senhora de 
idade, bondosa e maternal, que ganhe a confiana das moas e faa com que 
compreendam que precisam ter cuidado.
O conde nada disse, sabendo que havia muitas mulheres, do tipo descrito 
por Petrina, que ficavam  espera dessas moas, quando elas desciam das 
diligncias. Eram agenciadoras que, com promessas de empregos e salrios 
altos, atraam as vtimas para casas de tolerncia, de onde jamais 
conseguiam escapar.
- Prometo estudar o problema a fundo, Petrina. J o discuti com lorde 
Ashley, que  um de nossos reformadores mais brilhantes, mas voc no 
deve ficar impaciente, se no obtivermos resultados rpidos.
- Estou impaciente! A cada dia, a cada hora, mais moas se perdem, se 
tornam infelizes, pondo no mundo filhos indesejados.
Havia em sua voz uma intensidade que o conde achou comovente. Entre as 
mulheres que conhecia nunca tinha encontrado uma s que se importasse
com o que acontecia com as menos afortunadas.
Percebeu que, agora, olhava de um modo diferente para as prostitutas que
via nas ruas, quando passava de carruagem. E tambm lia com mais ateno
as notcias dos jornais sobre os crimes que eram cometidos.
Muitos de seus amigos ficaram surpresos, quando ele lhes falou seriamente 
sobre o assunto.
- Pensei que voc j tivesse mulheres demais com as quais se Preocupar, 
Staverton, sem incluir na lista as infelizes prostitutas disse-lhe um 
membro do Parlamento.
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Mas outros lhe deram mais ateno, sabendo que ele era um membro
influente da Cmara dos Lordes.
No havia dvida de que o conde tinha sido bondoso, pensou Petrina Mas 
isso no queria dizer que se interessava por ela, pessoalmente Afinal, 
por que se interessaria, quando j tinha duas mulheres to bonitas?
Amando-o e no podendo pensar em mais nada, ela agora dormia mal e 
emagreceu. A duquesa notou isso.
- Ainda bem que a estao est no fim - disse a velha senhora. Essas 
noitadas e esses bailes vo acabar fazendo com que voc perca a beleza, 
se no tiver cuidado.
Petrina ficou imaginando o que lhe aconteceria, ento, e se o conde tinha 
algum plano para ela. Temendo que o tutor pudesse mand-la para o campo, 
ou para Harrogate, no se atrevia a fazer perguntas.
Mas sabia que, quando Ascot terminasse, o prncipe regente iria para 
Brighton. Depois, pouco a pouco, as casas grandes iriam se fechando e os 
donos seguiriam o regente, ou viajariam para suas casas de campo, onde 
ficariam at o outono.
Petrina perguntou ao sr. Richardson quem vinha jantar em Staverton House 
e o secretrio lhe mostrou a lista de convidados. Eram apenas vinte, 
sendo a lista encabeada, naturalmente, pelos nomes do regente e de lady 
Hertford. O nome de lady Isolda pareceu pular do papel e danar diante de 
seus olhos.
Petrina foi jantar com a duquesa, sentindo-se como Cinderela, que no
havia sido convidada para o baile.
Como o jantar em Devonshire era apenas de famlia, as duas voltaram cedo 
para casa. Quando chegaram, o mordomo disse  duquesa:
- As senhoras acabam de ir para o salo, Vossa Graa, e os cavaleiros 
ainda esto na sala de jantar.
- Ento, vamos subir sem que nos vejam - respondeu a duquesa, sorrindo. 
Beijou Petrina no rosto e acrescentou: - Boa noite, querida. Pode ir na 
frente. Sabe que tenho que subir a escada devagar.
- Boa noite, senhora - respondeu Petrina, com uma reverncia. Quando a 
duquesa comeou a subir, a moa acrescentou:
- H no salo azul um livro que desejo ler. Vou busc-lo.
Sabia que no encontraria ningum l, pois o salo azul nunca era
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usado  noite. Encontrou o livro que queria e tambm uma revista que 
tinha comeado a ler,  tarde.
Apanhou-os e j se dirigia para a porta, quando teve vontade de tomar um 
pouco de ar. Sabia que teria dificuldade em conciliar o sono.
Os dois ltimos dias tinham sido muito quentes, e Petrina queria sentir 
agora o ar fresco da noite.
Puxou as pesadas cortinas de cetim e abriu a porta-janela que dava para
o terrao.
Ao sair, ouviu vozes que vinham do salo, assim como risos masculinos na 
sala de jantar, que dava para o jardim.
Petrina desceu os degraus silenciosamente e foi para o gramado em 
sombras.
Ali estava fresco e agradvel. Quando se viu longe das luzes da casa, 
percebeu que a Lua e as estrelas davam claridade suficiente para 
caminhar, sem cair nos canteiros nem esbarrar nas moitas.
Lembrou-se de que havia um banco na extremidade do jardim, no muito 
longe do porto por onde ela e o conde tinham entrado, na noite em que 
roubara a casa de sir Mortimer.
Teve vontade de sentar-se l e no pensar na beleza de Isolda, nem nos 
encantos de Yvonne. Havia muitas outras coisas para ela pensar.
Pelo fato de estar apaixonada, queria, assim como todas as mulheres desde 
o princpio dos sculos, ser melhor, mais inteligente e mais bonita, para 
o homem amado.
O conde era to inteligente, pensou, que certamente achava maante sua 
ignorncia sobre vrios assuntos.
Sendo modesta a respeito de suas qualidades, Petrina tinha certeza de que 
lady Isolda sabia discutir poltica, corridas de cavalos e vrios outros 
assuntos do interesse do conde, com um conhecimento que ela, Petrina, por 
ser muito mais moa, no podia ter.
"Mas vou tentar. vou tentar! "
O livro que estava lendo e que tinha ido buscar para levar para o quarto
era sobre cavalos de raa e seu tratamento.
Petrina j tinha quase chegado ao lugar onde pretendia sentar-se, quando, 
atnita, viu algum se levantar do banco e se dirigir rapidamente para as 
sombras das rvores.
A moa ficou imvel.
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- Quem est a? - perguntou. No houve resposta.
- Eu o vi! - disse ela, em tom acusador. - Ento, no adianta se
esconder.
Pensou que fosse um dos criados, e eles no tinham licena de andar pelos
jardins.
Aproximou-se do banco. Como as moitas atrs no eram muito cerradas,
julgou ver ali um vulto.
- Saia da! - ordenou, com firmeza. - A no ser que queira que eu chame 
um dos lacaios!
As moitas se abriram e um homem apareceu.
Ao luar, ela conseguiu ver-lhe o rosto, mas no o conhecia. Era um 
estranho, e no, como esperava, um dos empregados da casa.
- Quem  voc e o que est fazendo aqui?
- Peo desculpas - respondeu o homem.
- Sabe que  um intruso?
- Sei e vou partir imediatamente. Petrina fitou-o, indecisa.
- Se  um ladro, no posso permitir que v embora.
- Garanto-lhe, srta. Lyndon. que no tenho inteno de roubar coisa 
alguma.
- Sabe quem sou?
- Sei.
- Mas como? E por que est aqui?
- Prefiro no responder, mas prometo que no causarei nenhum dano 
material e que irei embora imediatamente, se assim o desejar.
- Que quer dizer com "dano material"?
O estranho sorriu e ela percebeu que era moo, com menos de vinte e cinco 
anos. Embora no o distinguisse bem, notou que estava vestido com asseio, 
mas no com a elegncia de um cavalheiro.
- Quem  voc? - perguntou ela, novamente.
- Meu nome  Nicholas Thornton, que nada significa para voc.
- E o que voc faz?
- Sou reprter.
- Reprter? Quer dizer que est aqui para dar notcia sobre o que est
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acontecendo? Sei que o conde no vai gostar disso. Trata-se de uma festa 
particular.
Sabia que, quando o prncipe jantava em particular com um de seus amigos- 
tudo era feito para que a notcia no sasse nos jornais.
O rapaz sorriu.
- Garanto-lhe, srta. Lyndon, que a presena de Sua Alteza Real nada tem a 
ver com o fato de eu estar aqui.
- Ento, de que se trata?
-  uma coisa que no posso contar, mas lhe agradeceria se me deixasse 
ficar.
- Por mera curiosidade: como entrou?
- Pulei o muro.
- Ento, sem a menor dvida,  um invasor. Se eu fizesse o que devia, 
estaria gritando por socorro e voc seria expulso daqui.
- Sei disso, mas, como sei tambm que -boa com as pessoas menos 
afortunadas, suplico-lhe que me deixe, ficar.
- Como  que sabe que sou boa? - perguntou Petrina, desconfiada.
- Ouvi falar do dinheiro que andou dando s mulheres da vida.
- Se ouviu, por favor no publique nada sobre isso em seu Jornal. Meu 
tutor ficaria muito aborrecido, eu tambm no gostaria que isso se 
tornasse pblico.
Nicholas Thornton no respondeu e Petrina insistiu:
- Por favor... Estou pedindo como um favor.
- Posso pedir um, em troca?
- Qual?
- Que me deixe ficar.
- Creio que  razovel - respondeu, hesitante. - Mas gostaria que me
dissesse qual o motivo.
- Eu lhe conto, se jurar que no vai mudar de ideia e mandar que me
expulsem daqui.
- S posso prometer depois de ouvir o que tem a dizer. Estava sendo
cautelosa, mas ao mesmo tempo sabia que o conde detestaria qualquer tipo
de publicidade sobre a generosidade de sua pupila com as mulheres de
Piccadilly. E a duquesa ficaria escandalizada, se soubesse que Petrina
tinha conversado com aquelas mulheres.
Sentou-se no banco, sentindo-se desamparada.
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- Conte-me o que deseja e procurarei compreender.
-  muita bondade sua. srta. Lyndon - respondeu o rapa sentando-se ao 
lado dela. - Embora no signifique nada para a senhorita  muito 
importante para mim, pessoalmente.
- Porqu?
- Porque, se eu conseguir uma reportagem hoje  noite, talvez isso ajude 
muito minha carreira.
- Como  possvel?
- J ouviu falar de William Hone?
- No creio.
- Ele  conhecido como o "heri da imprensa" - explicou Nicholas 
Thornton. -  um reformador desde 1796, quando, aos dezesseis anos se
uniu  Associao dos Correspondentes de Londres.
- O que ele faz?
-  dono do Weekly Reformists Register.
- J ouvi falar. Para dizer a verdade, li alguns nmeros.
- Escrevo para esse jornal. Mas William Hone esteve preso no ano passado 
e, com isso, o jornal decaiu muito.
- O que ele faz agora?
- Est livre e pretende fundar um jornal chamado John Buli Prometeu me
dar um bom emprego, se tudo correr bem, e acho que vai correr.
- Mas ainda no foi publicado.
- Organizar um jornal leva tempo - disse Nicholas. - Nesse meu tempo, 
estou tentando mostrar a William Hone que reportagens sou capa de 
apresentar. Ele arranjou com um amigo seu, dono de The Courier, para que 
sejam publicadas nesse jornal.
- Compreendo. Mas que reportagem  essa que voc considera to 
importante?
- Serei absolutamente franco, srta. Lyndon, porque, sem a sua boa 
vontade, serei expulso daqui. E, se isso acontecer, me verei obrigado a 
escrever sobre sua experincia com as mulheres de Piccadilly, em vez de 
fazer a reportagem que vim procurar aqui.
Falou de maneira calma e agradvel, mas Petrina percebeu a ameaa por 
trs daquelas palavras.
- Conte-me o que .
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- Conhece lady Isolda Herbert?
- Naturalmente.
- E sabe que todo mundo espera que seu noivado com o conde de Staverton 
seja anunciado a qualquer momento?
- Sei - respondeu Petrina, em voz baixa.
- Pois bem, parece que o conde est fazendo corpo mole e lady Isolda est 
achando difcil convenc-lo a pronunciar as palavras que a tornaro 
condessa de Staverton. Por isso, lady Isolda engendrou um plano 
acrescentou o reprter.
Petrina ficou atenta.
- Um plano? Que plano?
- Pediu para que eu ficasse aqui e anotasse exatamente a hora em que ela 
sasse da festa, que, segundo me disse, ser muito depois da partida do 
prncipe regente.
- Que quer dizer? Que significa isso?
Ao fazer a pergunta, soube o que lady Isolda pretendia. Seria muito 
interessante, para os fofoqueiros do beau monde, saber que ela ficara at 
muito mais tarde na manso, s voltando para casa de madrugada. No havia 
dvida quanto  interpretao que dariam ao prolongamento da visita, e o 
conde seria obrigado a reparar o mal feito  reputao de Isolda. 
pedindo-a em casamento.
Petrina tinha uma suspeita do lugar onde o conde havia estado, na noite 
em que a surpreendera descendo pelo cano da casa de Mortimer, com as
cartas roubadas. Sabia que a casa de Isolda ficava perto. O conde podia
voltar a p, mas Isolda sairia de Staverton House em sua carruagem, com 
toda a pompa. Seus criados, assim como os do conde, saberiam que a 
notcia dos jornais era verdadeira.
O quarto do conde, na ala leste, dava para o jardim. Petrina achou que 
talvez Nicholas Thornton ficasse observando a luz daquela janela, 
enquanto as outras estivessem s escuras. Era justamente o tipo de ideia 
que uma pessoa como lady Isolda teria, sabendo que assim obrigaria o 
amante a pedi-la em casamento, por uma questo de honra.
Desde sua chegada a Londres, Petrina ficara sabendo que havia algumas 
regras no escritas, mas muito severas, que regiam a sociedade. Um 
cavalheiro podia embriagar-se at cair, podia ficar devendo uma
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quantia considervel e ter inmeros casos de amor, mas no desrespeitar o 
cdigo social.
Isso protegia a reputao de uma senhora. Petrina sabia que, se o ele
infringisse uma dessas regras, seria obrigado pela opinio pblica a
fazer uma reparao.
Era um jogo inteligente, mas abominvel.
Staverton havia dito a Petrina que no desejava casar com Isolda, nem com 
nenhuma outra mulher, e ela acreditava nele. Agora, ao descobrir que 
estava sendo forado a fazer o que no queria, achou que precisava salv-
lo.
O reprter disse, ansioso:
- Espero que me ajude.
Essas palavras pareceram sair de um nevoeiro, e Petrina pensou, 
desesperada, que precisava ajudar o rapaz, mas, ao mesmo tempo, - impedir 
que ele fizesse qualquer coisa que prejudicasse o conde.
- Quanto foi que lady Isolda lhe pagou?
- Dez soberanos.
- Eu lhe darei vinte.
-  muita bondade sua, sita. Lyndon, e aceito, naturalmente. Mesmo assim, 
preciso de uma reportagem, de uma histria. Meu futuro est em jogo.
Uma histria! Uma histria!, pensou a moa.
De repente, uma ideia comeou a surgir, as peas se ajustando como num 
quebra-cabea.
- Se eu lhe der vinte soberanos e uma histria realmente boa, promete no 
citar o nome do conde?
- Uma boa histria?
- Uma histria muito boa. - A respeito de quem?
- Do duque de Ranelagh.
- Ele  notcia! Qualquer artigo sobre o duque seria aceito.
- Ento, oua... - disse Petrina, abaixando a voz.

- Vamos a Ascot? - perguntou Petrina  duquesa-me. A velha sacudiu a 
cabea.
- No para ficar. Espero que no fique decepcionada, minha querida
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menina, mas eu no poderia ir s corridas e ficar durante trs dias, sem 
ficar exausta.
- Tem razo.
- Estou pensando em irmos para a Taa de Ouro, para apostar em Bella.
como Durwin espera que faamos.
- Seria timo, senhora. - Mas no pde deixar de perguntar: - Ele ir 
conosco?
A duquesa sacudiu a cabea.
- No. Vai ficar no Castelo de Windsor. O prncipe regente gosta que ele
se hospede l, e no fomos includas no convite. - A duquesa acrescentou,
com ligeiro despeito: - Na realidade, eu no gostaria que lady Hertford
se mostrasse condescendente, exibindo-se como anfitri. No tolero aquela
mulher!
- Ento,  bom ficarmos em Londres - observou Petrina, sorrindo.
- Fomos convidadas a almoar no camarote real, no dia da Taa de Ouro. 
Voc vai achar divertido e poder usar aquele vestido bonito que comprou 
na semana passada.
- Ser timo!
Mas, assim que se viu sozinha, Petrina escreveu um bilhete e disse a um 
dos lacaios que o levasse a um endereo que o deixou obviamente 
espantado.
Dois dias mais tarde, depois que o conde partiu para o Castelo de 
Windsor, muito bonito e elegante, guiando seu faetonte novo, Petrinaa
recebeu a resposta do bilhete.
Leu-a, guardou-a na bolsa e foi procurar a duquesa em sua saleta.
- A senhora tem alguma coisa planejada para hoje  noite?
- No tivemos nenhum convite. Como sabe, todo mundo foi para Ascot, ou 
finge que foi - respondeu a duquesa. - Nosso prximo baile  na sexta-
feira, depois que as corridas tiverem terminado.
- Ento, se a senhora no se importar, eu gostaria de jantar com Claire.
-  claro. Assim, poderei jantar no quarto. Minha perna tem me
incomodado, ultimamente, e o mdico disse que preciso repousar.
- Ento, a senhora deve fazer isso nos prximos dois dias. Se flo quiser 
ir a Ascot na quinta-feira, acharei muito natural.
- E deixar de ver o cavalo de Durwin ganhar a Taa de Ouro? Vou
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com ou sem reumatismo, preciso estar l para ver Bella chegar em primeiro
lugar.
-  lgico! Nesse meio tempo, descanse o mximo possvel. A senhora tem
sido muito boa, levando-me a toda parte. Sei que s vezes fica muito
cansada.
- No h nada mais triste do que a velhice. Mas garanto-lhe que eu no
teria perdido sua estao, Petrina, por nada deste mundo!
Petrina beijou-a e depois foi para o quarto, fazer seus planos para
aquela noite.
Tinha, naturalmente, que sair de casa numa das carruagens do conde, que a
levaria at a casa de Claire.
Sabia que a amiga estava em Ascot, hospedada com o futuro sogro. Quando o 
mordomo do marqus de Morecombe a fitou, surpreso, ela disse:
- Sei que lady Claire est fora, mas tenho um recado muito importante 
para quando ela voltar. D licena que eu o escreva?
- Sim,  claro, senhorita - respondeu o homem, levando-a para a saleta.
Ela escreveu qualquer coisa sem a menor importncia, fechou o envelope e 
entregou-o ao mordomo.
- Ficaria agradecida se entregasse este bilhete a lady Claire, assim que 
ela voltar.
- Pode deixar por minha conta, senhorita.
Ele abriu a porta e olhou para o largo, ficando admirado por ver que a 
carruagem de Petrina tinha desaparecido.
- Oh, meu Deus! - exclamou a moa. - O cocheiro no entendeu que era para 
me esperar. com certeza julgou que eu ia jantar aqui, como aconteceu 
vrias vezes.
- Sim, deve ter havido um mal-entendido.
- Quer fazer o favor de mandar chamar uma carruagem de aluguel?
O mordomo no podia fazer outra coisa. Petrina partiu, dizendo ao 
cocheiro que a levasse a Staverton House.
Assim que saram do largo, ela lhe deu outro endereo. Quando chegaram a
Paradise Row, em Chelsea, viu que Nicholas Thornton a esperava.
Desceu, deu-lhe o dinheiro para pagar o cocheiro e perguntou:
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- Tem tudo?
- Est aqui - respondeu Nicholas, mostrando-lhe um pacote.
- timo. E aqui est o dinheiro que lhe prometi. - Entregou-lhe um 
envelope, que o reprter enfiou no bolso. - Est tudo arranjado?
- Tudo conforme planejamos, senhorita. A casa  aquela.
Apontou para a casa da esquina, que Petrina achou muito bonita, tinha uma
porta elegante, colunas entalhadas no prtico, cornijas e janelas com
bandas decorativas.
Tinha ouvido dizer que as casas de Paradise Row foram construdas na
poca dos Stuart e que um dos primeiros moradores dali fora a duquesa de
Mazarin, bonita, bondosa e ftil, que havia conquistado o corao de
Carlos II. O rei lhe dava uma penso de quatro mil libras por ano.
Petrina leu que a obsesso da mulher era o jogo e que, aps a morte do
rei, quando suas dvidas se tornaram embaraosas, ela se retirou 
permanentemente para a casa de Paradise Row.
"A amante do rei e a amante do conde!", pensou Petrina.
- Se descermos um pouco a rua, h uma casa vazia e poderemos nos sentar 
na soleira da porta, enquanto esperamos - sugeriu o reprter.
- Ser, sem dvida, mais confortvel.
Foram para a casa vazia, de onde podiam observar a porta de entrada da 
casa de Yvonne Vouvray sem serem vistos.
Nicholas limpou o degrau de pedra com o leno e Petrina sentou-se.
Tinha a sensao de estar fazendo uma coisa extremamente censurvel. Por 
outro lado, achava que era a nica maneira de livrar o conde das garras
de lady Isolda e precisava cumprir seu trato com o reprter.
- Espere um pouco - disse ele. -  melhor ficarmos mais bem acomodados. 
Eu trouxe feno para c, mais cedo.
Petrina viu ento um monte de feno amassado, nas sombras da soleira, onde 
no havia perigo de ser notado.
Nicholas colocou um pouco no degrau, para o assento ficar mais macio para 
Petrina.
Ela riu.
-  macio como uma almofada!
Tornou a sentar e o rapaz tirou um embrulho do bolso.
- O que  isso? - perguntou a moa.
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- Alguma coisa para comer. Eu sabia que a senhorita ia ficar sem jantar e 
achei que teria fome.
- Voc pensa em tudo.
- Numa campanha, os detalhes so sempre importantes - comentou Nicholas, 
e ambos riram.
Petrina abriu o embrulho e tirou fatias de po fresco e de presunto, que 
eles repartiram.
- Quanto tempo acha que vamos ter que esperar? - perguntou a moa, depois 
de comerem um pouco, em silncio.
- No tanto quanto pensvamos.
- Por que no?
- Porque ouvi dizer que mademoiselle Yvonne no vai cantar hoje  noite 
em Vauxhall.
- No vai cantar?
- No. Est em casa, descansando. Foi o que me disseram em Vauxhall.
- Mas por qu?
- Pelo movimento dos fornecedores que vi hoje na casa, creio que ela vai 
receber alguma pessoa importante para jantar.
- Acha, mesmo? No  perigoso?
- Quem pode saber? O conde est em Ascot, e, se ela tirar uma noite de 
folga por estar indisposta, l em Vauxhall Gardens arranjaro uma 
substituta e ningum se importar com o que ela estiver fazendo.
- No. claro que no - concordou Petrina. - Que horas so?
- Meu relgio est no prego. Mas creio que so mais de oito horas.
- Garanto que sim. Sa de Staverton House pouco antes das sete e meia, 
porque os pais de Claire geralmente jantam cedo.
- Vejo que tambm cuida dos detalhes - comentou Nicholas, sorrindo.
- Voc se lembrou dos meninos? - perguntou ela, apressadamente, como se 
s agora se lembrasse disso.
- Claro. No se preocupe, tudo est correndo bem, at agora. Petrina 
respirou fundo.
- No conte prosa.
- No estou contando prosa. Para dizer a verdade, estou muito mais aflito 
do que a senhorita.
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- A diferena  que voc no o demonstra.
Ele no respondeu. Ficou sentado, as mos cruzadas nos joelhos, 
observando a casa da esquina.
Tinha um rosto fino, sensvel. Havia nele qualquer coisa que inspirava 
confiana a Petrina.
Ela achava que Nicholas era inteligente e que devia escrever bem. Pena 
que tivesse que recorrer a mexericos vulgares, que faziam com que os 
jornais que atacavam o regente e o governo vendessem muito.
Tinha a impresso de que Nicholas poderia escrever artigos muito mais 
importantes e estava resolvida a falar com ele sobre as reformas a 
respeito das quais jornais como The Courier e John Buli seriam a favor.
Mas o momento no era oportuno. No conseguia pensar em outra coisa, a 
no ser no plano que tinham engendrado juntos.
Ento, como que em resposta aos desejos deles, uma carruagem veio pela 
rua e parou  porta da casa da esquina.
- O duque! - murmurou Petrina, pois reconheceu o braso.
Ambos viram o lacaio descer da boleia e ir bater  porta com a aldrava, 
antes de abrir a porta da carruagem para o patro.
O duque desceu, e Petrina achou que ele entrava na casa com muita pressa. 
Depois, a porta se fechou e a carruagem partiu.
Petrina sentiu uma onda de clera; no contra o duque, e sim, contra a 
mulher a quem o conde tinha dado tanta coisa e que o traa to 
acintosamente com outro homem.
"Como  que ela pode fazer isso?", perguntou a si mesma. Ainda mais com o 
duque, que no tinha nem metade do charme de seu tutor!
Depois lembrou-se de ter ouvido seu pai dizer:
- Os ingleses so esnobes, todos eles, desde o prncipe at o mais 
humilde dos sditos. S so superados pelos franceses, os maiores de toda 
a Europa.
Chegou  concluso de que a cantora agia assim porque um duque era mais 
importante do que um conde.
Mas, para ela, o tutor podia ser um plebeu, qu sempre o acharia um rei e 
nunca deixaria de am-lo.
- Agora temos que esperar at que escurea - disse Nicholas.
Isso ainda levaria algumas horas, e Petrina preparou-se para uma longa e 
tediosa espera.
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No entanto, o tempo no pareceu passar muito devagar, porque, apesar de 
sua resoluo em contrrio, ela no pde deixar de falar com Nicholas 
sobre a situao do pas.
O assunto levou inevitavelmente ao que acontecia em Londres e s 
mulheres a quem ela tentava ajudar.
Petrina ficou sabendo pelo reprter que nas casas chamadas de flash 
houses no havia apenas meninos, como tambm meninas.
- S em St. Giles h quase quatrocentas crianas - disse ele. - J fui 
l, e  a coisa mais parecida com o inferno que jamais vi.
Contou tambm como tinha ficado chocado e consternado quando viera para 
Londres pela primeira vez.
Filho de um advogado de uma cidade pequena, sempre tinha querido escrever 
e, para grande aborrecimento de seu pai, recusara-se a fazer parte da 
firma da famlia.
Veio para Londres decidido a ganhar a vida e andou de um jornal a outro, 
at conhecer William Hone e compreender que, com ele, -teria oportunidade 
de escrever do jeito que desejava.
Contou a Petrina que o prncipe regente e vrias outras pessoas pagavam 
para que os jornais no publicassem coisas desagradveis sobre eles.
O regente, em particular, pagava para que no publicassem stiras e 
caricaturas a seu respeito.
Petrina ficou sabendo que George Cruikshank, um dos mais famosos 
caricaturistas, recebera cem libras para se comprometer a no fazer 
caricaturas do prncipe em situaes imorais. E os editores achavam que 
sempre valia a pena tentar obter, ardilosamente, dinheiro para suprimir
certas notcias.
- Parece errado que as coisas que deviam ser ditas sejam suprimidas
- observou Petrina.
- Concordo com voc. E um dia terei meu prprio jornal. Juro que, ento,
publicarei a verdade, doa a quem doer!
Ela riu.
- Eu o ajudarei. E isto  uma promessa.
Sorriram um para o outro e comearam a falar da corrupo, assunto que os 
ocupou durante as prximas duas horas.
Finalmente, comeou a escurecer. Agora, a luz pela qual estavam esperando
apareceu numa janela do primeiro andar da casa de Yvonne.
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Nicholas tinha uma planta geral da casa e mostrou a Petrina qual era o
quarto ocupado por Yvonne.
Quase uma hora se passou. Agora havia apenas dois lampies a gas ao
longe, do lado de fora do Royal Hospital.
Ouviu-se o som de passos e apareceram dois meninos maltrapilhos mais ou
menos dez anos de idade.
Nicholas chamou-os pelos nomes.
- Agora voc sabe o que fazer, Bill - disse ao mais alto dos dois. Corra
at o Corpo de Bombeiros e avise que precisam vir imediatamente para
Paradise Row. Diga que se apressem, porque a casa perteHce ao conde de
Staverton, que pagou sua taxa.
- Compreendo, senhor.
- Dou-lhe dez minutos para chegar l. Depois volte, para recer seu
dinheiro.
- Volto logo, senhor. - E Bill saiu correndo. Nicholas entregou ao outro
menino o resto do fardo de feno.
- Atire isso no poro, por cima da grade, Sam, mas no esPere demais.
Sam atravessou a rua. Petrina e Nicholas viram que fazia o que
ordenaram, voltando depois para pegar o resto do feno, onde Petrina
estivera sentada, indo atir-lo na casa.
Nicholas abriu o pacote que tinha trazido e onde havia diversos tiPos
de fogos de artifcio, daqueles que levam mais tempo para queimar do Que os
foguetes que explodem no cu.
Os fogos eram muito apreciados nos parques de diverses, em Vauxhall. Em
Vauxhall havia espetculos quase todas as semanas.
Quando estava na escola, Petrina leu que houve um grande esfetac quando a
paz foi anunciada, quatro anos antes, e sabia que o aniversario da batalha
do Nilo era celebrado com fogos, todos os anos.
Os fogos sempre a entusiasmaram, desde criana, e achou que agora pelo
menos, iam servir para alguma coisa mais importante. Com a coleo
trazida por Nicholas, era difcil que o plano deles no desse certo.
Ficaram esperando. Pela primeira vez, Nicholas deu demonstrou nervosismo.
Bateu com os dedos nos joelhos e depois no degrau onde  estava
sentado. Finalmente, juntou os fogos.
- Bill j deve ter avisado os bombeiros - disse.
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Atravessou a rua, levando os fogos. De onde estava, Petrina tinha
dificuldade em ver o que ele fazia.
Ento, viu o primeiro brilho de um dos fogos que ele segurava antes de
atir-lo no fosso, no poro.
Imediatamente, Petrina notou um brilho vermelho contra as paredes da
casa. Depois, quando Nicholas atirou os outros, houve uma sbita
exploso. 
O feno pegou fogo; as chamas, juntamente com as dezenas dos fogos, 
comearam a subir pelo lado da casa.
Nicholas voltou correndo para perto de Petrina.
Ela nada disse; ficou apenas observando. Sam apareceu correndo e
seguindo as instrues recebidas, postou-se diante da casa e gritou a
plenos pulmes:
- Fogo! Fogo!
Dali a um momento, a janela do quarto se abriu e Petrina viu,  luz das 
chamas, a cabea do duque aparecer.
Nesse momento, o carro de bombeiros, puxado por dois cavalos, com seis 
homens sentados nos bancos laterais, virou a esquina, tocando a sineta.
O carro tinha o esguicho de couro que recentemente havia sido inventado, 
assim como a mais moderna escada de-ao. Estava equipado com o extintor 
porttil do capito Manby, que era usado desde 1816.
Os bombeiros, muitas vezes chamados "polcia de incndio", usavam o 
uniforme que Petrina j tinha visto e achava impressionante. As calas 
eram de pelcia vermelha, as meias, brancas, e os sapatos tinham fivelas 
prateadas. Os palets eram de tecido azul, com botes prateados, grandes. 
Usavam chapus pretos, de copa alta.
Comearam a agir imediatamente, batendo com fora na porta e ordenando 
aos ocupantes da casa que sassem logo.
Foram obedecidos to depressa, que Petrina teve certeza de que o duque e 
Yvonne j deviam estar no hall, prontos para fugir.
Passaram para a calada, o duque nu da cintura para cima, exceto por uma 
colcha de seda verde que usava sobre os ombros.
Yvonne estava de neglig cor-de-rosa, muito bonito, enfeitado de rendas e 
de fitas. Os cabelos negros caam-lhe sobre os ombros. Embora
92
parecesse agitada e amedrontada, Petrina teve que reconhecer que estava 
muito bonita.
Ela e o duque foram para a calada oposta, fora do caminho dos bombeiros.
O fogo cedia rapidamente, pois a casa no tinha sido atingida.
com um bloco na mo, Nicholas se aproximou de Yvonne e do duque.
- Vossa Graa tem alguma declarao a fazer?
- Nenhuma! - respondeu o duque, asperamente. - E no tenho a mnima ideia 
da razo por que voc se dirige a mim como "Vossa Graa".
- Creio que estou falando com o duque de Ranelagh.
- No " exato. e proibo-o de publicar isso, sob pena de ser processado.
- O pblico vai ficar muito interessado com tudo o que se relacionar com 
a famosa mademoiselle Yvonne Vouvray.
- No quero que cette htstoire seja publicada - interveio Yvonne. V
embora! Allez! Deixe-me em paz! No queremos saber de reprteres!
- Compreendo perfeitamente - disse Nicholas. Inclinou-se e ia se afastar,
mas o duque o deteve.
- Escute aqui, meu rapaz.
Falou em voz baixa, mas Petrina sabia o que ele pretendia. Estava 
tentando subornar Nicholas, ignorando, naturalmente, que ele j havia 
sido subornado, pois Petrina tivera a perspiccia de prever que talvez 
isso acontecesse.
Quando faziam seus planos, dissera a Nicholas:
- Seja o que for que o duque lhe oferecer para voc guardar silncio, eu 
lhe darei mais. No quero que perca dinheiro por minha causa porque est 
me ajudando.
- Tambm ajudando a mim mesmo - respondera ele.
- Mas voc est sem dinheiro e foi muito camarada.
Ao dizer isso Petrina tinha considerado que daria de boa vontade toda a 
sua fortuna para salvar o conde de casar com lady Isolda.
Quando viu que Nicholas voltava para perto dela, achou que tinha matado 
dois coelhos com uma s cajadada! Na realidade, salvara o conde de duas 
mulheres. E ela detestava as duas!
93

CAPTULO VI

- Eu trouxe o broche e a pulseira que usei ontem  noite, sr. Richardson
- disse Petrina. - Ser que posso escolher algumas jias para hoje?
-  claro, srta. Lyndon. Est pensando num colar ou num broche?
- Creio que um colar. Tenho um vestido de seda azul-turquesa e acho que 
um colar de turquesas iria bem.
- Garanto que sim.
O secretrio abriu o cofre e tirou vrios estojos de couro, que continham 
uma dzia de colares.
As jias da famlia Staverton eram tantas, que havia vrios conjuntos de 
quase todos os tipos de pedras preciosas: brilhantes, rubis, esmeraldas, 
safiras, turquesas e topzios. Petrina achava cada um mais bonito do que 
o outro.
Havia trs colares de turquesas, um com as pedras cercadas por 
brilhantes, outro, por prolas, e um, muito original, com uma combinao 
de rubis e safiras.
Tentava resolver qual iria melhor com seu vestido, quando a porta do 
escritrio se abriu e um criado apareceu, dizendo:
- Trouxe as chaves de Paradise Row, senhor.
- Obrigado, Clements - disse Richardson. - Coloque-as no quadro. Havia na 
parede um quadro onde estavam todas as chaves da casa e, na
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opinio de Petrina, tambm as chaves de todas as outras propriedades do 
conde.
No pde evitar um sorriso de satisfao, ao calcular que Yvonne Vouvray 
tinha desocupado a casa de Paradise Row e que o conde estava livre dela.
A histria do incndio recebera publicidade exclusiva em The Courier e 
depois foi reproduzida em vrios outros jornais.
Petrina soube que j havia uma caricatura  venda, mostrando o duque e 
Yvonne do lado de fora da casa, com os bombeiros tentando apagar o fogo.
A histria ficou ainda mais colorida, quando se soube que o suposto 
incndio no passou de uma exploso de fogos de artifcio.
O incidente foi ento atribudo a um piadista ou  travessura de alguns 
garotos.
Fosse qual fosse a explicao, o caso despertou o interesse pblico. 
Embora Petrina no soubesse o que-o conde pensava de tudo aquilo, tinha 
certeza de que sua reao fora deixar de ser o protetor de Yvonne.
Seu plano surtira efeito e ela estava satisfeita.
Quando subiu para vestir o traje de montaria, ficou imaginando se teria 
sido assim to fcil dispor de lady Isolda.
A duquesa-me estava indisposta e Petrina foi at seu quarto para lhe 
dizer que ia passear a cavalo no parque, acompanhada por um dos 
cavalarios.
- Voc parece satisfeita, minha menina.
- Est um dia bonito, e eu s desejaria que a senhora estivesse passando 
bem.
- Vou tentar me levantar para o almoo, mas, se for um esforo muito 
grande, peo-lhe que me desculpe.
- Nesse caso, virei almoar aqui com a senhora.
- Voc precisa ver o que Durwin est fazendo. - Depois acrescentou, com 
uma exclamao: - Mas,  claro! Tinha-me esquecido! Ele disse que ia a 
Chiswick ver uma luta de boxe que se realiza hoje  tarde, em Osterley 
Park.
- Ento, ns duas vamos almoar sozinhas. Petrina saiu do quarto e desceu 
a escada correndo.
Seu cavalo, um baio fogoso, esperava-a na porta da frente.
Petrina viu l fora a carruagem preta e amarela do conde. Era puxada
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pelos animais negros que ela admirava cada vez mais. Foi acariciar-lhes o 
focinho. Atrs dela, o conde disse:
- Esqueci de perguntar. Como vai indo com as lies sobre como dirigir 
carruagens?
Ela no tinha percebido que ele se aproximara e virou a cabea. Como 
sempre, estava com uma aparncia magnfica, de modo que o corao de 
Petrina comeou a bater mais depressa.
- Abby est muito satisfeito comigo - respondeu a moa. - E o senhor 
mesmo me disse que poucas pessoas dirigem to bem como ele.
Abby era o cocheiro-chefe. O conde comentou:
- Se Abby est satisfeito, ento voc deve estar indo muito bem. Creio 
que, um dia destes, vai querer dirigir estes cavalos.
Os olhos de Petrina se iluminaram.
- Posso, mesmo? Seria o melhor presente que o senhor poderia me dar.
- Ento, temos que marcar um dia - respondeu o conde, sorrindo.
Os olhos dela brilhavam como estrelas. Petrina achou que o conde a fitava 
de uma maneira mais bondosa do que em qualquer outra ocasio. Nesse 
momento, foram interrompidos.
- com licena, mas estou falando com a srta. Lyndon? - disse algum.
Ambos se viraram e viram um senhor de idade. Parecia um comerciante 
respeitvel.
Petrina respondeu:
- Sim, sou a srta. Lyndon.
- Perdoe-me por aborrec-la, senhorita, mas o cavalheiro me deu seu nome 
como garantia para essas compras. Sendo um pequeno comerciante, no posso 
vender a prazo muito longo.
- De que se trata? - perguntou a moa sem ter ideia do que ele queria 
dizer.
- Dos fogos de artifcio, senhorita. Petrina ficou de respirao 
suspensa.
- Fogos de artifcio? - perguntou o conde. - Quem foi que os comprou?
- Foi no princpio da semana passada - respondeu o comerciante. Os fogos 
foram comprados por um certo sr. Thornton, mas, como ele no
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tinha dinheiro, me deu o nome da srta. Lyndon como garantia. Como disse 
que ela estava hospedada em Staverton House, achei que no havia perigo 
em deixar que ele levasse os fogos.
- Em que dia foi isso? - perguntou o conde.
Havia em sua voz um tom ameaador que fez com que Petrina se sentisse 
como se estivesse caindo num abismo, sem nada poder fazer para se salvar.
- No dia 6 de junho, senhor.
O conde pegou a conta e tirou dois soberanos do bolso do colete. 
Entregou-os ao comerciante, que agradeceu profusamente. Staverton entrou 
em casa, lanando a Petrina um olhar de relance.
Embora ele nada tivesse dito, a moa sabia que esperava que ela o 
seguisse. Atravessou o hall atrs do tutor, como se caminhasse para o 
cadafalso.
Um lacaio abriu a porta da biblioteca. Petrina entrou e ouviu a porta 
fechar-se.
O conde colocou a conta sobre a escrivaninha e ficou por um momento 
olhando para a pupila.
O corao de Petrina batia com tal violncia que achou que o conde podia 
ouvi-lo. Dali a momentos, ele disse, asperamente:
- Exijo uma explicao.
- Fiz isso para salvar o senhor - respondeu, em voz quase inaudvel.
- Para me salvar? Que quer dizer com isso?
- Lady Isolda tinha pagado um reprter para escrever umas coisas 
desagradveis a seu respeito.
O conde encarou-a com sincero espanto.
- O que est dizendo? No entendo nada.
-  verdade - respondeu Petrina, infeliz. - Encontrei o sr. Nicholas 
Thornton no jardim, na noite em que o prncipe regente jantou aqui.
- Nicholas Thornton? Quem  esse sujeito?
- Um reprter de The Courier.
- Voc disse que ele estava no jardim? Por que no chamou os criados para 
expuls-lo?
- Porque ele me contou que lady Isolda lhe pagara dez guinus para ele 
publicar a hora em que ela ia sair de Staverton House... que ela 
pretendia que fosse muito depois de os outros convidados terem partido.
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- Voc est dizendo a verdade?
- Por que, ha veria de mentir?
- Por que estava interessada no que aquele homem recebeu para publicar
tal notcia?
Houve uma pequena pausa. Depois, Petrina respondeu:
- Lady Isolda achava que isso foraria o senhor a pedi-la em casamento. E 
ele achava a mesma coisa.
O conde soltou uma exclamao que mais parecia uma blasfmia. Em voz 
encolerizada, perguntou:
- E por que voc e aquele homem precisavam de fogos para serem usados num 
lugar longe daqui?
- Dei a ele o dobro do que lady Isolda lhe prometeu. Ele queria uma boa 
histria para publicar. Para dizer a verdade, estava decidido a obter 
uma.
O conde olhou para a conta dos fogos, como se mal pudesse acreditar no 
que via.
- Ento, voc sabia que o duque de Ranelagh estaria com mademoiselle 
Vouvray. Como pde ficar sabendo de uma coisa dessas?
Houve um silncio constrangido. Finalmente, Petrina respondeu, em voz 
baixa:
- Ouvi, por acaso, o que o duque disse em... Vauxhall Gardens.
- Vauxhall Gardens? - O conde quase gritou estas palavras. Quando esteve 
em Vauxhall Gardens?
- Claire me levou l, uma noite.
- Porqu?
A pergunta soou como um tiro de pistola. Petrina nada podia fazer a no 
ser contar a verdade.
- Claire sabia que eu queria ouvir mademoiselle Vouvray.
- Ento voc sabia que havia qualquer coisa entre ns dois?
- Sabia...
O conde apertou os lbios e Petrina percebeu que ele estava compreendendo 
o que havia acontecido. Sabendo onde o duque iria estar na noite em que o 
conde se achava em Windsor Castle, Petrina e Nicholas Thornton tinham 
engendrado todo o plano, que daria, conforme Petrina prometera, uma "boa 
histria".
Houve um longo silncio, e de novo a moa sentiu o corao acelerar.
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De repente, to de repente que Petrina deu um pulo, o conde bateu o 
punho, com toda a fora, na mesa.
- Diabo!  inconcebvel que eu fique sujeito  sua curiosidade e  sua 
intromisso em minha vida particular! - Fitou Petrina com olhos negros de 
clera. - Como se atreveu a agir dessa maneira? Como se atreveu a me 
comprometer com um reprter vulgar?
- Fiz isso para salv-lo.
- Quando eu precisar que me salve, quando precisar de sua ajuda, seja 
para o que for, pedirei! Nesse meio tempo, fique fora de minha vida e de 
meus negcios particulares.  intolervel, completamente intolervel, que 
eu tenha que me submeter a esse tipo de comportamento de uma moa que 
vive sob meu teto e que deveria ter a decncia e o pudor de nem mesmo 
pensar num mundo do qual ela no pode sequer ter conhecimento. - Ergueu a 
voz, e via-se que estava descontrolado. Desde que a conheci, voc 
demonstra uma preocupao doentia e desagradvel por assuntos que no so 
da sua conta e que seriam repulsivos para qualquer pessoa que tivesse a 
mnima sensibilidade. Fez uma pausa e continuou, com firmeza: - S o que 
posso dizer  que estou estarrecido com seu comportamento e que vou tomar 
srias providncias para no ficar de novo exposto  sua impertinncia.
Petrina disse, num murmrio:
- Sinto muito se... fiz com que ficasse... zangado.
- Zangado? No estou apenas zangado; estou enojado! Saia da minha frente!
Falou com tal violncia, que Petrina soltou um gritinho e saiu correndo.
Abriu a porta, atravessou o hall e saiu para onde o cavalo e o cavalario 
a esperavam.
O rapaz ajudou-a a montar. Ela desceu a alameda e atravessou Park Lane, 
indo para Hyde Park.
No sabia para onde ia. Queria apenas escapar da clera do conde, da 
fria de suas palavras, que causaram o mesmo efeito de tapas.
Dirigiu o cavalo para a parte pouco elegante do parque, olhando sempre 
para a frente, sem nem mesmo saber se o empregado do conde a seguia.
Tinha a impresso de que o mundo inteiro havia rudo  sua volta.
Enquanto cavalgava, dizia a si mesma que o conde tinha sido injusto com 
ela, no levando em considerao que tudo o que fizera fora para o
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bem dele, para salv-lo do casamento com lady Isolda e livr-lo da 
traio da amante.
"Ele devia me agradecer! "
Agora seu temperamento rebelde se reafirmava e ela no se sentia mais
humilhada e arrasada, e sim, desafiadora.
Compreendia que o conde ficasse aborrecido por achar que ela havia 
conspirado com Nicholas. Mas ele devia saber quais seriam as 
consequncias, se Petrina no agisse como agira.
O modo como a tratara fez com que ficasse muito sentida com ele. Quando
atravessou a ponte, em direo a Rotten Row, disse a si mesma que, alm 
de injusto, ele tinha sido ingrato.
Estava imersa em seus pensamentos e levou um susto quando ouviu uma voz 
atrs dela:
- Est muito sria, minha linda srta. Lyndon. Ainda de mal comigo? Lorde 
Rowlock estava a seu lado, a cavalo. Tinha uma aparncia to
elegante, que Petrina julgou que era a oportunidade de mostrar o que 
achava do comportamento do conde.
- bom dia, lorde Rowlock!
- Voc foi muito cruel comigo, mas espero que, seja qual for o crime que 
cometi, eu tenha sido perdoado.
- No foi exatamente um crime - respondeu, um tanto constrangida.
- Mas  que... meu tutor...
- Compreendo. Claro que compreendo. Sei que o conde lhe disse que sou um
caa-dotes, mas o que sinto por voc, Petrina,  uma coisa muito
diferente.
Ela sabia que devia se afastar dele e no permitir que lhe falasse com
tanta intimidade. Mas, achando que tinha sido vtima de uma injustia,  
no pde deixar de lhe dar ouvidos.
- Sei de tudo o que dizem de mim - continuou lorde Rowlock, em voz baixa. 
- Mas eu me apaixonaria por voc, Petrina, mesmo que no tivesse um 
nquel. Cus, no sabe como  bonita?
Havia na voz dele uma nota de sinceridade que ela no pde deixar de 
achar muito comovente.
- Sinto muito o que aconteceu.
- Voc me tornou muito infeliz.
- No h nada que eu possa fazer.
- H, sim, uma coisa que pode fazer por mim.
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- O que ? - perguntou, nervosa.
- Sabe que tenho muito pouco dinheiro. Nunca fiz segredo disso. Mas, uma 
noite dessas, aceitei uma aposta, creio que muito tola, de que 
encontraria uma mulher capaz de dirigir um coche de dois cavalos, numa 
corrida com lady Lawley, e ganhar!
- Correr com lady Lawley?
Sabia que a tal senhora era considerada uma das pessoas que dirigiam uma 
carruagem com maior habilidade, na alta sociedade.
Era moda os beaux mais ricos darem s suas amantes coches e at 
faetontes, para elas mesmas os dirigirem.
Em geral, eram acompanhadas por seus protetores, ou por um criado, e a 
maioria dessas mulheres s dirigia de um lado ao outro, no Row, para 
exibir suas roupas e suas jias diante das amigas menos afortunadas.
Assim sendo, poucas senhoras dirigiam em pblico, mas lady Lawley era 
famosa por isso.
Petrina encarou lorde Rowlock, com ar surpreso.
- Est sugerindo que eu entre numa competio com lady Lawley? perguntou, 
dali a minutos.
- Por que no? J a vi dirigindo no parque, Petrina, e sei que dirige 
muito bem. Muitos de meus amigos disseram a mesma coisa.
Era um elogio que ela nunca tinha pensado que iria receber.
Como havia dito ao conde naquela manh, Abby estava satisfeito com ela, 
fazendo-a sentir-se como se tivesse ganhado a Taa de Ouro em Ascot. Mas 
o fato de lorde Rowlock achar que tinha uma chance contra lady Lawley era 
mais lisonjeiro do que se a comparasse a Afrodite ou  Vnus de Milo.
- Eu poderia... decepcion-lo.
- Acho que voc poderia venc-la - insistiu Rowlock. - Lady Lawley andou 
se gabando de que no h nenhuma mulher em todo o beau monde que saiba 
lidar com cavalos to bem quanto ela.
- Parece muita pretenso.
- Quero que voc prove que ela se engana.
A tentao era muito grande para Petrina recusar.
- Quando  a corrida?
- Quando voc quiser. Hoje, se assim o decidir.
Petrina de repente se lembrou de que o conde ia chegar tarde em casa. 
"Ele no ficar sabendo de nada", pensou.
101
Se conseguisse ganhar a corrida com lady Lawley, no se sentiria mais to 
humilhada e arrasada.
- A que hora comeamos e de onde samos?
- Sabia que no me decepcionaria - disse lorde Rowlock. Nenhuma mulher 
poderia ser mais esportiva e mais corajosa.
- S espero no decepcion-lo.
- Voc nunca poderia fazer isso.
Petrina percebeu que ele no se referia apenas  corrida.
Rowlock combinou que a iria buscar em Staverton House,  uma hora da 
tarde.
Petrina voltou para casa, desejando que a duquesa no se levantasse para 
o almoo.
Ao chegar, viu que seu desejo se realizara, porque a duquesa tinha 
deixado um recado, dizendo que esperava que Petrina a desculpasse, mas 
que estava com tanta dor, que tomara um comprimido para donnir e no 
queria ser incomodada.
Nada poderia ter sido mais conveniente, pensou a moa, subindo para ir
trocar de roupa.
Ps um vestido muito bonito, achando que no apenas desafiava o conde,
saindo com lorde Rowlock, como se mostrava bonita e elegante.
O chapu, que combinava com o vestido, no era to grande que pudesse 
voar com o vento; as fitas amarradas sob o queixo faziam com que ele 
prendesse bem os cabelos.
Petrina fez uma refeio leve. Quando foi para o saguo, para esperar a
chegada de lorde Rowlock, sabia que estava muito bonita.
Ele chegou num coche puxado por dois belos cavalos castanhos, Embora no
fossem to bons como os do conde, eram animais de raa e
suficientemente fogosos.
Os olhos de Petrina brilhavam, quando lorde Rowlock a ajudou a subir. Ela
pegou as rdeas. Sabia que poderia controlar os cavalos e no estava com 
o menor medo.
Saram de Staverton House e dirigiram-se para o parque.
- Onde vamos encontrar lady Lawley?
Tirando o relgio do bolso do colete, lorde Rowlock respondeu:
- Ela vai sair exatamente ao mesmo tempo que ns, isto ,  uma e cinco.
- De onde?
102
- De Portman Square, ao passo que ns vamos sair de Tyburn.  uma questo 
de honra nenhuma das duas sair nem mesmo um minuto antes da outra!
- Por que partir de lugares diferentes?
- Porque a corrida no  apenas uma prova de habilidade equestre, como 
tambm um teste de engenhosidade - explicou o lorde. - O primeiro coche a 
chegar a The Plume of Feathers, uma estalagem que fica perto da estrada 
do Norte, ser o vencedor, mas no h restries quanto ao itinerrio a 
ser seguido.
Sorriu para Petrina e acrescentou:
- Planejei um caminho muito engenhoso e sei que vamos derrotar lady 
Lawley.
Petrina suspirou. Era um alvio saber que a corrida no dependia 
exclusivamente dela.
Enquanto se vestia, pensava na fama de lady Lawley como condutora de 
carros e tivera receio de no poder competir com uma mulher pelo menos 
quinze anos mais velha do que ela e que tinha grande experincia no 
esporte.
Tinha certeza de que, se as apostas eram mesmo altas, lorde Rowlock ia 
fazer todos os esforos para ganhar. Dali a pouco, ele disse:
- Podemos comear.
E Petrina sentiu uma grande excitao, ao pensar na competio.
Partiram, Rowlock indicando o caminho de um modo que fez com que Petrina 
percebesse que ele conhecia as vrias sadas de Londres. Achou que tivera 
a inteligncia de escolher ruas de pouco trnsito, e logo saram da 
cidade e se viram no campo.
Era um dia quente, mas havia uma brisa para aliviar o calor. Petrina deu 
liberdade aos cavalos e sentiu que o vento fazia com que alguns fios de 
seus cabelos cassem  volta do rosto corado.
- Isso  excitante! Ser que lady Lawley est muito  nossa frente?
- Espero que ela no conhea a parte norte de Londres to bem quanto eu - 
respondeu lorde Rowlock. - Para dizer a verdade, como os Lawley tm uma 
casa em Sussex, acho que foi sorte eu ter ganhado o lanamento dos dados.
- Foi assim que tiraram a sorte, para resolver qual o caminho a tomar? - 
perguntou Petrina.
Ele inclinou a cabea.
103
- Foi tudo muito correto. Como escolhi  sada pelo norte, concordei em
ter a pequena desvantagem de partirmos do parque, ao passo que lady
Lawley est algumas ruas mais perto de nosso ponto final.
Petrina ficou sria.
- Isso significa que ela pode estar na nossa frente.
-  uma possibilidade, mas acho que voc no precisa ficar preocupada.
- No ficarei. E gosto de seus cavalos.
- Gostaria que fossem meus - observou o lorde, com certa mgoa.
- Na realidade, pertencem a um amigo, que os emprestou.
Petrina desconfiou de que o amigo era o duque de Ranelagh, mas no tinha 
a inteno de fazer muitas perguntas. No queria que Rowlock soubesse que 
ela estava em Vauxhall Gardens na noite em que ele e o duque tinham 
conversado.
Continuaram seu caminho, e dali a uma hora Petrina olhou ansiosamente 
para a frente, para ver se descobria o coche de lady Lawley.
Embora passassem por um grande nmero de veculos, estes eram dirigidos 
por homens e no havia sinal de sua competidora.
Quando se aproximavam do ponto final, Petrina perguntou:
- Suponhamos que, ao chegarmos  estalagem, encontremos lady Lawley l. 
Voc perder muito dinheiro?
- Mais do que tenho para perder.
- Isso  bem aborrecido.
- Ningum poderia dirigir melhor do que voc est dirigindo, e no  
preciso eu dizer como estou grato por sua ajuda e sua compreenso.
- Pode dizer isso depois que tivermos ganhado. Mas tenho a impresso de 
que lady Lawley est  nossa frente.
-  muito possvel que esteja atrs - disse Rowlock, sorrindo. Desejando 
que ele ganhasse, a moa chicoteou os cavalos e, na ltima
meia hora, guiou mais depressa do que jamais havia feito.
"No creio que nem mesmo o conde pudesse ir mais depressa com uma 
parelha", pensou ela.
A lembrana do conde fez com que sentisse uma pontada no corao. 
Procurou no pensar nas palavras encolerizadas que o tutor lhe havia 
dito, nem no seu olhar sombrio.
Achou que, a princpio, tinha ficado quase imobilizada pela violncia com 
que ele a atacara.
104
Depois, teve vontade de desafi-lo. Mas, agora, desejou ter podido 
explicar-lhe que tinha feito tudo com a inteno de salv-lo das garras 
de lady Isolda.
Mas tinha a impresso de que, dissesse o que dissesse, o conde no a 
teria ouvido.
- Voc parece preocupada - comentou lorde Rowlock. - Deixe-me dizer-lhe, 
Petrina, que, mesmo que eu perca, esta oportunidade de estar a seu lado e 
de conversar com voc valer todos os sacrifcios, cada nquel que eu
possuo!
- O conde ficaria muito aborrecido, se soubesse onde estou.
- Ele nunca saber, de modo que no se preocupe com isso. 
Petrina lembrou-se de que ainda teria que voltar para Londres, e j 
viajavam a duas horas e meia.
- Estamos chegando? - perguntou, ansiosa.
- Faltam mais ou menos trs quilmetros.
Finalmente ela parou diante de The Plume of Feathers, uma estalagem 
antiga e encantadora, a mais ou menos uns oitocentos metros da estrada 
principal.
Quando fez o coche parar, Petrina viu, satisfeita, que o ptio estava 
vazio.
Puxou as rdeas e virou-se para seu companheiro, com olhos brilhantes.
- Chegamos primeiro!
- Creio que sim.
Ele apeou e, quando os cavaleiros apareceram correndo, perguntou:
- Chegou aqui um coche dirigido por uma senhora?
- No, senhor.
- Conseguimos! - exclamou Petrina. - Conseguimos! Oh, estou to contente, 
to feliz por sua causa!
- No tenho palavras para dizer o quanto lhe sou grato.
Lorde Rowlock pegou a mo da moa e beijou-a. Depois, ajudou-a a descer 
do coche, deu ordem aos cavalarios para cuidarem dos cavalos e entrou 
com Petrina na estalagem.
A casa era de teto baixo, com vigas aparentes, feitas com madeira de 
navios. Impressionado com a aparncia deles, o proprietrio veio receb-
los com grandes mesuras.
Uma criada levou Petrina para cima, para um quarto confortvel onde
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havia uma cama de quatro colunas e uma janela com sacada dando para o 
jardim.
A moa tirou o chapu, lavou as mos, arrumou os cabelos e desceu. 
Encontrou lorde Rowlock  sua espera numa saleta particular, com uma 
garrafa de champanhe aberta.
- Para celebrar - disse ele. - Mas no vamos esperar por lady Lawley.
Deu uma taa a Petrina, ergueu a sua e brindou:
-  mais sensacional das condutoras de coches e  mais maravilhosa das 
mulheres, to bela e to boa que no tenho palavras para lhe dizer o 
quanto a amo!
Petrina corou e virou o rosto.
- No deve falar assim comigo. Sabe como o conde ficaria zangado.
- O conde no est aqui, e, neste momento, me considero o homem mais 
feliz e de mais sorte do mundo.
- Estou contente de ter ganhado, por sua causa, mas receio que lady 
Lawley fique muito aborrecida.
- Vai ficar furiosa! - disse Rowlock. Ambos riram.
Ele encomendou uma refeio. Embora Petrina achasse que deviam esperar 
por sua competidora, ela comera muito pouco, antes de sair de Londres, e 
provou umas fatias de peru e de um bolo que tinha acabado de sair do 
forno.
- Voc precisa descansar - disse Rowlock, depois que terminaram.
- com certeza, vai querer dirigir na volta, e isso  muito cansativo, 
principalmente depois de termos vindo depressa como viemos.
Era verdade. Petrina deixou que ele a instalasse confortavelmente numa
poltrona e colocasse um tamborete sob seus ps.
Reclinou-se sobre as almofadas e percebeu que estava sonolenta.
Talvez fosse o champanhe, ou devido  tenso de ter guiado. E tambm,
naturalmente, por saber que o conde estava to zangado com ela.
Fosse pelo que fosse, acordou com um sobressalto e compreendeu que tinha 
pegado no sono.
A saleta estava muito silenciosa. Por um momento, Petrina no soube onde 
se encontrava.
Depois, percebeu lorde Rowlock sentado perto da janela, olhando para o 
jardim.
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- Peguei no sono...
- Tinha toda a razo para estar cansada - observou ele, em tom carinhoso.
Petrina endireitou-se na poltrona e ajeitou os cabelos.
- Devia ter me acordado. Que horas so?
- Quase cinco.
- Cinco horas? Ento, precisamos voltar para Londres imediatamente!
Ia chegar muito depois do conde e, sem dvida, teria que lhe dar 
explicaes. Ele ficaria muito zangado por ela ter desobedecido s suas 
ordens, encontrando-se com lorde Rowlock.
- Precisamos ir. Mas que aconteceu com lady Lawley? Rowlock encolheu os 
ombros.
- Talvez tenha tido um acidente. Ou no conseguiu encontrar esta 
estalagem.
-  estranho ainda no ter aparecido.
- Concordo, mas  possvel que tenha ficado despeitada por ter perdido a 
corrida e no quis nos ver.
- Preciso voltar imediatamente - repetiu Petrina, levantando-se.
- Vou mandar vir o coche.
Lorde Rowlock saiu e Petrina correu para o quarto que tinha usado ao 
chegar.
O conde j estava muito zangado, e ela no tinha vontade de contrari-lo 
mais ainda.
Achou que tinha sido tolice, talvez uma infantilidade, ter vindo com 
lorde Rowlock.
Desceu a escada de carvalho e encontrou-o  sua espera.
Olhou para ele e percebeu, por sua expresso preocupada, que alguma coisa 
sria tinha acontecido.
- O que houve?
- Um dos cavalos perdeu a ferradura.
- Oh, no!
- No se preocupe - disse o lorde, animando-a. - O ferreiro fica a apenas 
uns quatrocentos metros daqui e mandei um cavalairio dizer-lhe que venha
imediatamente.
- Isso significa nova demora.
- No h nada que possamos fazer.
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- No, claro que no, mas vou ficar ainda mais atrasada. Por que, oh, por
que no me acordou?
- No fique zangada comigo. Eu sabia que estava cansada e, francamente, 
esperava que lady Lawley aparecesse a qualquer momento.
Petrina achou que era uma desculpa esfarrapada, mas a principal culpada 
era ela, de modo que nada disse.
- Vou ver se o ferreiro chegou - avisou o lorde, deixando-a sozinha. 
Petrina andou pela saleta, desesperada, achando que devia fazer alguma
coisa, mas no sabendo o qu.
Dali a algum tempo, Rowlock voltou.
- O ferreiro chegou? - perguntou a moa, antes que ele dissesse qualquer 
coisa.
Rowlock sacudiu a cabea.
- Os cavalarios disseram que ele no vai demorar.
- Podemos alugar outro cavalo - sugeriu a moa.
- Acho que seria difcil. E, mesmo que consegussemos um, ele no 
viajaria mais depressa do que a nossa parelha.
- No, claro que no. Por outro lado...
- Vou ver se posso fazer alguma coisa - disse Rowlock, antes que ela 
terminasse a frase.
Demorou tanto, que Petrina achou que ele estava fiscalizando o trabalho
do ferreiro. Quando voltou, ela percebeu que trazia ms notcias.
- O ferreiro no veio?
- O cavalario que foi cham-lo voltou e disse que ele no estava em
casa. Mas  esperado a qualquer momento e vir para c, assim que chegar
l.
- O que vamos fazer? - perguntou Petrina, desesperada.
- Voc precisa ser sensata.  um azar, mas nada podemos fazer a respeito. 
Minha sugesto  tomarmos um refrigerante e comermos alguma coisa. 
Depois, assim que o cavalo estiver em ordem, iremos para Londres, o mais 
depressa possvel.
Isso era to sensato, que ela se viu obrigada a concordar.
Relutante, tirou de novo o chapu. Embora no estivesse com fome, seria
tolice no comer. Escolheu vrios pratos entre os que o estalajadeiro
sugeriu, embora em muito menor nmero do que os que Rowlock encomendou 
para si prprio.
Achando que isso a acalmaria, aceitou um clice de madeira. Lorde
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Rowlock encomendou mais uma garrafa de champanhe, antes de sair para ir
ver o que estava acontecendo l fora.
Petrina pensou, desesperada, que estava ficando cada vez mais tarde e 
que, ao chegarem a Londres, o conde estaria to furioso que provavelmente 
a mandaria para Harrogate como castigo.
Quando a comida chegou, Rowlock fez todo o possvel para distra-la e 
diverti-la.
A moa achou que no adiantava mostrar-se desagradvel, por uma coisa da 
qual ele no era culpado.
Tinha concordado voluntariamente em tomar parte naquela louca aventura e 
no devia culp-lo por sua prpria estupidez.
Rowlock insistiu para que ela tomasse champanhe, mas Petrina tomou muito 
pouco, lembrando-se de que essa bebida a tinha feito pegar no sono, 
quando deveria ter permanecido acordada.
Durante -o jantar, o lorde a elogiou, cortejando-a de um modo que Petrina 
achou que o conde teria considerado muito censurvel.
Vrias vezes, tentou fazer com que Rowlock mudasse de assunto, mas ele 
sempre voltava  carga, dizendo o quanto a amava e como ficara infeliz 
quando ela no quisera mais se encontrar com ele.
- Amei-a desde o primeiro momento em que a vi, Petrina. E  uma ironia 
que a nica pessoa com quem desejei casar por ela mesma tivesse uma 
grande fortuna, como barreira entre ela e mim.
- No  possvel que o ferreiro ainda no tenha chegado!
Achava difcil prestar ateno ao que o lorde dizia, porque seus 
pensamentos estavam voltados para o conde e para a raiva que ele ia 
sentir.
- Garanto que sim - respondeu Rowlock, em tom conciliador.
Saiu para verificar. As criadas vieram tirar a mesa, deixando apenas uma 
garrafa de vinho do Porto.
- Creio que no queremos beber mais nada - disse Petrina.
- O cavalheiro encomendou o vinho, senhorita.
Petrina nada tinha a dizer a isso, mas achou que lorde Rowlock no 
parecia estar com grande pressa de partir.
Tudo tinha sido um azar. Primeiro, por ela ter sido idiota a ponto de vir 
para to longe de Londres; depois, pelo cavalo ter perdido a ferradura e 
o ferreiro no estar em casa.
- Ele j deve ter chegado! - murmurou.
109
Rowlock voltou.
- O homem chegou? - perguntou Petrina. Rowlock sacudiu a cabea.
- Mas  impossvel! Insisto que alugue uma carruagem ou qualquer outro 
veculo, e que voltemos para Londres, mesmo que seja com um cavalo s.
- Receio que seja impossvel.
- Mas por qu? Deve haver uma carruagem, ou qualquer veculo, aqui.
- Mesmo que haja, no tenho inteno de alugar. Petrina encarou-o, 
atnita.
- O que est dizendo?
- Estou dizendo, Petrina, que a amo e que no vamos voltar para Londres 
hoje  noite. Vamos ficar aqui!
Ela arregalou os olhos, horrorizada. Rowlock aproximou-se, sorrindo.
- Sempre a desejei e a amei, desde que nos conhecemos. Seu tutor me
expulsou de sua casa, mas depois vi que fui muito fraco, aceitando a
deciso dele; isto , que voc e eu no devamos mais nos ver.
- O que est tentando dizer? - murmurou Petrina.
- Que vamos passar a noite aqui. Quando voltarmos para Londres, amanh, 
seu tutor ficar muito satisfeito por consentir em nosso casamento. No 
h mais nada que ele possa fazer.
- Est louco?
- Sim, estou. Louco por voc, como sempre estive. Eu a amo, Petrina!
- No vou ficar aqui! Vou voltar para Londres, nem que seja a p! Correu
para a porta, mas lorde Rowlock agarrou-a, abraando-a.
- Vai ficar aqui, porque a quero, e no h fuga possvel, minha querida. 
Ento, trate de se conformar!
- Como se atreve? Como se atreve a tocar em mim?
Agora, lutava com todas as foras. Mas ele era muito forte e ela nada 
podia fazer.
O lorde apertou-a contra o peito. Embora se contorcesse, Petrina no 
conseguia se libertar. Rowlock riu de seus esforos.
- Vamos ser muito felizes, juntos. Voc  tudo o que desejo na vida e vou 
ensin-la a me amar como eu a amo.
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- Nunca! Nunca! Eu no o amo, eu o odeio!
- Ento, serei obrigado a fazer com que mude de ideia. Petrina continuou 
lutando, mas estava perdendo as foras.
O fato de Rowlock a manter prisioneira fez com que compreendesse como 
seus esforos eram inteis. Seria apenas uma questo de tempo, at no 
poder mais com um adversrio to forte.
Procurou refletir com clareza e mudar de ttica.
Parou de lutar e, olhando para ele, disse:
- Largue-me. Sabe que no poderia haver felicidade para ns, se eu fosse 
obrigada a casar com voc.
- Haver toda a felicidade para mim - respondeu o lorde, sorrindo. 
Petrina compreendeu que ele estava pensando na fortuna dela. Tarde
demais, percebeu que tudo havia sido um plano, uma armadilha, desde o 
princpio. Rowlock s tinha posto seu plano em andamento depois que o 
duque de Ranelagh lhe dissera, em Vauxhall, que ele no era bastante
determinado.
Provavelmente, esperara por uma oportunidade de se encontrar com Petrina,
e ela cara na armadilha de um modo to tolo, to infantil, que no havia
desculpa possvel.
- Oua-me, por favor - pediu, desesperada. - Se me levar para Londres,
prometo que lhe darei ajuda financeira e no permitirei que o conde o
prejudique, de jeito nenhum.
- Ele no far isso, quando voc for minha esposa.
- No casarei com voc. No quero casar com voc.
- Vai, sim. E achar a vida muito divertida, quando pudermos fazer todas 
as coisas que desejo fazer.
Petrina sabia que ele achava que a fortuna dela j estava em suas mos. E 
o lorde tinha razo, ao dizer que, se passassem a noite juntos numa 
estalagem, ela nada poderia fazer, a no ser casar com ele.
Horrorizada com as intenes daquele canalha, soube nesse momento que 
amava o conde com tamanha paixo, que s o fato de ser tocada por outro 
homem lhe parecia uma degradao.
- Por favor, por favor, oua-me! - pediu, desesperada.
-  tarde demais para palavras. Acho-a muito desejvel e estou ansioso 
por nossa noite de amor.
Ao dizer isso, baixou a cabea, procurando os lbios de Petrina. Ela se
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debateu, sabendo que era apenas uma questo de minutos, para ele 
conseguir seu intento.
Ento, enquanto pensava, desesperada, que no havia fuga possvel, que 
tinha perdido toda esperana de felicidade, percebeu quena luta, ele a 
empurrara contra a mesinha onde havia sido colocado o jantar.
Apoiou-se para se equilibrar, e ento seus dedos tocaram em alguma 
coisa...
112

CAPTULO VII

Depois de ir a Osterley Park e almoar com o conde de Jersey, o conde de
Staverton voltou para Londres com uma sensao de urgncia.
Tinha achado difcil prestar ateno  luta de boxe, que foi boa, ou 
admirar os tesouros que Jersey lhe mostrou em sua casa magnfica, 
decorada por Adam.
Em vez disso, via o rosto infeliz de Petrina e ouvia sua voz angustiada 
pedindo-lhe que compreendesse a razo de seu procedimento.
Depois que se acalmou, o conde compreendeu claramente o motivo de
Petrina tentar arranjar uma histria para o reprter, a fim de impedi-lo
de publicar o que estaria acontecendo entre ele e Isolda.
Percebia agora por que lady Isolda insistira tanto em ficar com ele, 
depois que o prncipe regente e os outros convidados partiram. Disse a 
Durwin que tinha um fato importante a comunicar-lhe, mas conde percebeu,
quando ficaram a ss, que a nica coisa importante no que dizia respeito
a Isolda, era induzi-lo a fazer amor com ela.
Era uma coisa que no tinha a menor inteno de fazer em sua prpria 
casa, com a av dormindo l em cima.
Discutiram, e somente quando o conde se mostrou rude foi que Isolda 
finalmente percebeu que precisava partir.
Durwin tornou claro ento que a ligao deles estava terminada, e
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agora compreendia por que Isolda no fizera uma cena. Na realidade,
mostrou-se muito controlada, e ele agora sabia quee estava certa de que,
dissesse o que dissesse, ia ser obrigado a casar com ela.
Quando voltava para Londres, o conde refletiu que o verdadeiro motivo de
ter perdido a calma com Petrina era no gostar que ela soubesse das
maquinaes de suas amantes. Sempre detestara ver a pupila entrar em
contato com o lado feio da vida.
Ficou horrorizado por ela se interessar pelas pobres prostitutas, embora
soubesse que eram vtimas de injustia e criaturas sofredoras.
Petrina era excepcional, no apenas por sua sensibilidade, como pela
piedade que tinha pelas pessoas menos afortunadas.
Embora a admirasse por desejar ajudar os outros, considerava de seu
dever, como tutor, no lhe falar dessa admirao.
Era bem de Petrina ter descoberto, embora sem querer, a embrulhada entre
ele, Yvonne e o duque.
Quando saiu o nmero de The Courier, com a histria do incndio em
Paradise Row, o conde teve que aturar muitas brincadeiras bem-humoradas
dos amigos e as ironias dos inimigos.
Era bem-sucedido demais como esportista e sua figura social muito
importante, para que as pessoas no deixassem de comentar o fato de ter
sido trado pela amante. Achavam que, com isso, ele descera um ou dois
degraus, na escala social.
O conde aceitava tudo o que diziam, com um sorriso cnico nos lbios,
alm de um imperturbvel bom humor que tirou grande parte da satisfao
daqueles que o ironizavam.
Mas, no ntimo, estava furioso por ter sido humilhado, e o que mais o
aborrecia era o fato de Petrina estar a par disso.
Pela primeira vez na vida, duvidou de seu procedimento e sentiu alguma
coisa parecida com vergonha.
Brutalmente, tinha mandado um recado para Yvonne, dizendo-lhe que
desocupasse a  casa de Paradise Row.
Mas, como ele devia ter previsto, ela j esperava por isso e aceitara a
proteo de um par do reino, um homem idoso e muito rico que j a
perseguia h algum tempo.
Naturalmente, Yvonne no devolveu as jias caras que o conde lhe dera,
nem, tampouco, a carruagem e os cavalos.
114
O conde no deu nenhum passo para censurar o duque de Ranelagh nem mudou
sua atitude habitual para com ele. Sabia que o jovem duque estava
nervoso, sabia que nos clubes se cogitava se iria desafiar o traidor para 
um duelo, mas uma das caractersticas do conde, quando fazia um mau
negcio, era esquec-lo.
Mas a parte que Petrina tinha tomado no episdio tornava impossvel o
esquecimento. O conde estava zangado, no apenas pela maneira como tinha
sido tratado, como por ver envolvida no caso uma pessoa to jovem e to
bonita como sua pupila.
Quando chegou a Londres, estava arrependido das coisas duras que havia 
dito a Petrina e disposto a se retratar.
Agora compreendia que ela tinha feito o que achava que era para o bem 
dele.
Naturalmente, estava errado uma debutante se envolver em tais assuntos, 
mas Petrina no era o tipo de moa que teria ficado chocada, ou que risse 
do caso, com as amigas.
"Ela tem coragem", disse o conde a si mesmo. "E  a criatura mais 
imaginosa que conheo. "
com um sorriso tristonho, pensou que s Petrina poderia ter engendrado um 
plano to fantstico para atrair Yvonne e o duque para a rua, vestidos de 
maneira to imprpria, por causa de uns fogos de artifcio que tinham 
explodido no poro da casa.
Quanto mais pensava nisso, mais divertido achava. Ao atravessar as ruas 
de Londres, chegou a rir do episdio.
Quase desejou ter podido ver o duque usando apenas cala e uma colcha 
sobre o dorso nu; assim como ver Yvonne com um neglig difano, no meio 
dos bombeiros.
Tinham-lhe mostrado uma caricatura da cena, e ele achou que iria guardar 
uma cpia, para, no futuro, no confiar nas "mundanas", como Petrina as 
chamava.
Ainda sorria, quando seguiu por Park Lane e entrou na alameda de 
Staverton House.
Eram seis e meia da tarde e ele resolveu no ir jantar no White's, 
conforme tinha prometido aos amigos; ficaria em casa para se desculpar 
com Petrina.
Mas o mordomo lhe informou que a moa ainda no tinha chegado.
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- Saiu guiando um coche, milorde, mais ou menos  uma hora.
- com quem?
- Sinto muito, milorde, mas eu estava nos fundos da casa e um dos lacaios 
que a viu partir no soube dizer o nome do cavalheiro que veio busc-la, 
embora tenha dito que j o viu aqui, h tempos.
O conde ficou imaginando quem poderia ser e subiu para o quarto da av. 
Ela ficou encantada com a visita.
- Divertiu-se em Osterley Park, querido?
-  uma casa magnfica, no h dvida. com quem Petrina saiu?
- Petrina? - perguntou a av, surpresa com a brusca mudana de assunto. - 
No a vejo desde esta manh. Para dizer a verdade, dormi a tarde toda.
- Provavelmente, vai chegar logo - disse o conde, no querendo que a av 
ficasse assustada.
Sabia que, como a maioria das pessoas idosas, ela se preocupava com 
qualquer coisa.
Foi para o quarto, trocar de roupa, mas quando desceu para o jantar, 
soube que Petrina ainda no havia voltado.
Esperou quase uma hora. Depois, mal-humorado sentou-se para jantar
sozinho.
Achou que era indelicado, da parte de Petrina, caso tivesse ido jantar 
com alguma amiga, no ter mandado um recado para a duquesa. Tinha a 
desagradvel sensao de que a moa, perturbada com o que ele lhe tinha 
dito, estava adiando a volta, com medo de novas censuras.
Lembrou-se de ter dito a ela que sasse de sua frente e desejou ter
escolhido as palavras com mais cuidado. Ou, melhor ainda, ter tentado
compreender o motivo do comportamento dela.
Terminado o jantar, o conde foi para a biblioteca, dando ordem para que o
avisassem assim que Petrina chegasse. 
Leu os jornais do dia, depois pegou um livro que tinha achado absorvente, 
mas no conseguiu se concentrar.
Olhava para o relgio continuamente; apesar de sua resoluo em 
contrrio, viu que estava de novo ficando com raiva.
-  ridculo Petrina desaparecer desse jeito - murmurou.
No momento em que ia tocar a campainha para perguntar se ela havia 
chegado, a porta se abriu e a moa apareceu.
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O conde ia repreend-la por lhe causar tanta preocupao, mas, ao ver o
estado em que ela se achava, as palavras morreram em seus lbios.
Bastou olhar para o rosto plido da moa, a expresso assustada dos 
olhos, os cabelos em desalinho, para saber que algo de anormal tinha 
acontecido.
- Que houve?
Por um momento, pareceu que ela no podia responder. Depois, com voz 
rouca, falando to baixo que ele mal a entendeu, disse:
- Eu... matei um homem... e roubei um coche! Cambaleou, e o conde se 
adiantou para ampar-la. Levou-a para o sof e esperou que ela falasse.
- Perdoe-me... perdoe-me... - era s o que a moa repetia, com tom
infeliz.
O conde fez com que se recostasse nas almofadas e foi at uma mesinha
pegar um pouco de conhaque.
Depois, sentou-se ao lado de sua pupila, ps os braos  volta dela e 
levou o copo aos lbios trmulos.
- Beba Petrina! Depois, pode me contar o que aconteceu.
Ela tomou um golinho. Sacudiu a cabea, detestando o gosto da bebida.
- Beba mais! - disse ele, com firmeza. Ela obedeceu, fraca demais para 
discutir.
Sentiu que a bebida a reanimava um pouco. Quando ergueu a mo para 
afastar o copo, agora pela metade, o conde colocou-o numa mesinha ao lado 
do sof. com voz grave e serena, disse:
- Agora, conte o que aconteceu.
Petrina ergueu para ele os olhos sombrios e amedrontados.
- Eu o matei... Eu o matei...
- Matou quem?
- Lorde Rowlock.
O conde apertou os lbios; mas foi ainda com voz calma, inexpressiva, que 
falou:
-  melhor me contar exatamente o que aconteceu.
Hesitante, gaguejando, mas conseguindo falar porque segurava com fora a
mo dele, Petrina contou seu encontro com lorde Rowlock, acrescentando
que, por estar ferida e infeliz por causa do que o conde lhe
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havia dito, aceitara o convite de Rowlock para competir com lady Lawley
numa corrida de coches.
- Agora acho que no houve corrida nenhuma - continuou a moa, com 
expresso infeliz. - Foi apenas... uma desculpa que usou para me fazer... 
ir com ele.
O conde encorajou-a a prosseguir e ela contou que tinha pegado no sono, 
na estalagem, e que depois lorde Rowlock descobriu que um dos cavalos 
tinha perdido a ferradura.
Olhou para seu tutor e viu nos lbios dele um trejeito irnico.
-  um truque muito velho, mas voc no podia saber disso observou o 
conde.
Petrina contou que jantaram, enquanto supostamente esperavam pelo 
ferreiro. Terminada a refeio, lorde Rowlock confessou que tinha 
planejado tudo para eles passarem a noite ali, a fim de obrig-la a casar 
com ele.
- Compreendi, ento, como tinha sido tola - disse, quase soluando.
- Tentei fugir, mas ele era muito mais forte. Quando me abraou, percebi 
que eu... no podia fazer nada.
- E depois?
- Enquanto lutvamos, fiquei de costas para uma mesinha. Tinham sido 
servidos uns pratos frios ao jantar... Coloquei minha mo na mesa, para 
me apoiar, e... senti o cabo de uma faca.
Seus dedos seguraram com fora a mo do conde.
- Soube que era a nica coisa que... me salvaria - murmurou ela. Os 
braos dele prendiam os meus, e pude apenas mover a mo.
- O que foi que voc fez? Petrina soltou um gritinho.
- Foi horrvel! A faca entrou com tanta facilidade... at o cabo... 
Depois, ele gritou, caiu e no se moveu mais. Ficou cado, e o sangue 
comeou a jorrar.
- Que aconteceu, ento?
- Eu no podia olhar. No podia ficar ali. Tinha certeza de que ele 
estava morto! Sa da saleta correndo, segui pelo corredor e fui at a 
porta de entrada. Vi uma carruagem. No era elegante como as suas, mas 
era puxada por dois cavalos, e um cavalario segurava as rdeas.
Houve uma pausa. Ela continuou, com esforo:
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- Corri para o lado da carruagem e disse ao rapaz que tinha havido um 
acidente e o patro precisava dele imediatamente. Falei que eu ficava 
tomando conta das rdeas. - E ele acreditou?
- Entregou-me as rdeas e entrou na estalagem. Subi no coche, no lugar do 
cocheiro, e parti a toda velocidade.
O conde no pde deixar de pensar que ela tinha sido muito engenhosa.
- Julguei ouvir algum gritar, mas no olhei para trs - continuou 
Petrina. - Chicoteei os cavalos, entrei na estrada principal e vim para
Londres.
Contou que descobrira que no estava muito longe da cidade e que lorde 
Rowlock, provavelmente, havia tomado um caminho muito mais longo, na ida, 
para prolongar a viagem.
Terminada a narrativa, Petrina abaixou a cabea e disse, com uma vozinha 
amedrontada:
- Ele est morto, tenho certeza.
-  o que vou averiguar.
A moa encarou-o com ar indagador, e ele continuou:
- No vou apenas saber se lorde Rowlock morreu. Vou devolver o coche que
voc... pegou emprestado. No quero que seja acusada de
roubo.
Sorriu, ao dizer isso. A moa agarrou-lhe a mo.
- No me deixe! - suplicou.
- Tenho que fazer isso, por algum tempo, mas no vou demorar mais do que 
o necessrio. Fique aqui, ou v para a cama, Petrina. Assim que eu 
voltar, irei contar-lhe exatamente o que aconteceu.
Levantou-se, mas a moa continuou agarrando-lhe a mo.
- Sinto muito. Sinto muito, mesmo, por ter causado um escndalo.
- No haver escndalo, se eu puder evitar. No se desespere, Petrina. As
coisas talvez no sejam to ms como pensa. - Fez com que ela se deitasse 
no sof. - Procure dormir. Est exausta, e isso no  de admirar. Nada  
mais cansativo do que o medo. - Voltarei o mais depressa possvel - 
acrescentou, inclinando-se e beijando-lhe os lbios.
Foi um beijo leve, como o que se d numa criana. Mas, ao sair, o conde 
compreendeu que no tinha beijado uma criana e que nada havia de 
infantil na resposta.
119
Petrina ficou deitada no sof e disse a si mesma que a sensao dos 
lbios do conde sobre os seus era a coisa mais maravilhosa que jamais 
tinha experimentado.
Sabia que ele a beijara apenas para confort-la. Mas, como o amava, o 
medo que sentia foi substitudo pelo xtase.
Aquele beijo era uma coisa da qual se lembraria para o resto da vida. 
Depois, refletiu que talvez no fosse viver muito tempo. Havia matado um 
homem, e a pena para esse crime era a morte.
Petrina tinha lido sobre os horrores que os condenados sofriam na priso 
Newgate, antes de serem enforcados, ou (o que era considerado uma 
sentena misericordiosa) deportados.
Tudo o que lera sobre esses condenados  morte, ou acerca dos que eram 
mandados para a Austrlia, lhe veio  memria. com um gritinho, escondeu 
o rosto nas mos.
Depois, ficou pensando se o conde realmente chegaria  estalagem antes da 
polcia, voltando a seguir para Staverton House.
E se o estalajadeiro descobrisse logo o morto e avisasse a polcia, antes 
que o conde voltasse para proteg-la?
Ignorava se o dono da estalagem sabia ou no quem era ela.
Amedrontada com tais pensamentos, Petrina levantou-se e subiu para seu 
quarto.
No chamou a empregada. Ao olhar-se no espelho, ficou consternada com o 
que viu.
Quando sara da estalagem, estava sem chapu, e seus cabelos, em total
desalinho. Devido  luta com Rowlock o vestido estava amarrotado. E
tambm sujo de poeira, por causa da viagem.
Tirou-o e jogou-o no cho. Depois de se lavar, abriu o armrio.
Imaginou qual seria o melhor vestido para usar na cadeia, e de novo 
estremeceu de horror.
Ficou  escuta, para ver se distinguia vozes na escada; esperou que algum 
criado batesse  porta, para dizer que a polcia a procurava.
- Preciso me esconder - murmurou. - Preciso ir para um lugar onde fique 
em segurana, at o conde voltar.
Apressadamente, vestiu-se e colocou nos ombros uma capa de veludo escuro.
A bolsa que continha dinheiro estava numa gaveta da penteadeira.
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Dali a minutos, abriu a porta do quarto. Para no ser vista pelos lacaios 
de servio no hall, desceu por outra escada, que dava num corredor que 
levava ao escritrio do sr. Richardson.
Petrina foi at a porta. No se ouvia som algum, e ela achou que o 
secretrio j tinha ido para seus aposentos, em outra parte da casa.
Abriu a porta com cuidado.
Havia apenas uma lamparina acesa, mas fornecia luz suficiente para ela 
ver o que queria.
Caminhando de mansinho, foi at o quadro onde estavam penduradas as 
chaves.
No teve dificuldade de encontrar a que procurava, pois todas tinham 
etiqueta. Pegou a da casa de Paradise Row.
Ainda pelo terrao, atravessou o jardim, correndo, at o portozinho que 
havia no muro.
Petrina abriu a porta da frente da casa que tinha sido de Yvonne.
Estava escura, mas, como se lembrava da planta que Nicholas lhe havia 
mostrado, conseguiu andar com cuidado no hall, tateando com as mos  
frente, e entrando numa sala  direita.
Era um salo grande, correndo ao longo da casa, com janelas dando tanto 
para a rua quanto para o jardim dos fundos.
Ela esperava que a sala estivesse vazia, mas tropeou numa cadeira. 
Devagar, receando cair, encontrou um sof e sentou.
Antes de sair de Staverton House, escrevera um bilhete para o conde, 
contando para onde ia e deixando-o sobre o travesseiro.
Sabia que, se ele no a encontrasse na biblioteca, iria procur-la no 
quarto.
Agora era s esperar. Considerou que, se o conde achasse que ela corria 
perigo de ser presa, lhe daria dinheiro para ir para o estrangeiro ou 
para a Esccia, onde ningum a encontraria.
Era assustador pensar que talvez tivesse que viver sozinha e disfarada, 
para o resto da vida. To assustador, que Petrina ficou pensando se no 
seria melhor morrer e acabar logo com tudo.
Tinha certeza de que, devido a seu comportamento, no haveria felicidade 
para ela, no futuro, e que o conde nunca a perdoaria pelo escndalo 
causado.
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Embora ele se mostrasse bondoso, ao ouvir o incidente com Rowlock isso 
no queria dizer que no estivesse zangado com ela, como quando ouvira 
falar dos fogos de artifcio.
- Eu o amo! Eu o amo! - murmurou Petrina, sentindo de novo o gosto dos 
lbios dele e uma sensao de alegria no corao. - Ele   maravilhoso,
magnfico! Como eu poderia esperar que me considerasse outra coisa, alm
de uma criana?
Certamente, o conde no tinha vontade de ser seu tutor, e ela se lembrou
de como relutara em aceitar semelhante responsabilidade.
Como jamais imaginaria que ia se apaixonar por ele e que, s o fato de
viverem sob o mesmo teto era uma alegria sem limites?
- Pelo menos, ele me beijou - murmurou Petrina, pensando con tristeza no 
que o futuro lhe reservava.
Desejava sentir os braos do conde  sua volta; queria que ele a 
beijasse, como lorde Rowlock tentara fazer.
Depois, achou que estava sendo presunosa ou, conforme diria o conde, 
impressionante, ao imaginar semelhante coisa.
O tempo pareceu passar muito lentamente, to lentamente que Petrina ficou 
tensa, no escuro, chegando a pensar que, ao descobrir que ela tinha sado 
de casa, Staverton tambm decidira abandon-la  prpria sorte. Que no 
se importava que estivesse sozinha numa casa vazia. Talvez achasse que 
era a melhor maneira de se livrar dela e de se esquecer de sua 
existncia.
De repente, pensou que talvez o conde ficasse ainda mais enojado com ela, 
por ter vindo pra a casa onde mantivera sua ex-amante.
Pela primeira vez, Petrina duvidou do acerto de sua deciso de fugir de 
Staverton House.
Teve a impresso de sentir no ar o perfume usado por Yvonne Vouvray e de 
ouvir a voz do conde falando  amante de seu amor e Yvonne respondendo 
com seu sotaque encantador.
Petrina soltou um gritinho e ps as mos nos ouvidos, para no perceber 
esses murmrios imaginrios.
Depois, descobriu que no estava sozinha.
Algum tinha entrado na casa, sem que ela percebesse... ou talvez tivesse 
estado ali o tempo todo.
Prendeu a respirao ao ouvir seu nome:
122
- Petrina!
No havia dvida quanto ao timbre grave. com um grito que pareceu ecoar 
na sala, Petrina levantou-se e correu para ele. O conde abraou-a e 
sentiu o corpo macio, quente, contra o seu. Apertou-a mais ainda e disse, 
em tom reconfortante:
- Est tudo certo. Ele no morreu. Petrina ergueu o rosto.
- No... morreu?
- Est vivo, embora voc tenha sido muito dura com ele. Mas Rowlock 
mereceu o que recebeu!
- Tem certeza?
- Absoluta! - com uma nota divertida na voz, acrescentou: - No precisa 
se esconder da polcia e pode voltar para casa, minha querida!
Petrina ficou imvel.
Quando levantou a cabea, julgando no ter ouvido direito, o conde 
beijou-a nos lbios.
Por um momento, ela pensou que estivesse sonhando. Depois, a emoo que 
tinha sentido com o primeiro beijo tornou-se mais intensa, at que achou 
que, ali, no escuro, ela no mais existia, porque fazia parte dele.
Foi como se o conde tomasse sob sua proteo a alma e o corao de 
Petrina, e ela lhe entregasse no apenas seu amor como todo o seu ser, 
tornando-se completamente dele, como era seu desejo.
Os lbios do conde se tornaram mais exigentes, mais possessivos, e 
Petrina sentiu-se envolvida por uma luz divina.
Eu o amo!, queria dizer. Mas no tinha palavras.
O conde levou-a at o cu, e ela fazia parte da Lua e das estrelas, 
parecendo ao mesmo tempo que a luz do Sol os envolvia.
Finalmente, o conde disse, com voz ligeiramente trmula:
- Minha bem-amada! No existe ningum to imprevisvel nem to 
incorrigvel como voc, mas eu no gostaria que fosse diferente.
- Eu o amo - murmurou Petrina, mal sabendo o que dizia. Fascinada, 
perplexa, estava presa pela lembrana dos beijos dele.
- Eu tambm a amo.
Embora no pudesse v-lo no escuro, Petrina ergueu os olhos para o conde.
123
- Voc... me ama?  verdade?
- Mais do que verdade. Mas aqui no  lugar para eu lhe dizer isso.
- Ser que o lugar importa? Rezei para que tivesse um pouco de afeio 
por mim, mas nunca pensei que... me amasse.
- Lutei contra isso. Lutei contra o amor, -mas no posso impedir meus 
sentimentos por voc. Quando percebi que estava pronto para salv-la das 
consequncias de qualquer crime que tivesse cometido, fiquei sabendo que 
no poderia viver sem voc.
Petrina soltou uma exclamao de felicidade. O conde apertou-a contra o 
peito.
- Se voc tivesse matado Rowlock, iramos para o exterior, juntos.
- Quer mesmo dizer que... iria comigo?
- Acha que eu deixaria que fosse sozinha? - Depois, riu. - S Deus sabe 
como voc se mete em encrencas, mesmo quando estou perto, de modo que no 
posso imaginar o que aconteceria se eu no estivesse.
- S o que desejo  ficar com voc - disse Petrina. - Para sempre!
- E  exatamente o que vai acontecer, embora eu estremea ao pensar no 
tipo de vida que voc me far levar.
- Serei boa. Farei tudo o que voc quiser - respondeu Petrina, 
apaixonada. Fez uma pausa e perguntou, receosa: - Est dizendo a verdade? 
Realmente me ama?
- Claro que sim! E farei com que acredite, doura, por mais tempo que eu
leve para convenc-la disso!
- Por favor, beije-me... -murmurou.
Os lbios do conde buscaram os dela, e de novo Petrina sentiu-se no cu.
Os beijos dele tornaram-se mais apaixonados, mais exigentes, provocando 
uma chama que a consumiu toda.
- Eu o amo! - disse, depois que ele a soltou.
- E eu a amo, minha adorada, minha imprevisvel adorada! Venha comigo 
para casa.
Abraou-a e levou-a para a porta, onde a carruagem fechada os esperava.
Depois que entraram e que o lacaio fechou a porta, o conde tomou-a de 
novo nos braos.
Petrina encostou a cabea no ombro dele e suspirou de felicidade.
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Pediu:
- Conte-me o que aconteceu.
- Fui at a estalagem. Um de meus cavalarios me acompanhou, levando um 
cavalo extra; um outro dirigiu o coche do qual voc se apossou de um modo 
to arbitrrio!
- O dono ficou muito zangado?
- Quando cheguei  estalagem... e, por falar nisso, levei apenas trs 
quartos de hora... vi meia dzia de homens conversando no bar. falando 
alto. Olharam para mim, quando entrei, e perguntei se algum ali tinha 
perdido um coche com dois cavalos. Todos ficaram estupefatos. Depois, um 
cavalheiro idoso, um tpico senhor rural, disse que seu coche havia sido 
roubado. "Ento, tenho o prazer de devolv-lo", eu lhe disse. "Encontrei-
o na estrada, abandonado, os cavalos comendo capim, ao lado." - O conde 
sorriu e acrescentou: - Todos ficaram excitados, e eu perguntei o que 
acontecera e por que o haviam roubado. O estalajadeiro explicou que tinha 
sido levado por uma "mulherzinha" de Londres, que acompanhava um nobre 
chamado lorde Rowlock. Segundo ele, a tal mulherzinha foi muito malvada, 
porque brigou com o cavalheiro e enfiou-lhe a faca na barriga!
- E a? - perguntou Petrina. ansiosa.
- Fingi preocupao e quis saber se o cavalheiro estava muito ferido. O 
estalajadeiro me informou de que o cirurgio tinha dito que Rowlock 
precisava ficar de cama durante vrios dias.
Petrina suspirou.
- Pensei que estivesse morto, porque sangrava muito.
- Esquea, querida. No deve mais pensar em Rowlock.
- Voc me perdoa por eu... ter aceitado o convite dele?
- Perdoarei se me prometer nunca mais dirigir os cavalos de ningum, 
exceto os meus.
Ela deu uma risadinha.
- Como se eu fosse fazer isso! Ningum tem cavalos to soberbos
como os seus.
- Vou ficar com inveja de meus cavalos se eles impedirem, que voc pense
em mim.
- Sabe que no desejo pensar em nada e em ningum, a no ser em
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voc. Ainda no posso acreditar que me ame realmente, depois de eu ter me
comportado to mal.  luz das lmpadas de gs, na rua, ela percebeu que o
conde sorria.
- Vejo que est precisando urgentemente de algum para mant-la na linha.
Como seu marido, estarei mais habilitado para fazer isso do que qualquer
outra pessoa.
- Quer mesmo casar comigo?
- No est sugerindo ocupar qualquer outra posio em minha vida. est?
Ela corou, sabendo o quanto ele desaprovava seu interesse pelas 
"mundanas" e pelas "damas-da-noite".
- Suponhamos que eu... o decepcione... Ou que me meta em alguma encrenca, 
e voc... venha a me odiar...
- No me decepcionar, querida. Talvez me deixe apreensivo de vez em 
quando, ou ansioso e at zangado, mas ainda assim a amarei, pois jamais 
conheci uma pessoa como voc e nunca me senti to encantado.
- Voc me diz coisas to maravilhosas! Como posso demonstrar o quanto o 
amo?
- Basta voc me dar seu amor.  uma coisa que desejo e da qual preciso, 
minha pupila querida, levadinha da breca!
Petrina agarrou-se ainda mais a ele.
- Nunca pensei que eu pudesse ser to feliz.
- Nem eu.
Gostaria de beij-la, mas nesse momento a carruagem entrou na alameda de 
Staverton House.
Quando entrou no hall, Petrina teve a impresso de que as luzes a 
ofuscavam. Soube que no era apenas porque ela sara das trevas que a 
tinham envolvido durante tanto tempo, como tambm porque se sentia to 
feliz que tudo  sua volta parecia ter uma luz divina.
Foram para a biblioteca. Depois que a porta se fechou, a moa virou-se 
para o conde.
Achou impossvel um homem ser to magnfico, to belo e, ao mesmo tempo, 
to autoritrio.
- Em que est pensando? - perguntou o conde.
- Acho que estou sonhando - respondeu Petrina, com voz entrecortada. - 
Que no  possvel que voc me ame.
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O conde abriu os braos.
- Venha c e lhe direi o quanto!
Petrina correu para ele e o conde a apertou contra o peito. Ela ergueu a
cabea e viu que a olhava ternamente, ao dizer:
- Nunca pensei que uma mulher pudesse ser to bonita e tambm to
imprevisvel e to original. H em voc, minha querida, qualquer coisa de
irresistvel! Jamais imaginei sentir por uma mulher o que sinto por voc.
- Talvez, quando me conhecer melhor, fique entediado.
- Acho pouco provvel, porque sua mente  to cativante como seu rosto, 
meu amor. No conheo outra que pense como voc pensa e, para dizer a 
verdade, que sinta como voc sente.
- O que fiz, muitas vezes, o deixou muito zangado.
- E tenho certeza de que o mesmo acontecer no futuro. Mas garanto-lhe 
que  impossvel ficar entediado e zangado ao mesmo tempo.
Petrina riu.
-  to excitante, to maravilhoso, saber que posso ficar a seu lado, 
conversar com voc e aprender com voc!
Teve a impresso de que ele a olhava com surpresa e acrescentou:
- H tantas coisas que eu desejava que voc me ensinasse, desde que vim 
para c, mas no queria fazer muitas perguntas. Voc  to inteligente, 
sabe tanta coisa! Vai me ensinar o que quero saber?
- No fao promessas - respondeu o conde, com cautela. - Mas h uma coisa 
que vou lhe ensinar, minha adorada, e que para mim  a mais importante da 
vida.
- O qu?
- O amor. E, mesmo que voc seja uma tima aluna, garanto que as lies 
levaro muito tempo!
-  o que desejo aprender - murmurou Petrina.
- Tambm eu tenho muito que aprender. Agora sei que nunca amei, at 
conhecer voc.
- Sou diferente?
Petrina no pde deixar de pensar na beleza de lady Isolda e no encanto e 
na atrao de Yvonne Vouvray.
- Muito diferente. E  verdade, minha querida, que nunca pedi outra 
mulher em casamento.
- Fico satisfeita com isso. Muito satisfeita.
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Como se no pudesse esperar que a iniciativa partisse dele, Petrina ps 
os braos  volta do pescoo do conde e puxou sua cabea para baixo.
- Eu o amo com todas as fibras de meu ser. Meu corao, minha alma, meu 
esprito... so seus!
O conde apertou-a com tanta fora que ela mal podia respirar.
Beijou-a com paixo, tornando-a sua prisioneira e despertando nela um
fogo que a consumia.
"At parecem os fogos de Paradise Row", pensou Petrina, irreverente.
S existiam as estrelas, a Lua, o Sol, tudo o que havia de belo no mundo, 
quando ele a transportou para um cu onde havia uma felicidade sem 
limites.
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                            *****

QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de cem milhes
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou 
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. 
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que 
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides
das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das
reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de
j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de 
melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.

Fim
